Falhou. No momento mais tenso da Copa do Brasil de 2025, com o Cruzeiro precisando de um gol contra o Corinthians, Gabigol parou diante da bola e mandou para fora. O pênalti perdido virou síntese de uma temporada que prometia recomeço e entregou ambiguidade: 13 gols e quatro assistências em 49 jogos, titularidade em apenas 23 deles, espaço progressivamente cedido a Kaio Jorge após a chegada de Leonardo Jardim. Para um jogador de 28 anos que ainda alimenta o sonho de defender o Brasil na Copa do Mundo de 2026, o diagnóstico era simples — ficar no Cruzeiro significava desaparecer do radar de Carlo Ancelotti.
O cálculo que levou Gabigol de volta à Vila Belmiro
A lógica da transferência para o Santos no início de 2026 não foi sentimental, embora o componente afetivo esteja lá. Gabriel Barbosa foi revelado na base do clube, tem família na região e reencontrou Neymar, seu ídolo declarado e amigo de longa data. Mas o motor real da decisão foi operacional: no Santos, ele chegou com status de estrela absoluta e minutagem garantida. Na Raposa, enfrentaria ainda a ressaca das desavenças com Tite — o mesmo treinador que o preteriu em 2022 e que voltou ao clube mineiro em 2026 — e a concorrência direta de um Kaio Jorge em grande fase.
O contrato firmado com o Peixe é por empréstimo de um ano, com vínculo ainda válido com o Cruzeiro até dezembro de 2028. Trata-se, portanto, de uma janela de oportunidade com prazo definido: ou Gabigol convence Ancelotti antes do fechamento das listas para a Copa, ou retorna à Raposa sem ter colocado a chuteira no Mundial. A última vez que ele foi convocado pela Seleção foi em janeiro de 2022, nas Eliminatórias para o Qatar, quando entrou por alguns minutos no empate por 1 a 1 com o Equador. Ao todo, são 18 jogos e cinco gols com a Amarelinha — números modestos para um atacante de sua projeção doméstica.
O próprio jogador, na apresentação oficial no Santos, adotou um tom que surpreendeu pelo realismo.
"O presidente está sendo bastante otimista. É claro que é um sonho estar na Seleção, sempre vai ser um objetivo até o momento que eu encerrar minha carreira. Mas creio eu que o meu momento não condiz com isso. Mas também não é impossível. Vim para o Santos. Minha Seleção vai ser o Santos", disse Gabigol.
Por que Ancelotti ainda não abriu a porta para Gabigol
A ausência de convocação não é surpresa — e os dados históricos ajudam a entender por quê. No ciclo de Tite que culminou no Qatar, a exclusão de Gabigol da lista dos 26 teve uma razão objetiva: desempenho inconsistente com a Amarelinha, mesmo quando era o artilheiro mais dominante do futebol doméstico. Enquanto brilhava no Flamengo com títulos da Libertadores e do Brasileirão, seu rendimento pela Seleção nunca acompanhou a mesma curva. Pedro, que acumulou características mais raras entre os centroavantes brasileiros, terminou na lista. Gabigol, não.
Com Ancelotti, o critério segue sendo performance consistente em alto nível. O italiano tem monitorado jogadores do futebol brasileiro, mas o Santos de 2026 ainda está em processo de construção sob o comando de Vojvoda, que terá mais tempo para conhecer o elenco ao longo da temporada. A parceria com Neymar — que também busca retornar à Seleção — adiciona uma variável de visibilidade, mas não garante convocação. Ambos precisam de números, não de narrativa.
Na avaliação do SportNavo, o perfil de concorrência no ataque brasileiro é o obstáculo mais concreto que Gabigol enfrenta. Jogadores que atuam na Europa com regularidade e volume de gols têm preferência natural no critério de Ancelotti, que conhece o futebol do Velho Continente com profundidade cirúrgica. Um centroavante atuando no Campeonato Brasileiro, por mais que o torneio tenha crescido em audiência e estrutura nos últimos anos, parte de uma posição de desvantagem na hierarquia de observação da comissão técnica.
O que os números de 2026 precisam mostrar
Para que a aposta faça sentido dentro de campo, Gabigol precisa entregar algo que não entregou no Cruzeiro: regularidade de titular com volume de gols acima de 0,26 por jogo — sua média em 2025. No Santos, a titularidade está dada. A questão é o que ele fará com ela.
- 2025 no Cruzeiro: 49 jogos, 23 como titular, 13 gols, 4 assistências, pênalti decisivo perdido na Copa do Brasil
- Histórico Seleção: 18 jogos, 5 gols, última convocação em janeiro de 2022
- Contrato Santos: empréstimo de um ano, vínculo com Cruzeiro até dezembro de 2028
- Objetivo declarado: Copa do Mundo de 2026, com prazo de convencimento de Ancelotti
A janela de tempo é estreita
O calendário não é aliado. As listas para a Copa do Mundo costumam ser fechadas com poucas semanas de antecedência, o que significa que Gabigol tem basicamente os primeiros meses do Brasileirão 2026 para construir um argumento estatístico irrefutável. Não basta ser a estrela do Santos — precisa ser um dos atacantes mais eficientes do torneio, numa posição em que a Seleção já conta com opções consolidadas em solo europeu.
A parceria com Neymar, que o próprio Gabigol descreveu com entusiasmo na apresentação —
"A gente sempre foi muito feliz dentro e fora de campo. O que a gente realmente quer é ajudá-lo a estar 100%, porque a gente precisa dele na Copa"
— pode ser o catalisador técnico que faltava. Um Neymar funcionando como criador e um Gabigol como finalizador é uma dupla que já teve momentos pontuais na Seleção, mesmo que breves. Se o Santos conseguir transformar essa parceria em resultados concretos no Brasileirão, o argumento para Ancelotti começa a ganhar peso real.
O Santos disputa o Brasileirão 2026, a Copa do Brasil e a Sul-Americana nesta temporada — três frentes que darão a Gabigol volume de jogos suficiente para construir ou destruir sua candidatura. Se chegar a 15 gols antes do fechamento das listas de Ancelotti, a conversa muda de tom. Se repetir os números de 2025, a Copa será assistida da varanda. Voltou — mas ainda não convenceu.










