O meio-campo girava rápido, a posse não saía e dois jovens com sotaque francês ditavam o ritmo contra uma das seleções mais tradicionais do mundo. Eram Bilal El Khannouss, 22 anos, formado nas categorias de base do Genk na Bélgica, e Reda Bouaddi, 18 anos, revelado pelo Lille. Juntos, eles foram os responsáveis pelo controle que o Marrocos exerceu no empate de 1 a 1 com o Brasil na estreia da Copa do Mundo de 2026, no MetLife Stadium.

O resultado não foi acidente. Foi produto de um modelo de construção de seleção que começou a ganhar forma muito antes de 2022 e que, neste ciclo, atingiu proporções inéditas: segundo levantamento do portal oGol, 73% dos jogadores convocados pelo Marrocos para a Copa de 2026 nasceram fora do país — ante os 54% registrados no elenco histórico do Catar. A proporção, que já era a maior entre todas as seleções em 2022, cresceu ainda mais quatro anos depois.

Da Bélgica à Espanha — onde o Marrocos foi construído

Achraf Hakimi nasceu em Madri em 1998, filho de imigrantes marroquinos que trabalhavam no bairro de Fuencarral. Formado no Real Madrid desde os 8 anos, campeão da Champions League pelo PSG na temporada 2025/2026, ele é o símbolo mais visível de um fenômeno que se repete em dezenas de jogadores do elenco. Brahim Díaz, também do Real Madrid, nasceu em Málaga. O atacante Sofiane Boufal foi revelado pelo Angers, na França. A lista é extensa e geograficamente diversa.

Quando faz a transição entre linhas, El Khannouss carrega a intensidade e o posicionamento típicos do futebol belga, onde passou por Genk sub-17 e sub-21 antes de se profissionalizar. Quando pressiona a saída de bola adversária, Bouaddi reproduz os princípios táticos do Lille, clube que nos últimos anos produziu nomes como Renato Sanches e Jonathan David.

Esses não são casos isolados. Segundo dados compilados pela Folha de S.Paulo, 82% dos jogadores convocados para a Copa de 2026 foram desenvolvidos em clubes europeus — alta de 13 pontos percentuais em relação ao ciclo anterior, quando o índice era de 69%. No mesmo período, a presença de atletas oriundos da liga marroquina caiu de 11% para apenas 7% do elenco.

"O desempenho da seleção não reflete plenamente o futebol doméstico, já que muitos dos principais jogadores do elenco possuem dupla nacionalidade e foram formados em clubes e academias europeias", afirmou Mahfoud Amara, professor de ciências sociais e gestão do esporte da Universidade do Qatar, à Folha de S.Paulo.

O modelo diaspórico e o que ele produz em campo

Contra o Brasil, o Marrocos entrou em campo com nove jogadores que atuam nas cinco principais ligas europeias. O Brasil tinha oito. A comparação, que seria impensável há dez anos, ilustra como a diáspora marroquina transformou não apenas a composição do elenco, mas a capacidade competitiva da seleção. Acostumados à intensidade da Premier League, da La Liga e da Ligue 1, esses jogadores chegam ao nível de Copa do Mundo com repertório tático e físico já calibrado para disputas de alto nível.

O técnico Mohamed Ouahbi, que assumiu o comando em março de 2026 no lugar de Walid Regragui, herdou uma estrutura consolidada. A seleção chegou ao confronto com o Brasil embalada por uma sequência de 30 jogos sem derrota — o maior jejum invicto entre todas as seleções presentes no torneio, ao lado da Espanha. Esse número não é produto de sorte: é o reflexo de um grupo que joga junto há anos e que, em grande parte, se conhece desde as categorias de base europeias.

"Conhecemos a qualidade do Brasil, dos jogadores. Na África, nos chamam de brasileiros africanos, então temos também atletas de grande qualidade", disse Hakimi após o empate no MetLife Stadium.

A fala do lateral do PSG não é apenas retórica. O apelido de "Brasil da África" carrega uma comparação técnica real: assim como o futebol brasileiro exportou gerações de jogadores que moldaram estilos em clubes europeus e depois voltaram para a seleção com repertório ampliado, o Marrocos faz o mesmo com sua diáspora — com a diferença de que, no caso marroquino, os jogadores nunca saíram do país de origem. Eles nasceram e cresceram na Europa.

O que os números de base revelam sobre o futuro do modelo

A trajetória de El Khannouss é representativa da geração atual. Nascido em Hasselt, na Bélgica, em 2004, ele passou pelo Genk nas categorias sub-16, sub-17 e sub-21 antes de se profissionalizar em 2022. Na temporada 2025/2026, acumula mais de 2.800 minutos jogados pelo clube belga e registra 9 assistências na Jupiler Pro League — números que justificam sua presença como titular na Copa aos 22 anos.

Bouaddi, o mais jovem do grupo com 18 anos, foi revelado pelo Lille sub-17 e integrou a seleção sub-20 marroquina antes de ser convocado para o grupo principal. Sua presença no torneio como titular na estreia contra o Brasil indica que o modelo não depende apenas de jogadores já consagrados — há uma pipeline de formação europeia alimentando constantemente o elenco.

A comparação com outras seleções africanas reforça o diagnóstico. Segundo levantamento publicado pelo portal The Conversation, a República Democrática do Congo tem 85% de jogadores nascidos no exterior na Copa de 2026, e Curaçao chega a 96%. Mas nenhuma dessas seleções combina proporção alta de diáspora com o nível de clubes formadores que o Marrocos apresenta — Real Madrid, PSG, Lille, Genk, Feyenoord e Eindhoven figuram na lista de academias que produziram o atual elenco.

O que o empate com o Brasil indica para as próximas rodadas

O Marrocos foi o primeiro país africano a se classificar para a Copa de 2026, como líder do Grupo E das Eliminatórias da CAF. O desempenho contra o Brasil — com controle de posse, pressão alta e o gol marcado por Saibari — confirmou que a seleção não chegou ao torneio para administrar resultados. O lado direito formado por Hakimi e Brahim Díaz foi o setor que mais criou perigo contra a defesa brasileira durante os 90 minutos.

A próxima partida do Marrocos está marcada para a sexta-feira, às 19h, contra a Escócia, em Boston. Uma vitória colocaria a seleção de Ouahbi na liderança do Grupo C e praticamente garantiria a classificação para as oitavas. Se o desempenho contra o Brasil serviu de parâmetro, a pergunta que fica é: o modelo diaspórico marroquino tem profundidade suficiente para sustentar uma campanha até a final — e qual seleção europeia estaria disposta a enfrentá-los nas quartas sabendo que El Khannouss e Bouaddi ainda têm mais dois jogos de rodagem pela frente?