Vinte dias. Esse foi o tempo que separou Malcom, atacante do Corinthians que havia acabado de completar 18 anos, de uma Carteira Nacional de Habilitação suspeita de ter sido comprada por até R$ 6 mil. O Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran-SP) identificou irregularidades no processo do jogador e suspendeu o documento imediatamente, em um esquema que envolve cerca de 4.900 motoristas e movimentou ao menos R$ 10 milhões no estado de São Paulo.
O que o Detran exige — e o que o sistema registrou
Para tirar uma CNH dentro da legalidade, o candidato precisa cumprir 45 horas-aula de curso teórico, 25 aulas práticas (sendo 5 noturnas), além de exame médico e psicotécnico. O processo leva, em condições normais, entre 75 e 90 dias — ou pelo menos três meses, conforme os trâmites regulamentados. No caso de Malcom, o sistema do Detran-SP registrou exame médico realizado em 12 de março, início de aulas teóricas em 13 de março e aulas práticas no mesmo dia 13. Os três passos não apenas aconteceram em sequência impossível como violaram regras básicas do processo: o aluno só pode agendar aulas após o resultado do exame médico, e só pode pegar no volante depois de aprovado no exame teórico escrito.
O director-presidente do Detran-SP, Daniel Annenberg, foi direto ao ponto ao comentar o caso ao SPTV:
"Isso é crime. O cidadão pode ser preso por dois a 12 anos por conta de corrupção ativa e passiva."A pena máxima inclui ainda a possibilidade de enquadramento por organização criminosa, o que agrava o quadro jurídico.
O mecanismo da fraude — a senha militar
O Detran identificou que os funcionários afastados — 12 ao total — usavam uma senha especial reservada para integrantes das Forças Armadas, categoria que possui rito simplificado para obtenção da CNH. Essa credencial foi sistematicamente oferecida a civis que pagavam entre R$ 2 mil e R$ 6 mil pelo serviço. No caso de Malcom, o Detran apontou que o jogador teria sido identificado no sistema como militar — condição que não se aplica a ele. As fraudes foram encontradas em ao menos sete cidades do interior paulista: Hortolândia, Jundiaí, Laranjal Paulista, São Caetano do Sul, São Vicente, Sumaré e Valinhos, todas com emissão de CNHs em até 20 dias.
A investigação começou justamente porque Malcom deu uma entrevista a um portal na internet afirmando que já dirigia, mesmo sem ter a CNH, porque possuía um "protocolo do Detran". Annenberg foi categórico: esse tipo de protocolo simplesmente não existe no sistema do departamento. A declaração do próprio jogador foi o gatilho que acionou o trabalho de inteligência do Detran. O portal SportNavo apurou que o nome de Malcom também aparece inscrito em dois Centros de Formação de Condutores (CFC) simultaneamente — situação igualmente vedada pela legislação, e que reforçou as suspeitas sobre a irregularidade do processo.
A defesa do jogador e a versão dos advogados
A defesa de Malcom contestou formalmente as informações divulgadas pelo Detran. O advogado Régis Villas Bôas Villela afirmou que a narrativa dos 20 dias é inverídica.
"Ele deu entrada com os documentos para tirar a carteira em fevereiro. A emissão aconteceu em maio. Portanto, não é verídico dizer que ele tirou a carteira em 20 dias", declarou o defensor. A defesa também negou que o documento tenha sido retirado em Hortolândia, afirmando que todo o processo ocorreu na cidade de São Paulo.
O advogado acrescentou que Malcom não foi comunicado pelo Detran sobre a suspensão da habilitação, nem convocado para prestar esclarecimentos antes da divulgação do caso na imprensa. A orientação dada ao atleta foi clara: não dirigir — não por causa da situação da CNH, mas para evitar qualquer exposição adicional enquanto o caso tramita. O Corinthians, por sua vez, classificou a situação como "problema pessoal" do atleta, prometendo conversar com o jogador após os treinamentos. A assessoria do clube optou por não se manifestar publicamente.
Precedente e impacto além do campo
O caso de Malcom não é isolado no futebol brasileiro. O atacante Leandro, que defendia o Palmeiras à época da reportagem, chegou a ser preso quando ainda jogava pelo Grêmio por conta de uma CNH comprada irregularmente. O padrão se repete: jogadores jovens, recém-chegados ao profissional, com dinheiro e sem estrutura para lidar com processos burocráticos, tornam-se alvos fáceis de esquemas que oferecem atalhos ilegais.
Na avaliação do SportNavo, o dado mais revelador do escândalo não é o nome de Malcom, mas a escala do esquema: 4.900 habilitações canceladas, R$ 10 milhões movimentados e 12 funcionários do Detran afastados revelam uma estrutura criminosa instalada dentro do próprio órgão regulador. As denúncias foram encaminhadas à Polícia Civil de São Paulo, que conduz investigação paralela ao processo administrativo do Detran. Caso as irregularidades sejam confirmadas pela Justiça, Malcom pode responder por corrupção ativa — com pena de dois a 12 anos de reclusão.








