A serra entre o Rio de Janeiro e Teresópolis estava coberta de neblina quando Carlo Ancelotti subiu de carro para a Granja Comary nesta quarta-feira (27). Enquanto a maioria dos convocados chegava de helicóptero — Neymar pousou às 11h40 no seu próprio —, o italiano de 66 anos preferiu a estrada, ao lado do diretor Rodrigo Caetano e do coordenador Cícero Souza. Foi uma imagem discreta para um homem que carrega sobre os ombros o maior projeto da história recente do futebol brasileiro: levar a Seleção ao hexacampeonato em duas Copas do Mundo consecutivas.
Se a renovação com a Copa do Mundo de 2030 se confirmar — e as negociações entre a CBF e o staff do treinador estão em estágio avançado, segundo informações da imprensa esportiva —, Ancelotti terá 71 anos quando apitar o primeiro jogo do Brasil no torneio que será disputado na Espanha, Portugal, Marrocos, Argentina, Uruguai e Paraguai. Para ter dimensão do que isso representa: a diferença entre os 67 anos de Mário Jorge Lobo Zagallo em 1998 e os 71 de Ancelotti em 2030 é pequena no calendário, mas enorme no simbolismo — algo como a distância entre Salvador e Recife, que parece curta no mapa mas muda completamente o sotaque, a cultura e o peso histórico de cada cidade.
O que Zagallo construiu em três décadas, Ancelotti tenta condensar em oito anos
Zagallo é o único técnico a comandar o Brasil em três edições de Copa do Mundo: levou a Seleção ao título em 1970, às quartas de final em 1974 e ao vice-campeonato em 1998. Naquele torneio na França, ele tinha 67 anos — e se tornou o técnico mais velho a dirigir o Brasil num Mundial. Em 1994, ocupava a função de coordenador técnico ao lado de Carlos Alberto Parreira, que assinou a conquista do tetracampeonato. Ou seja, o vínculo de Zagallo com a Seleção se construiu ao longo de quase três décadas de ciclos, derrotas, reconstruções e aprendizado acumulado dentro da própria estrutura verde-amarela.
Ancelotti chega por um caminho radicalmente diferente. Aos 66 anos, assume pela primeira vez na carreira o comando de uma seleção nacional, após deixar o Real Madrid — clube pelo qual conquistou 15 troféus, incluindo três Champions League (2014, 2022 e 2024). O desafio foi reconhecido pelo próprio treinador antes do amistoso contra a Coreia do Sul:
"Acho que é preciso mais trabalho tático para trabalhar a estratégia do jogo. Tudo isso pode ser muito importante, mas a parte mais importante não é a estratégia, é a atitude dos jogadores no campo. Para isso, não é preciso muito tempo para se preparar."
A frase revela tanto a filosofia do italiano quanto o principal obstáculo estrutural do trabalho com seleções: o tempo de convivência é mínimo. Desde que assumiu o Brasil, Ancelotti acumulou poucos treinos com o grupo completo, alternando entre o 4-2-4 — esquema utilizado nas vitórias sobre Paraguai e Chile — e o 4-3-3, que apareceu no empate com o Equador e na derrota para a Bolívia nas Eliminatórias.
Os bastidores de uma renovação que ainda não foi assinada
A renovação até 2030 é tratada como certa por parte da CBF, mas o acordo formal ainda não foi concluído. O apresentador André Rizek, que acompanha de perto as negociações, já demonstrou cautela pública sobre anúncios prematuros da entidade:
"Estava na sede da CBF com colegas jornalistas, em 2023, quando o presidente da entidade anunciou que Carlo Ancelotti começaria a trabalhar na Copa América de 2024. E vimos Dorival Junior no banco do Brasil. É claro que acredito no anúncio, de novo, que esteja tudo assinado etc. Só quero esperar o próprio italiano se manifestar publicamente para estourar rojão."
Há razões concretas para a cautela. Segundo relatos do jornalista, pessoas próximas a Ancelotti apontam dois pontos de tensão nas negociações: a segurança no Brasil — o treinador teve a casa assaltada na Inglaterra durante sua passagem pelo Everton, em 2021 — e a instabilidade política na CBF. O italiano estaria resistindo à cláusula de residência no país, argumentando que Lionel Scaloni, técnico da Argentina, mora na Espanha sem que isso seja visto como problema. A CBF, por sua vez, insiste que o treinador deve estar baseado no Brasil. Esse impasse ainda está na mesa.

O custo financeiro do projeto também alimenta o debate. Reportagens apontam que Ancelotti recebe cerca de R$ 5 milhões mensais, o que representa aproximadamente R$ 60 milhões por ano em salário base, sem contar bônus e encargos. Comprometer esse volume de recursos por mais quatro anos, antes mesmo de o Brasil disputar um jogo sequer na Copa de 2026, é uma aposta que divide opiniões dentro e fora da entidade.
O Brasil de 2026 como laboratório para 2030
Na Granja Comary nesta quarta, o grupo que Ancelotti tem à disposição para a Copa de 2026 começou a tomar forma. Os primeiros a chegar foram o goleiro Alisson (Liverpool), os zagueiros Bremer (Juventus), Léo Pereira (Flamengo) e Ibañez (Al Ahli), além do atacante Endrick, que nesta temporada pela Copa do Mundo defende o Lyon. Neymar, de volta à Seleção após quase três anos de ausência, pousou na Granja às 11h40 de helicóptero particular. Os únicos ausentes são Marquinhos, Gabriel Magalhães e Gabriel Martinelli, envolvidos na final da Champions League.
O ex-lateral Cafu, último capitão brasileiro a erguer uma taça de Copa do Mundo, em 2002, sintetizou a expectativa que cerca esse momento:
"Só no fato de ter anunciado ele como treinador da Seleção Brasileira, o povo voltou a acreditar novamente. A responsabilidade dele é enorme. Ele está vindo com a responsabilidade de trazer o hexacampeonato."
O SportNavo mapeou os números que contextualizam o desafio histórico: Ancelotti seria o sétimo técnico diferente a comandar o Brasil em duas Copas do Mundo, e o primeiro estrangeiro a ter essa oportunidade. Se chegar a 2030 com o cargo, superará Zagallo não apenas em idade, mas em longevidade de ciclo ininterrupto — algo que nenhum técnico estrangeiro jamais alcançou na história da Seleção.
A Copa de 2026 começa para o Brasil em 13 de junho, contra Marrocos. Antes disso, o amistoso contra o Panamá, no Maracanã, no próximo domingo (31), às 18h30, com transmissão da Rede Globo, e outro contra o Egito, em 6 de junho, servirão como últimos testes antes da estreia. Se Ancelotti convencer em campo e as negociações avançarem fora dele, a resposta sobre o recorde de Zagallo virá no dia 11 de junho de 2030, quando a Seleção entrar em campo na segunda Copa do ciclo.









