O hino toca, a câmera percorre os rostos enfileirados no gramado, e há algo de estranho e belo naquela cena — um jovem de olhos fechados, mão no peito, cantando em língua que seus avós falavam antes dele. Não é ficção. É o retrato de 289 jogadores convocados para a Copa do Mundo de 2026, que segundo levantamento do jornalista Jaime F. Macias, representam 23% do total de atletas no torneio — o maior percentual de naturalizados em toda a história do Mundial.

O mapa que os passaportes não conseguem conter

Quando Estados Unidos, México e Canadá receberem as 48 seleções a partir de junho de 2026, o torneio carregará uma marca que vai muito além dos resultados em campo. Quase um em cada quatro jogadores nasceu em solo diferente do país pela qual erguerá a taça — ou tentará. O número é o espelho de décadas de migrações, colonizações e diásporas que redesenharam o planeta muito antes de qualquer FIFA decidir ampliar o formato do torneio.

A Europa se consolida como o maior celeiro de formação de atletas para outras seleções. No centro desse fenômeno está a França, que funciona como uma espécie de usina transnacional do futebol: seus centros de excelência moldaram a espinha dorsal de seleções africanas como Argélia, Tunísia, Senegal e República Democrática do Congo. O fluxo não é coincidência — é a consequência direta das linhas migratórias traçadas pelo colonialismo francês, que décadas após as independências africanas ainda organiza o movimento de pessoas e, portanto, de talentos.

Zidane como símbolo e a virada de geração em Luca

Nenhum exemplo sintetiza esse fenômeno com mais força dramática do que a família Zidane. Zinedine, nascido em Marselha em 1972 e filho de imigrantes argelinos, tornou-se o rosto da França multicultural ao conduzir os Bleus ao título mundial de 1998 — dois gols na final contra o Brasil, no Stade de France, para sempre na memória do esporte. Quase três décadas depois, seu filho Luca, goleiro nascido em solo francês, optou por se naturalizar e defender a seleção da Argélia, a terra natal dos avós. O movimento de Luca não é apenas uma escolha de carreira — é o fechamento de um ciclo afetivo que o gramado ajuda a nomear quando as palavras faltam.

"Queria representar a Argélia, a terra dos meus avós. É uma parte de mim que quero honrar", disse Luca Zidane ao anunciar sua opção pela seleção argelina.

Há um ditado popular que diz que quem não tem cão caça com gato. No futebol contemporâneo, porém, o ditado ganhou uma torção: as seleções que não produzem talentos suficientes em casa aprenderam a recrutar nos filhos da diáspora — e algumas delas chegaram à Copa exatamente por esse caminho.

O que os números revelam além da estatística

O levantamento da BBC, publicado em matéria do SportNavo, traz outros recortes que contextualizam o fenômeno. A Espanha chega ao torneio como a única seleção com 100% do elenco formado por jogadores que atuam nas cinco principais ligas europeias — um dado que, paradoxalmente, contrasta com o perfil de nações que dependem justamente da diáspora para compor seus plantéis. O Manchester City lidera o ranking de clubes com mais representantes no torneio, com 19 jogadores convocados por diferentes países.

O mapa que os passaportes não conseguem conter Como 289 jogadores chegaram à Cop
O mapa que os passaportes não conseguem conter Como 289 jogadores chegaram à Cop

A diversidade etária também chama atenção. O Panamá, adversário do Brasil no último amistoso pré-Copa, apresenta o elenco mais velho entre as 48 seleções. A Costa do Marfim, por sua vez, tem a média de idade mais jovem do torneio — e não por acaso, boa parte de seus jovens talentos foi formada em academias europeias, especialmente francesas, antes de optar pela camisa africana.

Quem são, afinal, esses 289 jogadores — e o que eles dizem sobre o mundo que produziu a Copa do Mundo de 2026?

São filhos de trabalhadores que cruzaram o Mediterrâneo nos anos 1980. São netos de imigrantes que chegaram à Europa com uma mala e a esperança de recomeço. São jovens que cresceram entre dois idiomas, duas bandeiras, duas histórias — e que encontraram no futebol o espaço para resolver, ou pelo menos expressar, essa tensão. A dupla nacionalidade, para eles, não é uma vantagem burocrática: é uma questão de pertencimento.

Identidade em campo e o que vem pela frente

O debate sobre naturalização no futebol não é novo, mas ganhou escala inédita nesta edição. A FIFA, que regulamenta as trocas de seleção por meio do artigo 9 do seu regulamento de status e transferência de jogadores, registrou nos últimos quatro anos um volume recorde de pedidos de mudança de elegibilidade — reflexo direto do crescimento da Copa para 48 seleções, que abriu vagas para nações historicamente sem tradição de formação de base.

O torneio começa em 11 de junho de 2026, com a fase de grupos se estendendo até o início de julho. Nesse intervalo, 289 histórias de travessia — de continentes, de línguas, de gerações — serão contadas toda vez que um jogador vestir uma camisa que não é exatamente a da terra onde nasceu, mas é, talvez, a da terra que o formou como homem. A Copa de 2026 não é apenas a maior da história em número de seleções. É a mais humana delas.