16 anos. Esse é o tempo em que o número 10 da Seleção Brasileira pertence, de forma ininterrupta, a um único jogador. Neymar estreou com a camisa em 2010, contra os Estados Unidos, e desde então nenhum outro atleta sequer chegou perto de reclamar o símbolo publicamente. Na Granja Comary, na manhã desta sexta-feira (29 de maio), a imprensa tentou furar esse bloqueio. Não conseguiu.
O atacante Matheus Cunha, do Manchester United, foi o jogador escalado pela CBF para a coletiva do dia. Quando a reportagem da Band perguntou diretamente se Neymar teria pedido para continuar usando a camisa 10 no Mundial, a resposta chegou rápida e ensaiada.
"Assunto de número é muito irrelevante pra onde nós chegamos. É tão gratificante vestir essa camisa e realizar o nosso sonho. Para nós não tem algo maior que realizar esse sonho, pouco importa o número que estivermos usando."
A frase, por si só, não diz nada. O que diz tudo é o contexto em que ela foi proferida: um jogador de 25 anos, convocado para sua primeira Copa do Mundo depois de ficar fora em 2022, optou por não tocar num assunto que, segundo ele próprio, é irrelevante. Se fosse de fato irrelevante, não precisaria de resposta tão elaborada.
O peso de 16 anos numa numeração que a CBF nunca redistribuiu
Entre 1970 e 2010, a camisa 10 da Seleção passou por Pelé, Zico, Bebeto, Ronaldinho Gaúcho e Kaká — cada um com ciclos distintos, trocas naturais entre gerações. Desde que Neymar assumiu o número na preparação para a Copa de 2010, a CBF nunca mais o ofereceu a outro atleta, nem nos ciclos em que o camisa 10 esteve lesionado ou em baixa de rendimento. Essa fidelidade institucional é, ela mesma, uma declaração política.
Neymar se recupera de uma lesão de grau 2 na panturrilha direita. Está fora dos dois amistosos preparatórios — Brasil x Panamá, no Maracanã em 31 de maio, e Brasil x Egito, em Cleveland no dia 6 de junho — e corre risco real de perder a estreia da Copa contra Marrocos, marcada para 13 de junho, em Nova Jersey. Mesmo assim, segundo apuração publicada pelo O Globo, a decisão da CBF é anunciar Neymar como o camisa 10, atendendo tanto à hierarquia interna do elenco quanto à vontade do próprio jogador.
Outros membros do grupo convocado — entre eles Vinícius Jr., Raphinha e Rodrygo — sequer entraram na disputa. Não por falta de status. Vinícius Jr. foi eleito o melhor jogador do mundo pela FIFA em 2024. Raphinha liderou o Barcelona na temporada 2025/2026 com 31 gols e 18 assistências em todas as competições. Nenhum dos dois colocou o tema na mesa. A hierarquia opera no silêncio, e o silêncio é o protocolo.
Matheus Cunha e a função que ninguém chamou de camisa 9
Há uma segunda camada na coletiva desta sexta-feira que passou despercebida na cobertura sobre a numeração. Cunha deixou claro que não atuará como centroavante na Copa, mesmo que tenha passado boa parte do ciclo sendo tratado pela imprensa como possível referência do ataque. A função do jogador do Manchester United é outra — mais próxima de um segundo atacante ou meia avançado, com liberdade para circular.
"A gente viu a reação dele por voltar. Alguém tão grande demonstrar todo esse orgulho de estar de volta. Acho que a questão de número fica completamente fora do nosso alcance. O número que a gente vê lá na camisa"
A fala revela algo mais sutil do que diplomacia. Cunha transfere o foco para a emoção de Neymar ao retornar — e ao fazer isso, reposiciona o debate: não é sobre quem merece a 10, é sobre o que a presença do camisa 10 representa para o grupo. É uma estratégia retórica que desativa a controvérsia sem respondê-la. Funciona no curto prazo. Mas não apaga o fato de que a seleção chega à Copa com seu jogador mais simbólico em recuperação e com uma numeração ainda não oficializada pela CBF.
A lista com os 26 convocados inclui nomes como Alisson, Ederson, Casemiro, Vinícius Jr., Raphinha e o próprio Cunha. A CBF informou que a numeração oficial será divulgada em breve, e que os números usados no amistoso contra o Panamá já refletirão, em parte, as escolhas para o torneio. Ou seja: no domingo, o torcedor terá a primeira pista concreta sobre quem veste o quê — inclusive se Cunha herda algum número de impacto simbólico ou circula com uma numeração mais discreta.
A hierarquia que não precisa ser dita em voz alta
Grupos esportivos constroem hierarquias de duas formas. A primeira é explícita — o capitão, o vice-capitão, o jogador que fala primeiro nas coletivas. A segunda é tácita, feita de gestos, de omissões, de perguntas que ninguém faz. A camisa 10 da Seleção Brasileira migrou da primeira categoria para a segunda em algum momento entre 2014 e 2018, quando Neymar consolidou não apenas a titularidade, mas o direito ao símbolo.

Que nenhum jogador da geração atual — Endrick, Rayan, Savinho, qualquer um dos nomes novos que entraram no radar de Ancelotti — tenha sequer ensaiado uma reivindicação pública diz muito sobre como esse grupo foi construído. A convocação de 26 jogadores reúne uma média etária jovem no setor ofensivo, com quatro atacantes e flexibilidade tática, mas preserva o núcleo simbólico inalterado. Neymar pode jogar pouco ou nada na fase de grupos. A camisa, porém, é dele.
Matheus Cunha encerrou a coletiva sem revelar qual número usará. A CBF divulgará a numeração antes do amistoso contra o Panamá, neste domingo (31), às 18h30, no Maracanã — e o Brasil estreia na Copa do Mundo contra Marrocos no dia 13 de junho, às 19h, em Nova Jersey. Até lá, o número 10 permanece suspenso entre o que a CBF promete e o que a panturrilha de Neymar permite. Como uma partitura com um compasso em branco: a música já começou, mas a nota mais esperada ainda não foi tocada, conforme apurado em matéria do SportNavo.










