O placar estava embolado. Todas as quatro seleções do Grupo G da Copa do Mundo encerraram a primeira rodada com exatamente um ponto cada — situação que transforma o duelo entre Bélgica e Irã, neste domingo (21), às 16h de Brasília, no SoFi Stadium, em Inglewood, na Califórnia, em algo que ultrapassa a simples lógica de pontuar. Quem perder aqui caminha para uma eliminação quase matemática. Quem vencer assume o controle do próprio destino no grupo mais equilibrado do torneio.

O que o empate da estreia revela sobre cada seleção

A Bélgica empatou em 1 a 1 com o Egito. O Irã empatou em 2 a 2 com a Nova Zelândia. Os números são parecidos no placar, mas narram histórias bem diferentes dentro de campo. A seleção belga, treinada por Rudi Garcia, mostrou posse de bola e talento individual, mas não conseguiu converter domínio em eficiência. Kevin De Bruyne funcionou como principal organizador, Jeremy Doku trouxe velocidade pelos lados, e Thibaut Courtois garantiu que o resultado não fosse pior. O problema estava no último terço: sem profundidade e sem um centroavante de referência em plena forma, a Bélgica pareceu grande demais para o jogo que produziu.

O que o empate da estreia revela sobre cada seleção Como a Bélgica e o Irã chega
O que o empate da estreia revela sobre cada seleção Como a Bélgica e o Irã chega

O Irã, por sua vez, mostrou reação. Depois de sair perdendo, a equipe de Amir Ghalenoei buscou o empate duas vezes contra a Nova Zelândia — Ramin Rezaeian e Mohammad Mohebi marcaram os gols iranianos. A capacidade de resposta existe. O problema foi defensivo: Elijah Just e Chris Wood encontraram espaços com alguma facilidade, e enfrentar De Bruyne, Doku e possivelmente Romelu Lukaku exige uma solidez que ainda não foi demonstrada.

O peso do desgaste iraniano fora do campo

Antes mesmo de qualquer análise tática, há um fator que Ghalenoei classificou com dureza. A federação iraniana anunciou que vai reclamar formalmente à FIFA sobre as restrições de viagem impostas pelos Estados Unidos — a seleção é obrigada a entrar no país no dia anterior aos jogos e sair na mesma noite da partida. A diferença de condições de preparação entre o Irã e qualquer outra seleção do torneio é do tamanho do trecho entre Recife e Manaus: dois mundos dentro do mesmo futebol.

"Somos a seleção mais oprimida do torneio", declarou o técnico Amir Ghalenoei, em referência às restrições logísticas e políticas que a equipe enfrenta nos Estados Unidos durante a Copa.

Essa realidade tem consequências concretas. O tempo de recuperação física é comprimido. A rotina de treinos fica comprometida. E o impacto psicológico de operar sob pressão diplomática constante não pode ser descartado como fator menor. Ghalenoei ainda tem dúvidas no meio-campo — Roozbeh Cheshmi e Saman Ghoddos apresentam desgaste físico, e Ghoddos precisou ser substituído antes do fim da partida contra a Nova Zelândia. A equipe que entra em campo no domingo pode não ser a mais descansada do torneio.

O dilema tático de Garcia e a decisão sobre Lukaku

Para Garcia, o jogo coloca em evidência uma escolha que ele não conseguiu resolver na estreia. Lukaku entrou bem contra o Egito, mas o técnico belga reconhece que o atacante ainda não tem ritmo para iniciar. A alternativa é manter Charles De Ketelaere como falso nove — uma função que o jogador desempenha com inteligência, mas que priva a Bélgica de presença física na área. Leandro Trossard e Matias Fernandez-Pardo são opções para o ataque, mas nenhum deles carrega o mesmo peso de referência que Lukaku em um jogo em que a Bélgica precisa marcar.

Na defesa, a ausência de Zeno Debast, cortado por lesão na coxa, obriga Garcia a repetir a linha usada na estreia. Maxim De Cuyper e Joaquin Seys pressionam por espaço nas laterais, mas a tendência é de continuidade. O plano belga passa por ser mais agressivo do que foi contra o Egito — pressão alta, posse orientada para o campo adversário — sem abrir flancos para o contra-ataque iraniano, que demonstrou velocidade nos últimos 30 metros.

"Precisamos ser mais eficientes. A equipe tem qualidade, mas qualidade sem resultado não leva a lugar nenhum neste nível", disse Garcia após o empate com o Egito, segundo relatos da imprensa europeia.

A chave tática do confronto passa justamente por esse equilíbrio. Se a Bélgica pressionar alto e o Irã conseguir sair jogando em velocidade, os espaços nas costas dos laterais belgas podem ser explorados. Rezaeian, que marcou contra a Nova Zelândia, tem condição física para esse tipo de transição. A Bélgica precisará gerenciar o ritmo do jogo com mais cuidado do que fez na estreia.

Há ainda o componente de quem joga com mais clareza sobre o que precisa. O Irã sabe que uma vitória aqui seria histórica — a seleção nunca passou da fase de grupos em Copas do Mundo. A Bélgica carrega o peso de uma geração que já foi chamada de "geração de ouro" e que, progressivamente, viu esse título ser questionado. De Bruyne, aos 34 anos, disputa o que provavelmente é sua última Copa. Esse tipo de pressão pode funcionar como combustível ou como peso.

Vencedora desta partida assume provisoriamente a liderança do Grupo G e jogará a terceira rodada com vantagem na classificação. Em caso de empate, o grupo segue completamente aberto para a última rodada, com todas as quatro seleções ainda com chances reais de classificação. A Bélgica volta a campo na terceira rodada contra a Nova Zelândia, enquanto o Irã enfrenta o Egito — e o resultado de domingo molda diretamente o que cada uma precisará fazer nesse último jogo.