O vestiário cheirava a grama molhada e resina de bola quando o técnico argentino Gustavo Alfaro fechou a lista que o Paraguai precisava entregar à FIFA até 1º de junho. Eram 26 nomes. Sete deles constroem suas histórias semanalmente nos gramados do Brasileirão — e essa concentração não é acidente geográfico, mas reflexo de uma relação que o futebol paraguaio mantém com o Brasil há décadas, ora como fornecedor de talentos, ora como destino de formação. A seleção guarani, que fará sua nona participação em Copas do Mundo — a última havia sido em 2010, quando chegou às quartas de final —, chega ao Grupo D com Boca Juniors, Huracán e o Brasileirão como laboratórios principais.
O capitão do Palmeiras e a espinha dorsal defensiva
Gustavo Gómez é o nome que ancora toda a estrutura defensiva paraguaia. Capitão do Palmeiras desde 2021, o zagueiro de 31 anos acumula títulos da Copa Libertadores (2020 e 2021) e é figura central no esquema de Abel Ferreira — o mesmo que o transformou num dos defensores mais lidos taticamente do continente. Na seleção, Gómez carrega a braçadeira e a responsabilidade de organizar uma linha de quatro que precisa ser sólida diante de Estados Unidos, Turquia e Austrália. Segundo dados do Campeonato Brasileiro 2026, o zagueiro figura entre os defensores com maior taxa de duelos aéreos ganhos em sua posição, o que representa ativo direto em jogadas de bola parada — justamente o recurso que seleções menores exploram em Copas.
Ao lado dele, Fabián Balbuena, do Grêmio, traz a experiência de quem já passou por West Ham e Nottingham Forest na Premier League. O defensor de 33 anos é o veterano do setor e funciona como seguro de vida da dupla de zaga. Junior Alonso, do Atlético-MG, completa o trio de defensores convocados com perfil diferente: versátil o suficiente para atuar como zagueiro ou lateral-esquerdo, o jogador de 28 anos dá a Alfaro uma opção que poucos treinadores têm em seleções de porte médio — a capacidade de mudar o sistema sem mudar o plantel.
"O Paraguai tem jogadores de muita qualidade, com experiência em grandes clubes. Vamos fazer uma Copa muito competitiva", declarou Alfaro ao anunciar a lista final nesta segunda-feira.
Gatito, Villasanti e os Romero — os coadjuvantes que decidem
Gatito Fernández construiu sua lenda no Brasil com a camisa do Botafogo, onde foi ídolo entre 2016 e 2022, antes de retornar ao Cerro Porteño. Aos 36 anos, o goleiro chega à Copa como terceiro da hierarquia, mas carrega o peso simbólico de quem conhece o futebol brasileiro por dentro — e isso tem valor intangível num grupo que inclui o anfitrião Estados Unidos na estreia, marcada para 12 de junho, às 22h (horário de Brasília), em Los Angeles.
Matías Villasanti, volante do Grêmio, é talvez o nome menos celebrado da lista, mas cumpre função estrutural. O jogador de 27 anos é o tipo de peça que os analistas chamam de "regulador de pressão" — ele não aparece nas estatísticas de gols ou assistências, mas controla o ritmo quando o adversário pressiona. Num grupo com Turquia (20 de junho) e Austrália (25 de junho), ambas as partidas em Santa Clara, esse tipo de equilíbrio pode definir a diferença entre avançar ou não.
Os irmãos Óscar Romero, do Huracán, e Ángel Romero, do Boca Juniors, fecham o conjunto de convocados ligados ao Brasil — ainda que atuem na Argentina. Ambos passaram por clubes brasileiros em diferentes momentos da carreira e conhecem o estilo de jogo sul-americano em sua versão mais crua. Ángel, atacante de 32 anos, tem no Boca Juniors um clube que o manteve produtivo e confiante; Óscar, meia-atacante de 31 anos, é o tipo de jogador que desequilibra em espaços reduzidos, característica que pode ser explorada contra defesas organizadas como a australiana.
"Ángel e Óscar são jogadores que já viveram grandes pressões. Ter os dois disponíveis é uma riqueza para a seleção", afirmou o auxiliar técnico da comissão paraguaia em entrevista coletiva antes do embarque.
O Grupo D e o que a colônia brasileira precisa entregar
O Paraguai de 2026 não é o mesmo de 2010 — quando eliminou o Japão nas oitavas antes de cair para a Espanha nas quartas — mas tampouco é uma seleção sem recursos. A convocação de Alfaro reúne atletas que jogam semanalmente em alto nível: além dos sete ligados ao Brasil, há Diego Gómez no Brighton, Andrés Cubas no Vancouver e Miguel Almirón de volta ao Atlanta United. A espinha dorsal, porém, é sul-americana, e sete dos seus tijolos mais importantes foram moldados pelo Brasileirão.
A leitura coletiva que emerge dessa lista é a de uma seleção que apostou na consistência acima do talento individual — o que historicamente favorece equipes que chegam às fases eliminatórias sem favoritismo. Em reportagem publicada pelo SportNavo, o perfil de Damián Bobadilla, convocado pelo São Paulo, já antecipava essa tendência de Alfaro de valorizar jogadores com ritmo de jogo elevado e adaptação tática. Seria injusto chamar de era dourada do futebol paraguaio — mas é uma era em escala doméstica, construída tijolo a tijolo nos campos de Belo Horizonte, Porto Alegre e São Paulo.
O Paraguai estreia no dia 12 de junho contra os Estados Unidos, em Los Angeles, às 22h (horário de Brasília). Se Gustavo Gómez e Balbuena sustentarem a defesa no mesmo nível que apresentam nos seus clubes, e se Villasanti conseguir controlar o meio-campo diante da intensidade americana, a seleção guarani pode repetir o que fez em 2010 — chegar mais longe do que qualquer prognóstico inicial sugeria. É o mesmo cenário que o Paraguai viveu naquele sul-africano de 2010, quando ninguém apostava neles além das fases de grupo — só que agora a aposta é diferente, porque os jogadores que a sustentam foram forjados no mais exigente campeonato do continente.










