Diz-se que a seleção do Zaire foi a mais fraca já vista numa Copa do Mundo. A Folha de S.Paulo chegou a estampar exatamente essa tese na manchete de 22 de junho de 1974, véspera do jogo contra o Brasil. Na verdade, aquela equipe não era fraca — estava aterrorizada. E a diferença importa, porque ela explica por que a Copa do Mundo de hoje, 52 anos depois, tem um peso que vai muito além do futebol para a República Democrática do Congo.
A seleção congolesa estreia nesta quarta-feira, 17 de junho, contra Portugal às 14h, pelo Grupo K do Mundial de 2026. A vaga foi conquistada de forma dramática: na repescagem intercontinental, os Leopardos derrotaram a Jamaica por 1 a 0 na prorrogação, com gol do zagueiro Axel Tuanzebe, do Burnley, no Estádio Akron. Para chegar até ali, o técnico Sébastien Desabre eliminou Nigéria e Camarões — duas das seleções mais tradicionais do continente africano.
O futebol como arma de um ditador
Em 1974, o país ainda se chamava Zaire e vivia sob a ditadura de Mobutu Sese Seko, que chegou ao poder após o assassinato de Patrice Lumumba, símbolo da luta anticolonial e da independência congolesa. Para Mobutu, a classificação inédita para a Copa da Alemanha Ocidental era um troféu de propaganda — e o futebol, um instrumento de controle político tão eficiente quanto qualquer decreto.
A conquista da vaga tinha sido celebrada como façanha nacional. Sob o comando do técnico iugoslavo Blagoje Vidinić, nascido na atual Macedônia do Norte, o Zaire venceu o Marrocos por 3 a 0 em dezembro de 1973, em Kinshasa, garantindo a primeira classificação do país para um Mundial. Vidinić virou herói. Os jogadores receberam apartamentos, carros e férias na Europa como recompensa. O regime havia transformado aquele grupo de atletas em símbolo de um país.
O problema é que símbolos, para ditaduras, precisam performar — ou pagam o preço. Antes mesmo de a Copa começar, a estrutura preparada por Vidinić começou a desmoronar por interferência direta do governo. O programa rígido de treinamentos foi sabotado por pressões políticas. Quando a equipe chegou à Alemanha, já não era a mesma que havia se classificado.
A derrota por 9 a 0 e a ameaça que mudou tudo
Na fase de grupos, o Zaire perdeu para a Escócia e depois sofreu uma goleada histórica: 9 a 0 para a Iugoslávia. Foi após essa partida que Mobutu transmitiu sua mensagem ao elenco. A informação, reconstituída por relatos posteriores dos próprios jogadores, era direta: se o time perdesse por quatro gols de diferença no jogo seguinte, contra o Brasil, os atletas não voltariam vivos para casa.
Reparemos no detalhe que os números escondem: o Brasil precisava exatamente de uma vitória por três gols de diferença para avançar ao mata-mata. A margem entre a eliminação brasileira e a sobrevivência dos zairenses era de um único gol. Naquele contexto, cada bola que entrava no gol de Kazadi Mwamba era potencialmente uma sentença.
O jogo em Gelsenkirchen terminou 3 a 0 para o Brasil — resultado que eliminou os zairenses, mas que também salvou os brasileiros. O goleiro zairense Kazadi teve atuação destacada, segurando diversas finalizações. Do lado brasileiro, o nervosismo foi reconhecido publicamente.
"Não aguentava mais olhar para o relógio que ficava às minhas costas. A defesa deles pegando tudo, o nosso time errando os chutes e eu sem poder fazer nada. Confesso que fiquei desesperado", disse o goleiro Leão à Folha de S.Paulo no dia seguinte ao jogo.
O chute de Mwepu Ilunga e o silêncio que veio depois
Faltavam minutos para o fim da partida quando o árbitro marcou falta a favor do Brasil. Os jogadores brasileiros se organizavam para cobrar. Foi então que o zagueiro Mwepu Ilunga saiu da barreira e chutou a bola para longe, interrompendo o ritual. O lance foi transmitido para o mundo inteiro como prova de ignorância tática — um jogador africano que simplesmente não entendia as regras do futebol.
A narrativa durou décadas. Só que ela estava errada. Anos depois, em entrevista ao jornal francês L'Equipe, Mwepu Ilunga revelou o que ninguém havia perguntado antes.
"Ninguém ali sabia o que estávamos vivendo", disse o zagueiro.O chute não foi ignorância — foi pânico calculado. Ilunga tentava, à sua maneira, consumir os segundos que restavam e impedir que o Brasil chegasse ao quarto gol. Era um ato de sobrevivência, não de incompetência.
O episódio, registrado em reportagem publicada pelo SportNavo como parte da cobertura histórica do torneio, tornou-se um dos mais eloquentes sobre como o contexto político pode desfigurar completamente a leitura de um evento esportivo. O mundo viu um erro grotesco. O que havia, na verdade, era um homem com medo de morrer.
Os Leopardos de 2026 e o peso de uma nação fraturada
A RD Congo de 2026 chega ao Mundial carregando outra realidade igualmente pesada, ainda que de natureza diferente. O país é o maior produtor mundial de cobalto — mineral essencial para baterias de eletrônicos — e ainda assim enfrenta décadas de instabilidade. Na região leste, o grupo M23, apoiado por Ruanda, tomou áreas das províncias de Kivu do Norte e Kivu do Sul entre janeiro e fevereiro deste ano. Em Kinshasa, capital com cerca de 17 milhões de habitantes, a classificação foi celebrada nas ruas sob chuva, com buzinas e multidões — uma onda de alívio nacional que transcende o esporte.
A geração de 2026 é construída sobre bases muito distintas das de 1974. Axel Tuanzebe, o herói da repescagem, joga no Burnley, da Inglaterra. O elenco é formado por profissionais que atuam em ligas europeias e que não dependem de um ditador para receber salário ou garantir a própria segurança. A campanha de classificação — com vitórias sobre Nigéria e Camarões antes da repescagem — foi construída com mérito esportivo, não com propaganda de Estado.
O Grupo K coloca os Leopardos diante de Portugal, Colômbia e Uzbequistão. A estreia desta quarta-feira, contra os portugueses de Cristiano Ronaldo, é o primeiro passo de uma jornada que começou, de fato, naquele 22 de junho de 1974 em Gelsenkirchen — quando um zagueiro chutou uma bola para longe e o mundo inteiro riu sem entender nada. Diz-se que a seleção do Zaire foi a mais fraca já vista numa Copa do Mundo. Na verdade, aquela equipe não estava fraca — estava sobrevivendo. E a diferença, hoje, finalmente começa a ser reconhecida.












