Domingo, 18h30. Quando Carlo Ancelotti der a palavra final sobre a escalação do Brasil contra o Panamá no Maracanã, ele já terá em mãos um instrumento que nenhum técnico da Seleção utilizou em décadas de amistosos preparatórios: a licença para promover até 11 substituições numa única partida. Não é um detalhe burocrático. É o mecanismo que transforma esse jogo num laboratório vivo, a última sessão de observação antes de a Copa do Mundo começar em 13 de junho contra Marrocos.
O que Ancelotti viu nos treinos e precisa confirmar em campo
Nos últimos dias na Granja Comary, o técnico italiano esboçou uma escalação bastante próxima da que deve iniciar o Mundial: Alisson; Wesley, Bremer, Léo Pereira e Alex Sandro; Casemiro e Bruno Guimarães; Luiz Henrique, Matheus Cunha, Vini Jr. e Raphinha. Quatro nomes que poderiam disputar essa vaga estão ausentes por razões externas — Neymar segue em recuperação de lesão, enquanto Gabriel Magalhães, Marquinhos e Gabriel Martinelli participam da final da Liga dos Campeões entre Arsenal e Paris Saint-Germain neste sábado, o que inviabiliza a presença deles no domingo.
A ausência simultânea de dois titulares absolutos da zaga — Marquinhos acumula mais de 140 partidas pela Seleção — e de um atacante do calibre de Martinelli cria, paradoxalmente, uma janela de observação privilegiada para Ancelotti. Bremer e Léo Pereira terão a oportunidade de mostrar que o setor defensivo não depende de nomes consagrados para funcionar. A dupla não jogou junta em nenhum dos amistosos mais recentes com os dois titulares presentes, o que torna esses 45 ou 90 minutos juntos especialmente valiosos do ponto de vista tático.
Segundo informações divulgadas pela CBF, o treinador planeja rodar todo o elenco no decorrer do jogo, preservando os titulares de desgaste físico excessivo. A lógica é idêntica à que Ancelotti adotou no Real Madrid durante as semanas que antecederam finais de Champions League — titular reconhecível nos primeiros 45 minutos, rotação ampla na segunda etapa, com o olho clínico voltado para quem aproveita os minutos extras.
Os 11 nomes que mais precisam desses minutos contra o Panamá
A lista de convocados para o amistoso expõe com clareza onde estão as disputas em aberto. No gol, Ederson e Weverton brigam pela reserva de Alisson — o goleiro do Manchester City foi titular em 30 jogos na Premier League 2025/26, enquanto Weverton chegou à marca de 200 partidas pelo Palmeiras em abril. Uma ou duas defesas difíceis podem inclinar a balança.
No meio-campo, Danilo Santos, Fabinho e Lucas Paquetá competem por espaço numa posição em que Ancelotti já demonstrou preferência por Casemiro e Bruno Guimarães. Paquetá, em particular, carrega o peso de uma temporada irregular no West Ham e precisa de uma atuação de nível para não embarcar para a Copa como terceira opção. Nos últimos quatro amistosos da Seleção, o meia entrou sempre no segundo tempo e não balançou as redes nem contribuiu com assistências.

No ataque, a disputa mais acirrada é entre Endrick, Igor Thiago e Rayan pelo papel de centroavante reserva. Endrick marcou 8 gols em 22 partidas pelo Real Madrid nesta temporada — uma média que, para um jogador de 18 anos em seu primeiro ano na Europa, seria suficiente para garantir qualquer convocação. Mas Ancelotti quer ver comportamento tático, não apenas finalização. Igor Thiago, que chegou ao Club Bruges com a promessa de ser o centroavante do futuro, sofreu uma lesão grave em 2025 e ainda busca ritmo de jogo. Rayan, revelado pelo Flamengo, é a incógnita mais sedutora da lista.
"Vou dar oportunidade a todos. Quero ver o elenco inteiro em ação antes de viajar", disse Ancelotti em coletiva na última sexta-feira, sinalizando que nenhuma vaga está garantida até o último apito.
73 mil pessoas no Maracanã e a pressão que o amistoso não deveria ter
Mais de 73 mil ingressos vendidos para um jogo contra o Panamá — seleção que nunca disputou uma Copa do Mundo até 2026 e que ocupa a 61ª posição no ranking FIFA — diz muito sobre o estado emocional do torcedor brasileiro às vésperas do torneio. Para efeito de comparação, o amistoso do Brasil contra a Croácia em março atraiu pouco mais de 48 mil pagantes ao Mané Garrincha, em Brasília. A diferença de 25 mil pessoas entre os dois jogos reflete o Maracanã como catalisador de expectativa.
A CBF preparou shows musicais e homenagens a ex-jogadores antes da partida, transformando a tarde de domingo num evento que extrapola o futebol. Esse contexto cria uma pressão subliminar que Ancelotti precisará administrar: jogar bem diante de 73 mil torcedores em casa tem um peso psicológico diferente de uma goleada em amistoso neutro. A Seleção não perde no Maracanã desde setembro de 2021, quando caiu por 0 a 1 para a Argentina nas Eliminatórias — uma sequência de 11 partidas sem derrota no estádio.
O histórico do Brasil contra seleções da CONCACAF em amistosos recentes também favorece o otimismo: nos últimos 10 jogos contra adversários da confederação norte-americana, a Seleção venceu 8, empatou 1 e perdeu 1, com saldo de 28 gols marcados contra 7 sofridos. O Panamá, especificamente, nunca derrotou o Brasil em partidas oficiais ou amistosos — o confronto mais recente, nas Eliminatórias de 2023, terminou em 1 a 1, o único empate da série histórica.
"A gente quer mostrar para o torcedor que está pronto", declarou Raphinha em entrevista coletiva, resumindo o espírito do grupo antes do embarque para os Estados Unidos.
Após o apito final no Maracanã, os jogadores ganham folga até a tarde de segunda-feira, quando se apresentam na sede da CBF para a viagem aos Estados Unidos. Antes da estreia contra Marrocos, em 13 de junho, o Brasil ainda enfrenta o Egito no próximo sábado, em Cleveland — último teste antes de o torneio valer de verdade. Quem não convencer Ancelotti neste domingo terá apenas 90 minutos em Cleveland para reverter o placar.









