33 anos, duas finais de Copa do Mundo no currículo e dois dedos imobilizados na mão direita — e ainda assim Emiliano Dibu Martínez está em campo, luvas fora, treinando com a mão esquerda enquanto o departamento médico da Argentina monitora cada milímetro da sua recuperação. A cena que circulou nos últimos dias nos bastidores da seleção albiceleste diz mais sobre o caráter do goleiro do que qualquer estatística poderia dizer: o homem que defendeu os pênaltis de Virgil van Dijk e Kylian Mbappé na Copa do Catar de 2022 não está disposto a assistir ao Mundial de 2026 da arquibancada por causa de uma fratura.

A fratura que não parou Dibu

A lesão na mão direita de Martínez é real e exige cuidado. Os dois dedos imobilizados limitam qualquer contato ou impacto direto na região, e é justamente por isso que o goleiro do Aston Villa participou das atividades específicas para goleiros usando exclusivamente a mão esquerda, com a direita servindo apenas de apoio. A comissão técnica de Lionel Scaloni optou por mantê-lo integrado ao grupo — uma decisão que tem tanto de estratégia quanto de gestão emocional do elenco. Tirar o principal goleiro do ambiente de treino, mesmo que temporariamente, geraria um ruído desnecessário a menos de duas semanas da estreia.

O departamento médico argentino vem acompanhando a evolução clínica de Martínez de forma sistemática, e a tendência, segundo informações da própria delegação, é de que ele siga participando dos trabalhos orientados pela comissão técnica ao lado do restante do elenco. A palavra de ordem é cautela sem afastamento — manter o goleiro no ritmo coletivo enquanto a mão cicatriza dentro do prazo esperado.

A fratura que não parou Dibu Com dois dedos imobilizados, Dibu Martín
A fratura que não parou Dibu Com dois dedos imobilizados, Dibu Martín
"Um goleiro que treina com uma mão imobilizada e ainda assim está lá, presente, dando referência para os companheiros — isso tem um valor que não aparece em nenhuma planilha tática. É liderança pura", observou um preparador de goleiros com passagem por clubes da Serie A italiana, ao comentar o episódio.

O que a Argentina perde se Dibu não chegar pronto

A pergunta que a torcida argentina prefere não fazer em voz alta é esta: e se ele não estiver 100%? A resposta é incômoda. Martínez não é apenas o goleiro titular da Argentina — ele é o arquiteto psicológico de uma defesa que, na final do Catar, segurou a pressão de uma França que havia empatado o jogo aos 80 minutos e levado a decisão para os pênaltis. Naquele 18 de dezembro de 2022 no Lusail Stadium, foram três defesas em cobranças alternadas que entregaram o tricampeonato à Argentina. Nenhum outro goleiro do elenco carrega esse peso histórico, e a hierarquia dentro do grupo é cristalina.

Sem Dibu em condições plenas, Scaloni teria que recorrer a alternativas com muito menos experiência em jogos de alto impacto numa Copa do Mundo. O técnico argentino construiu uma seleção que joga com a confiança do campeão, e parte dessa confiança emana diretamente do goleiro — do jeito que ele conversa com a zaga, do jeito que ele posiciona o corpo antes de uma cobrança de pênalti, do jeito que ele provoca o adversário dentro das regras. Retirar esse elemento do equilíbrio emocional do time seria mexer numa engrenagem que funciona há quatro anos.

A estreia contra a Argélia e o calendário que não perdoa

A Argentina estreia no Grupo J da Copa do Mundo no dia 16 de junho, em Kansas City, diante da Argélia. O segundo jogo está marcado para 22 de junho, em Dallas, contra a Áustria. A fase de grupos se encerra no dia 27 de junho contra a Jordânia. São doze dias entre hoje e a estreia — tempo suficiente para que uma fratura estabilizada evolua para um quadro de jogo controlado, desde que não haja complicações. O departamento médico da AFA trabalha com esse horizonte.

O que torna o calendário ainda mais sensível é que a Argentina não tem margem para experimentos. O Grupo J, embora não seja o mais temível do torneio, exige concentração máxima desde o primeiro apito. Uma derrota na estreia contra a Argélia — seleção que chega ao Mundial com uma geração de jogadores formados em clubes europeus de alto nível — poderia complicar a classificação e colocar pressão desnecessária sobre um elenco que se acostumou a jogar com tranquilidade desde a conquista da Copa América de 2021 e do Mundial de 2022, conforme registrado pelo SportNavo ao longo da campanha classificatória sul-americana.

Dibu e o padrão que o futebol masculino ainda tenta entender

Há algo que me incomoda — de forma saudável — nessa história toda. Quando um atleta de futebol masculino treina com uma fratura e demonstra disposição para jogar machucado, o discurso coletivo imediatamente o transforma em símbolo de garra, em herói, em exemplo de comprometimento. E ele é, de fato, tudo isso. Mas quero registrar que esse mesmo padrão de resiliência existe, de forma sistemática e muito menos celebrada, no futebol feminino de alto rendimento. Jogadoras que disputam Copas do Mundo com lesões musculares, que treinam em estruturas precárias, que recebem salários que não chegam a 10% do que Martínez recebe no Aston Villa — e que raramente viram manchete por isso.

O salário médio de uma jogadora na Women's Super League inglesa em 2025 era de aproximadamente £47 mil anuais. O salário de Martínez no Aston Villa supera £100 mil semanais. A garra é a mesma. A visibilidade não é. Trazer esse dado não diminui o feito do goleiro argentino — ao contrário, coloca em perspectiva o que o esporte ainda deve às suas atletas.

Dito isso, a Argentina joga no dia 16 de junho em Kansas City, e Dibu Martínez tem tudo para estar entre os postes. A mão direita vai cicatrizar. O que não cicatriza tão rápido é a ausência de um goleiro que já decidiu Copas do Mundo — e Scaloni sabe disso melhor do que ninguém.