Um torneio que ainda não chegou à metade tem mais gente nas arquibancadas do que muitas edições completas da história. Em 64 partidas disputadas até a terceira rodada da fase de grupos, a Copa do Mundo 2026 ultrapassou a marca de 4,1 milhões de torcedores — um número que, em outros tempos, só era atingido perto das quartas de final. O paradoxo é exatamente esse: a Copa ainda nem começou de verdade, e já é a maior da história em termos de público.

O momento em que os 4 milhões se tornaram realidade nos estádios americanos

A marca foi cruzada na sexta-feira, durante a terceira rodada do Grupo H. Dois jogos simultâneos — Uruguai x Espanha, no Estádio Akron, em Guadalajara, e Cabo Verde x Arábia Saudita, no NRG Stadium, em Houston — empurraram o contador para além do limite histórico. O número oficial registrado pela Fifa é de 4.103.729 torcedores em 64 partidas, o que resulta em uma média de 64.121 espectadores por jogo. Trata-se de uma densidade de público sem precedente em qualquer Copa do Mundo anterior, incluindo as edições realizadas nos Estados Unidos em 1994 — até então a referência máxima em presença de torcedores.

Quando se observa a distribuição geográfica das partidas, o peso das arenas norte-americanas fica evidente. Os três maiores estádios do torneio — o MetLife Stadium, em Nova Jersey, com capacidade para 82.500 pessoas; o SoFi Stadium, em Los Angeles, com 70.000; e o AT&T Stadium, em Arlington, com 80.000 — concentram as partidas de maior capacidade e respondem por uma parcela desproporcional do público total acumulado. Não por acaso, os confrontos realizados nessas arenas figuram entre os de maior presença absoluta do torneio.

35 jogos com lotação máxima e o Brasil entre os destaques de público

Dos 64 jogos disputados até agora, 35 tiveram lotação máxima — o equivalente a 54,7% de todos os confrontos. Entre eles estão as três partidas da Seleção Brasileira, incluindo a vitória por 3 a 0 sobre a Escócia na terceira rodada, que completou a fase de grupos com 100% de aproveitamento. A presença do Brasil como um dos poucos times a lotar três estádios distintos ao longo da fase inicial reforça o peso comercial e simbólico da seleção no mercado norte-americano, onde a comunidade brasileira é numericamente expressiva, especialmente nos estados de Massachusetts, Flórida e Califórnia.

Quando se analisa o padrão de lotação por sede, a diferença entre as cidades anfitriãs se torna ainda mais clara. Nova York-Nova Jersey, Los Angeles e Dallas apresentam os índices de ocupação mais elevados, beneficiadas pela infraestrutura de estádios projetados para eventos de NFL — modalidade que historicamente atrai os maiores públicos pagantes do esporte norte-americano. Segundo dados compilados e divulgados pela organização do torneio, essas três sedes já somam mais de 1,2 milhão de torcedores apenas na fase de grupos.

"A Copa do Mundo nos Estados Unidos está superando todas as projeções de público que fizemos antes do torneio. A média por partida é a mais alta de qualquer fase de grupos na história do evento", afirmou representante da Fifa em comunicado oficial divulgado durante a semana.

Por que os estádios americanos transformaram a equação do público mundial

A explicação para os números recordes passa por três fatores estruturais que diferenciam esta edição de todas as anteriores. O primeiro é a capacidade bruta das arenas: nenhuma Copa do Mundo anterior foi disputada em estádios com médias de capacidade tão elevadas. O segundo fator é o formato expandido — com 48 seleções participantes, o torneio tem mais jogos e, consequentemente, mais oportunidades de público. O terceiro, e talvez mais determinante, é a composição da demanda: a população hispânica nos EUA, estimada em mais de 62 milhões de pessoas, criou um mercado interno gigantesco para partidas de seleções da América Latina e do Caribe.

Quando se considera o impacto econômico direto nos mercados locais, os números também são expressivos. Estimativas do setor de turismo apontam que cada torcedor estrangeiro gasta em média 4.800 dólares durante a permanência no país — o que, projetado sobre os 4,1 milhões de presentes nos estádios até agora, representa uma injeção de recursos sem precedente no setor de hospitalidade das cidades-sede. Conforme registrado pelo SportNavo ao longo da cobertura da fase de grupos, o impacto nas redes hoteleiras de cidades como Miami e Seattle foi sentido desde a primeira semana do torneio.

"Nunca vi nada parecido. Temos torcedores de 60 países diferentes no mesmo estádio, no mesmo jogo. Isso é único na história do esporte", declarou o prefeito de Arlington, Texas, em entrevista coletiva realizada após um dos jogos disputados no AT&T Stadium.

A fase eliminatória, que começa a partir das oitavas de final, tende a ampliar ainda mais esses números. Os jogos de mata-mata historicamente registram taxas de lotação próximas de 100%, independentemente das seleções envolvidas, pelo apelo emocional do formato. Com 16 confrontos ainda por serem disputados antes da semifinal, a projeção conservadora da Fifa indica que o torneio pode encerrar com público total próximo de 6,5 milhões de torcedores — o que representaria um crescimento de 40% em relação à Copa do Qatar, em 2022, que registrou 3,4 milhões ao longo de todo o torneio.

Se o MetLife Stadium — eleito sede da grande final, programada para 19 de julho — registrar lotação máxima na decisão, como aconteceu em todas as finais das últimas quatro edições, a partida mais importante do futebol mundial terá uma plateia de 82.500 pessoas. Resta saber se alguma das semifinais, disputadas no mesmo estádio e no SoFi, conseguirá superar esse número ou se a final guardará para si o recorde individual de público desta Copa. Qual das duas semifinais — a que reunir Brasil e Argentina ou qualquer outro duelo de gigantes — vai gerar a maior fila de espera por ingressos nas próximas semanas?