O pênalti foi cobrado com a tranquilidade de quem já viu tudo. Era junho de 2022, Estádio Nacional de Tóquio, e Neymar converteu o único gol da vitória brasileira por 1 a 0 sobre o Japão — o resultado mais recente que o Brasil registra contra os Samurais Azuis. Quatro anos depois, nesta segunda-feira (29), as mesmas seleções se encontram em Houston, no mata-mata da Copa do Mundo de 2026, e o camisa 10 volta ao centro de tudo.

O peso de uma memória recente que o Japão não esqueceu

Entre aquele amistoso de 2022 e a tarde de 14 de outubro de 2025, o mundo do futebol japonês mudou de endereço. Num amistoso disputado novamente em Tóquio, o Brasil de Carlo Ancelotti abriu 2 a 0 no primeiro tempo — com gol de Paulo Henrique aos 25 minutos e assistência de cavadinha de Lucas Paquetá para Gabriel Martinelli ampliar aos 31 — e depois desmoronou. Sem Bruno Guimarães em campo, a seleção concedeu três gols em 20 minutos na segunda etapa: Minamino descontou aos 6, Nakamura empatou aos 16 e Ueda, de cabeça, virou para 3 a 2 aos 25. O que parecia goleada tornou-se derrota histórica diante de 44 mil torcedores japoneses em delírio.

Na fase de grupos desta Copa, o Brasil atravessou a chave C de forma irregular. Um empate com Marrocos na estreia foi seguido por duas goleadas de 3 a 0 — sobre Haiti e Escócia — que garantiram a liderança. O Japão, por sua vez, terminou segundo no Grupo F, atrás da Holanda, após empatar com a Suécia na última rodada. Números que, isolados, sugerem favoritismo brasileiro. Mas números raramente contam a história completa.

Quando Neymar decide, o Brasil respira — quando não decide, sufoca

Quando faz o jogo girar em torno de si, Neymar transforma a seleção numa equipe diferente — mais fluida, mais imprevisível, capaz de criar soluções onde o coletivo travou. Quando some da partida, o Brasil frequentemente perde o fio condutor entre o meio-campo e o ataque, exatamente o problema que aflorou naquela derrota de outubro em Tóquio.

O peso de uma memória recente que o Japão não esqueceu Neymar decidiu em Tóquio
O peso de uma memória recente que o Japão não esqueceu Neymar decidiu em Tóquio

Quando carrega a responsabilidade do camisa 10 com convicção, ele não é apenas um finalizador — é o metrônomo que determina o ritmo de pressão e recuo. O gol de pênalti em 2022 no Japão foi sintomático disso: uma decisão técnica em momento de equilíbrio, que nenhum outro jogador do elenco daquela noite pareceu capaz de resolver com a mesma frieza.

Felipe Melo e Paulo Nunes apontam o mesmo nó

No SporTV, dois ex-jogadores que conhecem o peso do mata-mata fizeram alertas convergentes, mas com ênfases distintas. Felipe Melo centrou sua análise no encaixe tático da seleção:

"Se não evoluir muito, não vai passar pelo Japão, não. O grande segredo é respeitar as características de cada atleta. O Bruno Guimarães tem uma, o Paquetá tem outra. No Real Madrid era diferente, com Kroos e Valverde. O importante é encontrar um sistema em que cada jogador consiga render o seu melhor."

A observação de Felipe Melo não é cosmética. A derrota de outubro expôs exatamente essa fragilidade: quando Ancelotti promoveu trocas no intervalo e retirou Bruno Guimarães, o meio-campo perdeu consistência e a defesa desmoronou. O erro de Fabrício Bruno — um passe curto mal calculado na própria área que presenteou Minamino — foi o símbolo de uma equipe que havia perdido o equilíbrio antes mesmo de o gol sair.

Paulo Nunes trouxe uma perspectiva diferente, focada na maturidade do adversário:

"Esses jogadores já disputaram uma Copa do Mundo. São jogadores de qualidade, mas eram garotos. O conjunto melhorou muito. O coletivo é o fator predominante. Eles têm respeito pelo Brasil, mas o Japão não tem apavoro de jogar contra o Brasil. Não tem mais isso. Eles se enfrentam direto nas ligas."

A frase "não tem mais isso" carrega uma arqueologia recente: jogadores como Minamino, Nakamura e Ueda atuam em ligas europeias de alto nível há anos, enfrentando semana a semana o mesmo nível de adversidade que uma Copa do Mundo exige. A reverência histórica ao Brasil — real até o início dos anos 2000 — foi substituída por uma leitura técnica e fria do adversário.

O trunfo e o risco têm o mesmo nome

A dependência de Neymar é, simultaneamente, o maior trunfo e a maior vulnerabilidade que o Brasil carrega para Houston. O trunfo: nenhum jogador do elenco de Ancelotti reúne, na mesma medida, capacidade de criar do nada, converter cobranças de pênalti sob pressão e arrastar defensores para abrir espaço. O risco: quando o camisa 10 é neutralizado — e o Japão, com seu bloco compacto e transições rápidas, tem demonstrado capacidade para isso — o Brasil perde a bússola ofensiva.

O histórico de 2022 e 2025 forma um díptico revelador. Na vitória, Neymar estava presente e foi decisivo. Na derrota, o problema não foi apenas tático — foi a incapacidade de encontrar um segundo jogador capaz de resolver quando o sistema entrou em colapso. Ancelotti terá de responder a essa equação antes das 14h de segunda-feira, horário de Brasília, no NRG Stadium, em Houston.

Na véspera do jogo, Neymar treina na concentração brasileira enquanto o sol de junho em Houston projeta sombras compridas sobre o gramado. É a mesma luz de todo mata-mata — a que revela quem está pronto e quem ainda está chegando.