14. Esse é o número de estádios da Copa do Mundo que, segundo cientistas da Atribuição Climática Global (WWA), apresentam condições térmicas potencialmente perigosas para os atletas. De 16 arenas confirmadas no torneio, apenas duas ficam fora da zona de alerta — o restante está concentrado no Sul dos Estados Unidos e no norte do México, regiões onde as médias diárias de temperatura oscilam entre 30 °C e 35 °C em junho e julho, com picos que podem se aproximar dos 40 °C. Esse dado, publicado em relatório recente do grupo, é o centro de uma disputa que vai além da meteorologia e toca no modelo de governança esportiva da Fifa.
O índice que a Fifa ainda não adotou como critério oficial
A análise dos pesquisadores não usa apenas o termômetro comum. O parâmetro central é o índice WBGT — temperatura de bulbo úmido e globo —, um indicador que combina temperatura do ar, umidade relativa, velocidade do vento e intensidade da radiação solar para calcular o estresse térmico real sobre o corpo humano. A diferença prática é enorme. Conforme explicou Chris Mullington, professor do Imperial College London e um dos autores do estudo da WWA:
"Um dia de 30 graus Celsius em condições secas e com brisa é muito diferente de um dia de 30 graus Celsius com alta umidade, sol forte e pouco vento."
Quem acompanhou o Mundial de Clubes de 2025, disputado nos mesmos Estados Unidos e no mesmo período do calendário, viu esse cenário em tempo real. Rodrygo e outros jogadores do Real Madrid relataram desconforto durante as partidas no MetLife Stadium, em Nova Jersey — um estádio que, por estar mais ao norte, ainda assim registrou condições de calor acima do esperado para o padrão europeu. O que os cientistas alertam é que a Copa de seleções terá uma concentração muito maior de jogos em latitudes mais quentes, onde o WBGT historicamente supera os limiares de segurança estabelecidos pela medicina esportiva.
Há um agravante climático específico para 2026: o Centro de Previsão Climática (CPC) da NOAA estima 82% de probabilidade de formação do fenômeno El Niño justamente entre maio e julho do próximo ano, período que cobre quase toda a fase de grupos do torneio. O El Niño tende a elevar as temperaturas médias no hemisfério norte durante o verão boreal, o que tornaria as condições já críticas ainda mais adversas.
O que a história do futebol europeu ensina sobre calor e rendimento
Quem trabalhou na Espanha nos anos 1990 e acompanhou de perto os jogos noturnos do Sevilla e do Valencia em agosto sabe que o futebol mediterrâneo tem uma relação longa com o calor. A Copa do Mundo de 1994, também nos Estados Unidos, já havia levantado esse debate — mas em escala menor, porque o torneio tinha 24 seleções e menos jogos em cidades do Sul. Em Dallas e nos estádios da Califórnia, a temperatura chegou a 37 °C em algumas partidas da fase de grupos. A resposta da Fifa naquela edição foi pífima: uma pausa de hidratação opcional no intervalo, sem protocolo estruturado.
Trinta e dois anos depois, o torneio cresceu para 48 seleções e 104 jogos, mas a estrutura de proteção térmica ainda não acompanhou essa expansão proporcional. Os cientistas da WWA pedem pausas de resfriamento mais longas — superiores às atuais que giram em torno de três minutos —, além de protocolos formais para atrasar ou adiar partidas em caso de WBGT acima de determinados limites. A Fifa, até o momento em que este texto foi registrado pelo SportNavo, não detalhou publicamente todas as ações que pretende implementar para a Copa de 2026.
O paralelo histórico mais preciso talvez seja a Copa do Mundo de 2002, no Japão e na Coreia do Sul, quando a umidade elevada do clima asiático impactou fisicamente várias equipes. O Brasil, campeão naquele torneio, jogou suas partidas mais exigentes no calor úmido de Shizuoka e Saitama. Ronaldo perdeu até 3 kg de líquido por jogo, segundo o então médico da seleção, Márcio Tannure. Mas em 2002 o torneio tinha 64 jogos e 32 seleções — em 2026 serão 104 jogos e 48 seleções, com muitos atletas jogando três partidas na fase de grupos em intervalos de quatro a cinco dias.
Os riscos reais ao corpo e o que ainda falta da Fifa
O estresse térmico severo não é apenas desconforto. Em casos extremos, produz hipertermia, colapso cardiovascular e rabdomiólise — dissolução de fibras musculares que pode causar insuficiência renal aguda. Esses riscos aumentam exponencialmente quando o atleta já chega ao jogo com déficit de hidratação ou com carga de jogos acumulada, o que é exatamente o cenário de um torneio com 48 seleções disputando fase de grupos em 12 cidades diferentes, parte delas no cinturão de calor norte-americano.
Os pesquisadores da WWA pedem três medidas concretas que a Fifa ainda não confirmou: pausas de resfriamento de pelo menos sete minutos por tempo (o dobro do padrão atual), protocolo escrito para suspensão ou adiamento de partidas quando o WBGT ultrapassar 28°C, e acesso a instalações de resfriamento ativo — como tanques de imersão em gelo — nos vestiários e nas bordas do campo. Sem esses mecanismos, afirmam os cientistas, o risco não é hipotético. O modelo climático com El Niño ativo projeta que pelo menos 30% dos jogos da fase de grupos enfrentarão condições de WBGT acima do limiar de alerta moderado.
A Copa do Mundo de 2026 começa em 11 de junho. Os primeiros jogos em cidades do Sul dos Estados Unidos, como Miami e Dallas, estão programados para os dias seguintes. Será nesses primeiros 10 dias de torneio, com temperaturas no pico do verão boreal e o El Niño possivelmente ativo, que saberemos se as medidas da Fifa são suficientes — ou se os cientistas estavam certos desde o início.












