Mediu. Antes de qualquer bola rolada, antes de qualquer escalação definida, a Copa do Mundo de 2026 já impôs ao Brasil um desafio inédito: percorrer aproximadamente 8.000 quilômetros entre as três cidades-sede da fase de grupos — Nova York, Los Angeles e Miami — num formato de três países que a história do torneio jamais havia testado. Nenhuma edição anterior, nem a de 1994 nos Estados Unidos com nove cidades, exigiu deslocamentos intercontinentais dentro da própria fase de grupos. O que era logística virou tática.

O mapa que nenhum técnico da Seleção enfrentou antes

A Copa do Mundo de 2026 será a primeira disputada em 16 cidades distribuídas por três nações — Estados Unidos, México e Canadá — e isso muda estruturalmente a preparação de toda seleção classificada. O Brasil estreia no dia 13 de junho contra o Marrocos no MetLife Stadium, arena localizada tecnicamente em East Rutherford, no estado de Nova Jersey, às margens da região metropolitana de Nova York. O segundo jogo será em Los Angeles e o terceiro em Miami, no Hard Rock Stadium. Entre Nova York e Los Angeles há pouco mais de 4.500 km em linha reta. Entre Los Angeles e Miami, outros 3.400 km. O total acumulado ultrapassa os 8.000 km — distância equivalente a voar de São Paulo a Lisboa e ainda sobrar quilômetros.

Para efeito de comparação histórica: na Copa de 1994, também nos EUA, o Brasil jogou em Stanford (Califórnia), Dallas (Texas) e Detroit (Michigan). A distância acumulada naquela fase de grupos girava em torno de 4.200 km. Naquele torneio, a Seleção Brasileira chegou ao título com Parreira no comando e uma campanha de seis vitórias, um empate e uma decisão nos pênaltis contra a Itália. Mas é preciso relativizar: em 1994, o Brasil não saiu de uma bolha de 8.000 km em apenas duas semanas de fase inicial.

O mapa que nenhum técnico da Seleção enfrentou antes Como 8.000 km de viagem pod
O mapa que nenhum técnico da Seleção enfrentou antes Como 8.000 km de viagem pod

Levantamento feito pelo UOL Esporte calculou os deslocamentos de todas as 48 seleções participantes, e o Brasil figura entre as equipes com maior quilometragem na fase de grupos. O ranking coloca algumas seleções europeias em situação ainda mais severa, dependendo dos grupos e das cidades designadas, mas poucas combinações reúnem três cidades tão geograficamente dispersas quanto a do Brasil.

O custo invisível que Miami e Nova York escondem nos números

A logística não é apenas quilômetro percorrido — ela tem preço e tem impacto operacional. Em Miami, o Hard Rock Stadium apresenta um problema estrutural relevante: o sistema de metrô e trem da cidade não chega ao estádio. O governo local anunciou transporte gratuito a partir de quatro estações — Dr. Martin Luther King Jr. Plaza Metrorail Station, Golden Glades Multimodal Transit Station, Aventura Brightline Station e Seminole Hard Rock Hotel and Casino —, mas a solução depende de baldeação e ainda assim deixa lacunas para quem vem de regiões como Orlando.

Para os torcedores que optarem pelo carro, o custo do estacionamento saltou de US$ 30 na Copa do Mundo de Clubes de 2025 para US$ 175 na fase de grupos da Copa de 2026 — e pode chegar a US$ 250 no mata-mata. David Cohen, torcedor do Palmeiras que acompanhou a partida entre Inter Miami e Palmeiras no Mundial de Clubes, relatou a realidade do local:

"Tinham duas zonas de estacionamento, a amarela e a laranja. Peguei na que era mais afastada do estádio, então não cheguei a pegar todo o trânsito."

No MetLife Stadium, em Nova Jersey, onde o Brasil estreia, a situação do transporte também gerou polêmica. A passagem de trem até o estádio durante a Copa estava sendo comercializada a US$ 150 — onze vezes o valor habitual de US$ 12,90. Após pressão pública, o preço foi reduzido para US$ 98, mas permanece numa faixa que seria impensável em qualquer edição anterior do torneio. O governo do Estado de Nova York anunciou a disponibilização de ônibus escolares para ampliar a capacidade de traslado a partir do Port Authority Bus Terminal.

Seria injusto chamar de caos logístico o que Miami e Nova York apresentam — mas é um nível de complexidade operacional que, em escala doméstica de uma Copa do Mundo, se aproxima bastante disso.

O que a história das Copas diz sobre fadiga e desempenho

A memória das Copas do Mundo oferece dados concretos sobre o impacto do desgaste físico acumulado no desempenho das seleções. Na Copa de 2002, disputada em Japão e Coreia do Sul — outro torneio binacional —, as equipes europeias que viajaram mais longe para chegar às sedes relataram dificuldades de adaptação ao fuso horário asiático. A França, campeã em 1998 e favorita absoluta, foi eliminada na fase de grupos sem marcar um único gol, em parte atribuída ao desgaste da viagem e à ruptura da preparação habitual.

A Seleção Brasileira, naquela edição de 2002, usou uma estratégia cirúrgica: estabeleceu base fixa em Ulsan, na Coreia do Sul, e minimizou deslocamentos desnecessários. Felipão manteve o grupo concentrado, com rotina rígida de recuperação. O resultado foram sete vitórias em sete jogos e o pentacampeonato. Ronaldo marcou 8 gols no torneio — artilheiro da competição — e Rivaldo somou 5 gols e 3 assistências. A logística bem gerenciada foi parte do planejamento vitorioso.

Em contrapartida, na Copa de 2010, na África do Sul, seleções que subestimaram o impacto dos deslocamentos entre cidades geograficamente distantes — Johannesburgo, Cidade do Cabo e Durban chegam a ter 1.700 km de separação — sentiram o peso nas pernas nas fases eliminatórias. A Inglaterra, por exemplo, percorreu mais de 5.000 km na fase de grupos e foi eliminada nas oitavas de final pela Alemanha com uma derrota por 4 a 1 que ainda hoje é referência de colapso físico e tático combinados.

Para 2026, a comissão técnica brasileira precisará tomar decisões que vão além da escalação: onde fixar a base de treinamento, como gerenciar os voos entre cidades (fretados ou comerciais), qual o protocolo de recuperação entre jogos com intervalos curtos e deslocamentos longos. Num torneio em que o Brasil jogará Miami, Los Angeles e Nova York em cerca de 12 dias, cada hora de descanso recuperado no avião ou no hotel pode valer um gol.

Em matéria do SportNavo sobre o calendário da fase de grupos, os intervalos entre os jogos do Brasil ficam entre seis e sete dias — tempo razoável em condições normais, mas comprimido quando se considera a adição de 8.000 km de viagem aérea acumulada. É o mesmo cenário que a Seleção viveu em 2002 na Ásia — só que agora a aposta logística é feita dentro de um único continente, com cidades que parecem próximas no mapa mas são, na prática, tão distantes quanto continentes separados.