Não, a renovação de Steve Clarke não é apenas um protocolo burocrático selado às vésperas de uma Copa do Mundo. Ela é o reconhecimento formal de que a Escócia — ausente dos Mundiais por 28 anos, de 1998 a 2026 — construiu sob o comando desse técnico de 62 anos algo que vai além de uma classificação: uma identidade competitiva sustentável. E é exatamente essa distinção que o Brasil precisa enxergar antes de entrar em campo no dia 24 de junho, no Estádio de Miami.

A narrativa de "adversário fácil" que os números de Clarke desmentem

Circula no debate futebolístico brasileiro a ideia de que a Escócia é o adversário mais acessível do Grupo C — abaixo de Marrocos, que eliminou Portugal e Espanha em 2022, e obviamente atrás do Brasil em qualquer projeção de favoritismo. Essa leitura ignora o que sete anos de Clarke construíram com dados concretos.

Quando Clarke assumiu a seleção escocesa em 2019, o país acumulava 22 anos sem aparecer em nenhuma fase final de torneio de grande porte. Sob seu comando, a Escócia classificou-se para a Eurocopa de 2020 (disputada em 2021), para a Eurocopa de 2024 — na Alemanha — e agora para o Mundial de 2026. Três classificações consecutivas para torneios de elite em sete anos. Na história escocesa do pós-guerra, nenhum outro técnico chegou perto desse aproveitamento em fases de qualificação.

"Sei que os torcedores da Escócia valorizam as conquistas deste grupo ao se classificar para duas Eurocopas consecutivas e tenho a certeza de que toda a nação comemorou a nossa classificação para a Copa do Mundo de 2026 após tanto tempo", declarou Clarke no comunicado oficial da Federação Escocesa.

O elenco convocado por Clarke para o Mundial tem substância europeia verificável. Andy Robertson, lateral-esquerdo que defendeu o Liverpool por quase uma década e conquistou a Champions League em 2019, é o capitão e organizador do setor esquerdo. John McGinn, meio-campista do Aston Villa desde a temporada 2018/2019, chegou ao Mundial como campeão da Liga Europa — título conquistado pelo clube inglês na temporada 2025/2026. Não são figurantes; são jogadores com títulos continentais recentes nas mãos.

O que o histórico do Brasil em estreias de Copa revela sobre o risco escocês

A última vez que a Escócia disputou uma Copa do Mundo foi em 1998, na França. Naquele torneio, o grupo escocês incluía Brasil, Noruega e Marrocos — curiosamente, dois dos mesmos adversários que Clarke enfrentará em 2026. Em Saint-Denis, no dia 10 de junho de 1998, o Brasil venceu a Escócia por 2 a 1, com gols de César Sampaio (6 minutos) e Tom Boyd (contra, aos 38 minutos do segundo tempo), além do gol escocês marcado pelo próprio Boyd, que desviou para o próprio gol antes de marcar o de honra. Placar final: Brasil 2, Escócia 1. A Escócia saiu do torneio na fase de grupos, mas não foi atropelada.

O Brasil, por sua vez, tem um histórico de estreias em Copas que mistura solidez e susto. Em 2014, no Itaquerão, a Seleção precisou de um pênalti aos 90+1 minutos para vencer a Croácia por 3 a 1 — partida que incluiu um gol irregular validado e uma atuação longe do ideal. Em 2018, na Rússia, empate por 1 a 1 com a Suíça na estreia. A ideia de que o Brasil resolve seus jogos de abertura com facilidade não resiste ao escrutínio histórico.

O jogo de 24 de junho em Miami será a segunda partida do Brasil no Grupo C — antes, o Brasil enfrenta Marrocos no dia 13 de junho. A Escócia estreia contra o Haiti em Boston também no dia 13. Quando os dois se encontrarem, ambas as seleções já terão 90 minutos de Copa no corpo, o que equaliza parcialmente a questão da adaptação ao ritmo do torneio.

Clarke firma projeto até 2030 e transforma o Mundial de 2026 em ponto de partida

O contrato assinado na quinta-feira, 28 de maio, vai até a Copa do Mundo de 2030 — o centenário do torneio — e inclui a campanha da Eurocopa de 2028, que terá Reino Unido e Irlanda como co-anfitriões, com jogos também em território escocês. Para Ian Maxwell, diretor-executivo da Federação Escocesa, a lógica da renovação era direta.

"Ele é nosso treinador mais bem-sucedido e por que não querer alguém assim no comando pelos próximos quatro anos?", afirmou Maxwell ao confirmar o acordo.

A dimensão estratégica da renovação é relevante para entender como Clarke chegará ao duelo com o Brasil. Um técnico que já sabe que não será demitido após o torneio tem liberdade para experimentar taticamente, para poupar jogadores-chave em partidas menos decisivas e para construir uma narrativa de grupo sem a pressão existencial de um contrato vencendo. Clarke declarou em comunicado que trabalhará com o novo diretor de futebol, Craig Mulholland, para "aumentar o fluxo de talentos para a seleção principal por meio das seleções juvenis" — sinal de que o projeto pensa além de Miami.

Matéria do SportNavo registrou que Clarke também enfatizou a estabilidade como pilar do sucesso: "A estabilidade é a chave para o sucesso no futebol, e isso certamente tem sido o caso durante meus últimos sete anos como técnico principal". Sete anos no mesmo cargo é uma raridade no futebol contemporâneo — especialmente em seleções nacionais europeias, onde a rotatividade técnica é crônica.

Para o Brasil de Carlo Ancelotti, que também renovou seu vínculo com a CBF, o aviso prático é o seguinte: a Escócia que entrará em campo em Miami no dia 24 de junho não é uma seleção improvisada comemorando uma classificação histórica. É um grupo construído ao longo de sete anos por um técnico que já pensa em 2028 e 2030, com jogadores campeões da Champions League e da Liga Europa, e com a memória viva de 1998 — quando perdeu para o Brasil por apenas um gol de diferença. O aproveitamento de Clarke nas qualificatórias que levaram a Escócia ao Mundial de 2026 foi de 64%, com 19 vitórias, 8 empates e 3 derrotas nos 30 jogos sob seu comando até a classificação.