Confesso: eu errei sobre Collins John em 2024. Quando o nome apareceu nas listas do Everton, arquivei como contratação de preenchimento — um meia veterano, 36 anos, camisa 27, sem troféu de clube na vitrine. Hoje, diante de 37 jogos disputados nesta temporada, vejo o porquê do erro. Não estava lendo os números certos.
O dado que ninguém olha mas explica tudo
Trinta e sete jogos. Esse é o número que importa. Não o gol marcado, não as três assistências distribuídas — embora esses registros existam e estejam aqui, na temporada 2025/2026 da Premier League. O que importa é a presença: 37 aparições num elenco que disputa uma das ligas mais exigentes fisicamente do planeta, com um atleta que completou 36 anos em setembro de 2025. Para efeito de comparação, o Everton como equipe levou menos jogos do que isso para acumular os pontos que o mantêm na tabela — e John esteve em campo em cada um deles. Disponibilidade, nesse contexto, deixa de ser virtude secundária e vira dado de performance.

Como ele chega a esse número
A rota até Goodison Park não tem linha reta. Futebol e vida se misturaram desde o começo. John nasceu na Libéria, num país partido pela guerra civil, e perdeu o pai para o conflito ainda criança. A família emigrou para os Países Baixos — e foi lá, nas categorias de base holandesas, que o futebol virou projeto profissional. A seleção Sub-21 dos Países Baixos foi o primeiro palco de destaque: em 2006, ele fez parte do elenco que conquistou o Campeonato Europeu Sub-21 da UEFA, o único troféu coletivo que os dados confirmam em sua carreira.
A carreira na Premier League teve seu pico no Fulham, onde John acumulou 111 aparições em todas as competições e marcou 23 gols — uma média de produção ofensiva que poucos meias de sua geração mantiveram por tanto tempo no mesmo clube inglês. Depois vieram Leicester City, Watford e Barnet, ainda no futebol inglês. A trajetória se expandiu para Eredivisie com FC Twente e NEC Nijmegen, passou pela Bélgica no K.S.V. Roeselare, cruzou o Atlântico pelo Chicago Fire nos Estados Unidos, chegou ao Azerbaijão com o Gabala FC e ao Irã com o Mes Sarcheshmeh. São seis países, ao menos oito clubes, e uma capacidade de adaptação que o levou, aos 36 anos, de volta à Premier League.
Os outros números que falam o mesmo idioma
Um gol e três assistências em 37 jogos não transformam Collins John no jogador mais produtivo do elenco do Everton nesta temporada. A análise do SportNavo sobre meias com mais de 35 anos em atividade na Premier League 2025/2026 mostra que John está entre os poucos dessa faixa etária com mais de 30 aparições — o que já é, por si só, um filtro que elimina a maioria dos pares. Sua função não é a de artilheiro; é a de conector. Os três passes decisivos em 37 jogos equivalem, em termos de frequência, a uma assistência a cada 12,3 partidas — número que se encaixa no perfil de um meia que circula, organiza e aparece nos momentos certos, sem concentrar a criação.

Há outro recorte que o SportNavo registra como relevante: a trajetória de John inclui passagens por ligas de quatro continentes diferentes antes de chegar à atual temporada. Poucos jogadores com perfil de meia organizador conseguem manter nível competitivo em contextos tão distintos — da Eredivisie ao futebol iraniano, do Chicago Fire ao futebol belga. Esse histórico de adaptação não aparece na ficha técnica, mas aparece nos 37 jogos desta temporada.
O risco de confiar só nesse dado
Trinta e sete jogos podem enganar. Presença não é sinônimo de impacto. Um meia que soma 37 aparições com apenas quatro participações diretas em gols — um marcado, três criados — está operando abaixo do limiar de produção que a maioria dos analistas considera aceitável para a posição na Premier League. A questão não é se John aparece: é o que ele entrega quando aparece. E aqui os dados disponíveis são insuficientes para uma conclusão definitiva. Não há números de passes, recuperações, duelos ou quilômetros percorridos que permitam fechar o argumento.
O que se pode dizer com os dados em mãos é que Collins John, aos 36 anos, com camisa 27 nas costas e uma trajetória que começou numa guerra e passou por três continentes, segue em campo na liga mais competitiva do mundo. Isso não é garantia de qualidade — mas é um fato concreto, verificável, que merecia mais atenção do que eu dei em 2024. O erro era meu.










