Perder pode classificar. Ganhar pode não bastar. Essa é a contradição que o novo formato da Copa do Mundo de 2026 instalou no coração da fase de grupos — e que esta quinta-feira, 25 de junho, está resolvendo em tempo real em três grupos simultaneamente.

Os 8 que valem tanto quanto os primeiros colocados

Com 48 seleções divididas em 12 grupos de quatro, a FIFA estruturou um torneio em que 32 equipes avançam ao mata-mata. Os dois primeiros de cada grupo garantem vaga automática — isso soma 24 classificados. Os outros oito vêm dos melhores terceiros colocados entre os 12 grupos, selecionados por pontuação, saldo de gols, gols marcados e, se necessário, ranking FIFA. Reparemos no detalhe: oito vagas disputadas por doze terceiros colocados representam uma taxa de aproveitamento de 66,7% para quem termina na terceira posição. No formato anterior, com 32 seleções e grupos de quatro, esse número era zero.

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O impacto imediato é sociológico antes de ser tático. Seleções que historicamente administravam uma eliminação precoce com certo fatalismo agora entram na terceira rodada com calculadoras em punho. O Paraguai, por exemplo, chega ao confronto desta quinta-feira contra a Austrália, às 23h (de Brasília), no Levi's Stadium, em Santa Clara, na terceira posição do Grupo D com três pontos e saldo de gols negativo em dois. Mesmo perdendo, a equipe do técnico Gustavo Alfaro ainda pode avançar como um dos melhores terceiros — dependendo do que acontecer nos demais grupos.

O Equador e a aritmética que pressiona um técnico

Nenhuma situação desta rodada ilustra melhor a nova lógica do que a do Equador no Grupo E. A seleção sul-americana entrou no torneio como uma das revelações das Eliminatórias, terminando a fase classificatória acima de Brasil e Uruguai, na segunda colocação. Dentro do Mundial, porém, somou apenas um ponto em dois jogos — uma derrota para a Costa do Marfim por 1 a 0 e um empate em 0 a 0 com Curaçao.

O técnico argentino Sebastián Beccacece, que chegou ao torneio com status de renovador, foi explícito sobre o que representa o duelo desta quinta-feira contra a Alemanha, às 17h, no MetLife Stadium:

"Ainda temos uma possibilidade de avançar. Se as coisas não acontecerem, terei que ir embora. É um lugar de que gosto muito, mas sei que o futebol é feito de resultados, independentemente do merecimento", declarou Beccacece em coletiva.

A lógica do novo formato, porém, é precisamente o que mantém o Equador matematicamente vivo. Uma vitória sobre a Alemanha — já classificada e com a liderança do grupo assegurada — levaria os equatorianos a quatro pontos. Com saldo de gols zerado ou positivo, essa pontuação seria suficiente para disputar uma das oito vagas de melhor terceiro colocado. O saldo de gols é o primeiro critério de desempate no ranking dos terceiros, já que o confronto direto não se aplica entre equipes de grupos diferentes. Cada gol marcado, portanto, pesa como uma fração de passaporte.

Como a vaga de terceiro reformata o modelo tático das seleções

O fenômeno que o novo formato produz é análogo a uma corrente de água que encontra um leito mais largo — ela não acelera, ela se distribui de forma diferente, ocupando espaços que antes não existiam. Seleções que, no formato anterior, jogariam a terceira rodada apenas para cumprir tabela agora precisam maximizar saldo de gols mesmo sem chances de terminar entre os dois primeiros. Isso elimina, ao menos em teoria, o incentivo ao futebol defensivo de resultado administrado.

O Grupo F desta quinta-feira oferece outro caso de estudo. A Holanda lidera a chave após uma goleada de 5 a 1 sobre a Suécia e enfrenta a Tunísia já praticamente classificada. Japão e Suécia se enfrentam diretamente pela segunda vaga, às 20h, com os japoneses precisando apenas de um empate para avançar. A Suécia, por sua vez, sabe que uma derrota pode ainda assim não significar eliminação — dependendo do saldo de gols acumulado em relação aos terceiros de outros grupos. Esse cálculo paralelo transforma cada partida em dois jogos simultâneos: o que acontece no gramado e o que acontece na tabela geral dos terceiros.

A literatura sociológica do esporte chama esse fenômeno de "racionalização estratégica do risco". Em termos práticos, significa que técnicos passaram a estudar não apenas o adversário direto, mas o comportamento médio dos terceiros colocados nos demais grupos. O portal Trivela descreveu esse processo ao analisar a seleção brasileira, que avançou como líder do Grupo C após vencer a Escócia por 3 a 0 na quarta-feira, 24, no Hard Rock Stadium, em Miami. O texto identificou que o entrosamento tático — a chamada "vantagem socioafetiva" dentro do conceito de Jogo de Posição popularizado por Pep Guardiola — tende a se ampliar justamente quando uma equipe não precisa mais calcular o mínimo necessário para avançar.

"Não consegui entrar no coração do torcedor. Conquistei a confiança dos meus jogadores, das pessoas que trabalham comigo e de quem está na seleção, mas claramente ainda não conquistei o torcedor", admitiu Beccacece, revelando a tensão entre o processo tático que construiu e a percepção externa de um torneio mal gerenciado.

A questão que o novo formato coloca para a sociologia do esporte é mais ampla. Quando a FIFA expandiu o Mundial de 32 para 48 seleções, o argumento oficial foi democratização — mais países representados, mais mercados consumidores, mais receita distribuída. O impacto tático, porém, foi redistribuir o risco de eliminação de forma que penaliza menos o erro pontual e premia mais a consistência ao longo de três jogos. Seleções com elencos profundos, capazes de variar esquemas e poupar titulares sem perder rendimento, ganham uma vantagem estrutural que vai além do talento individual.

Os números da folha salarial da seleção brasileira ilustram esse ponto de forma quase didática. Os dez jogadores mais bem remunerados do grupo convocado por Carlo Ancelotti somam mais de R$ 850 milhões em salários anuais, segundo levantamentos de plataformas especializadas no mercado do futebol. Vinícius Júnior, o mais bem pago, recebe aproximadamente R$ 146,2 milhões por temporada no Real Madrid. Essa concentração de valor econômico em um único plantel reflete exatamente o tipo de profundidade que o novo formato da Copa recompensa: a capacidade de gerir uma fase de grupos sem depender de um único resultado.

Para as seleções de menor orçamento, a equação é inversa. Curaçao, com 160 mil habitantes e estreante em Mundiais, entra na última rodada do Grupo E ainda com chances matemáticas — um feito que, no formato anterior, seria impossível com apenas um ponto. A vaga de melhor terceiro colocado funciona, nesse caso, como um amortecedor institucional que alonga a competição para mercados que a FIFA quer cultivar. O negócio e o esporte, como quase sempre, apontam para a mesma direção.

O Equador e a aritmética que pressiona um técnico Como 8 vagas de terceiro lugar
O Equador e a aritmética que pressiona um técnico Como 8 vagas de terceiro lugar

Os grupos D, E e F definem seus classificados ainda nesta quinta-feira. O Paraguai, se vencer a Austrália no Levi's Stadium, garante a segunda posição do Grupo D independentemente de qualquer outro resultado. Se perder, entra na corrida pelos oito melhores terceiros com três pontos e saldo negativo — uma posição matematicamente frágil, mas não impossível, a depender do que os demais grupos produzirem até domingo, quando se encerra a fase de grupos da Copa do Mundo 2026.