Não, a Bélgica não é a grande favorita ao vexame desta Copa do Mundo. Essa narrativa, que circula desde a segunda rodada, distorce o diagnóstico real. O problema dos belgas não é de talento — é de tempo. Copa do Mundo de 2026, Grupo G, terceira rodada: uma seleção com Kevin De Bruyne, Romelu Lukaku e Thibaut Courtois no plantel acumulou dois pontos em dois jogos, sem marcar um único gol por iniciativa própria. O único tento belga na competição saiu de um desvio involuntário do adversário, após jogada de Lukaku, no empate por 1 a 1 contra o Egito. Contra o Irã, 0 a 0. A pergunta correta não é se a Bélgica é boa. É se ainda é jovem o suficiente para transformar qualidade em resultado.
A narrativa da geração de ouro esconde um dado que ninguém quer ver
Em 2018, a Bélgica terminou o Mundial da Rússia em terceiro lugar — o melhor resultado de sua história. Havia uma coerência geracional naquele grupo: De Bruyne tinha 27 anos, Eden Hazard completava sua fase mais explosiva e Courtois acabara de ser eleito o melhor goleiro do torneio. Quatro anos depois, no Qatar, a mesma geração tropeçou na fase de grupos com apenas quatro pontos em três jogos, saindo nas oitavas para o Marrocos. Dois ciclos de Copa, dois resultados decrescentes. Agora, em 2026, o padrão se repete com uma agravante: Hazard, que entrou em campo nas primeiras rodadas em ritmo visivelmente abaixo de sua forma histórica, tem 35 anos. De Bruyne, 34. Courtois, 34.
Para entender o peso desse envelhecimento, basta buscar um paralelo histórico. A Itália de 2010, campeã em 2006, chegou ao Mundial da África do Sul com Fabio Cannavaro aos 36, Gattuso aos 32 e Del Piero como reserva. Caiu na fase de grupos com apenas dois pontos — exatamente como a Bélgica está agora. A diferença é que os italianos, ao menos, tinham um sistema defensivo consolidado. Os belgas, sob o comando de Rudi Garcia, parecem um time sem identidade tática definida: oscilam entre o 4-3-3 e o 4-2-3-1 sem convicção, e a linha defensiva mostrou fragilidade nas transições contra o Irã.

"A Nova Zelândia mostrou capacidade para atacar cedo, mas teve dificuldades para sustentar vantagem", registrou análise publicada pelo SportNavo com base nos dados das duas primeiras rodadas do Grupo G.
A Nova Zelândia não é apenas o adversário mais fraco do grupo
Esse é o segundo equívoco narrativo que precisa ser desfeito. Os All Whites chegam à última rodada com um ponto — empataram com o Irã por 2 a 2 na estreia, depois de ficar duas vezes à frente no placar, e perderam por 3 a 1 para o Egito, mesmo tendo aberto o marcador. O técnico Darren Bazeley tem um time que sabe começar partidas: nos dois jogos, a Nova Zelândia abriu o placar. O problema é a segunda etapa. Contra o Egito, sofreu três gols entre os 13 e os 37 minutos do segundo tempo — um colapso físico e tático que expõe uma limitação real de elenco.
Mas há um dado que a Bélgica não pode ignorar: a Nova Zelândia venceu apenas uma das últimas 13 partidas em todas as competições. Esse aproveitamento de 7,7% é o de uma seleção em crise estrutural, não apenas em má fase. Para os belgas, isso deveria ser alívio. O problema é que a Bélgica também não vence — e os dois times chegam ao BC Place, em Vancouver, numa espécie de espelho distorcido: um com mais qualidade, o outro com menos pressão histórica acumulada.
Decidiu.
Esse é o peso do jogo desta madrugada. Não há mais cálculo, não há mais margem. A Bélgica precisa vencer para avançar diretamente. A Nova Zelândia, além de vencer, precisa que o Irã derrote o Egito — que lidera o grupo com quatro pontos — para ter alguma chance de classificação. O cenário torna o jogo assimétrico em motivação: os belgas jogam por sobrevivência direta, os neozelandeses por uma combinação de resultados que está fora de seu controle.
O que De Bruyne ainda pode dar e o que o tempo já levou
A dependência da Bélgica em relação a Kevin De Bruyne nunca foi tão evidente quanto nesta Copa. Nas duas primeiras rodadas, o meia foi o único jogador belga capaz de criar desequilíbrio real — mas com uma mobilidade reduzida em comparação ao De Bruyne que destruía defesas pelo Manchester City entre 2016 e 2022. Naquele período, ele registrou temporadas de 20 assistências na Premier League, algo que nenhum outro meia europeu conseguiu com regularidade. Agora, no Napoli, onde atua desde 2024, De Bruyne mantém a leitura de jogo, mas perdeu a explosão que tornava suas arrancadas irrespondíveis.
Segundo o técnico Rudi Garcia, em declaração à imprensa antes da terceira rodada, "a equipe precisa ser mais eficiente com as oportunidades que cria" — uma admissão indireta de que o problema não é apenas criação, mas conversão.
Lukaku, por sua vez, segue sendo o referencial ofensivo, mas seus 31 anos já se fazem sentir na capacidade de pressionar a linha defensiva adversária com a intensidade de 2018. O centroavante tem histórico de aparecer em momentos decisivos — marcou 14 gols em Copas do Mundo ao longo da carreira — mas depende de serviço. E o serviço, sem um Hazard nos melhores anos, ficou comprometido.
A partida entre Nova Zelândia e Bélgica começa à 0h (horário de Brasília) desta madrugada de sábado, no BC Place, em Vancouver, com transmissão pela CazéTV. Para a Bélgica, uma derrota encerra não apenas a participação no torneio, mas formalmente o ciclo de uma geração que prometeu a Copa e entregou apenas um terceiro lugar — em 1986 e 2018, os dois melhores resultados da história belga. Se cair hoje, a seleção vai para casa com 2 pontos em três jogos e zero gols marcados por seu próprio ataque. Quarenta anos de espera pela Copa, e a geração mais talentosa da história do país pode terminar sem vencer uma única partida. O aproveitamento seria de 22,2%.












