O Rasunda Stadium, em Gotemburgo, tinha 51 mil pessoas gritando quando um garoto de 17 anos driblou dois suecos e encobriu o goleiro para fazer o quinto gol do Brasil na final da Copa de 1958. Era 29 de junho. O placar — 5 a 2 — já estava definido. Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, havia marcado dois gols naquela tarde e se tornado o jogador mais jovem a balançar as redes em uma decisão de Copa do Mundo, recorde que permanece intacto 68 anos depois. Ao final do jogo, ele tirou a camisa número 10 do corpo e entregou ao companheiro de quarto durante o torneio, Dida — cujo nome completo era Edvaldo Alves de Santa Rosa. Aquela peça azul começou ali uma trajetória que termina, por ora, em um leilão da Sotheby's em Nova York, com estimativa de US$ 6 milhões (cerca de R$ 30 milhões).

Da família de Dida em Maceió ao Breuer Building em Manhattan

Por décadas, a camisa permaneceu sob os cuidados da família de Dida, guardada em Maceió, Alagoas. Em 1993, a peça foi doada ao Museu dos Esportes Edvaldo Alves Santa Rosa. Onze anos depois, em setembro de 2004, o museu decidiu leiloá-la — e o comprador da época desembolsou aproximadamente US$ 105 mil. Agora, mais de duas décadas depois, esse mesmo proprietário recoloca o uniforme no mercado. A valorização potencial é de quase 5.600% em 22 anos, o que, convertido em termos de mercado financeiro, representa uma taxa de retorno anual composta próxima de 20% — desempenho que envergonharia a maioria dos fundos de renda variável no mesmo período.

A Sotheby's anunciou que os lances para o leilão The Beautiful Game (O Jogo Bonito) estarão abertos entre 29 de junho e 16 de julho de 2026, datas que emolduram deliberadamente a fase final da Copa do Mundo de 2026 na América do Norte. A camisa ficará em exibição pública a partir de 1º de julho no Breuer Building, a nova sede da casa em Manhattan. O timing não é coincidência: a Sotheby's sabe que o futebol estará no centro da atenção global naquele momento, e que compradores de alto patrimônio estarão com os olhos voltados ao esporte.

O recorde que a camisa de Pelé pode ameaçar

Para entender o tamanho do que está em jogo, é preciso situar a camisa de Pelé dentro do mercado de memorabilia esportiva. O recorde atual para itens usados em eventos esportivos pertence à camisa do "Gol da Mão de Deus", usada por Diego Maradona na vitória da Argentina por 2 a 1 sobre a Inglaterra nas quartas de final da Copa de 1986, vendida por US$ 9,28 milhões em 2022. O mesmo leilão da Sotheby's incluirá a braçadeira de capitão que Maradona usou naquela mesma partida. Meses depois da venda da camisa argentina, uma peça de Michael Jordan de sua última temporada no Chicago Bulls foi arrematada por US$ 10,1 milhões, assumindo o topo absoluto do ranking.

"A peça remete à noite em que um jovem Pelé brilhou diante da Suécia ao marcar dois gols na vitória brasileira por 5 a 2, resultado que garantiu ao Brasil seu primeiro título mundial", afirmou a Sotheby's em comunicado divulgado sobre o leilão.

A camisa de Pelé entra nessa corrida com argumentos sólidos. No universo das relíquias esportivas, os analistas do setor utilizam um indicador chamado Cultural Impact Score — uma métrica que pondera o alcance global do atleta, a singularidade do momento histórico e o estado de conservação do item — para estimar o teto de valorização de peças em leilão. Sem entrar em fórmulas complexas: quanto maior a irreversibilidade do momento (um recorde que nunca mais pode ser quebrado, por exemplo), maior o piso de valor. A condição de Pelé como o único jogador a conquistar três Copas do Mundo e a impossibilidade física de qualquer atleta jamais voltar a ter 17 anos em uma final de Copa tornam este uniforme, na lógica dos colecionadores, um ativo com escassez absoluta.

O que o leilão revela sobre o futebol como patrimônio cultural

O lote da Sotheby's inclui ainda sete camisas de Lionel Messi, entre elas a usada na virada histórica do Barcelona sobre o Paris Saint-Germain por 6 a 1 nas oitavas da Champions League de 2017, estimada em cerca de US$ 400 mil, e uma camisa da Argentina nas Eliminatórias para a Copa de 2022. A diferença de escala entre os US$ 400 mil de Messi nesse item específico e os US$ 6 milhões estimados para a peça de Pelé não reflete uma hierarquia de grandeza esportiva — Messi tem itens avaliados em valores comparáveis — mas sim a raridade do momento histórico: a final de 1958 foi a única vez na história em que um adolescente marcou dois gols na decisão de uma Copa.

"A camisa pode se tornar uma das mais caras da história do esporte", projetou a Sotheby's no comunicado de divulgação do leilão.

Há também uma dimensão que vai além do colecionismo privado. Quando uma peça como essa circula por museus alagoanos, cruza o Atlântico e chega a uma das casas de leilão mais importantes do mundo, o futebol afirma sua condição de patrimônio cultural global — não apenas entretenimento de massa. O mercado de memorabilia esportiva movimentou mais de US$ 4,1 bilhões em 2024 globalmente, segundo estimativas do setor, e o futebol responde por fatia crescente desse volume, puxado pela projeção internacional da Copa do Mundo. A camisa de Pelé em 1958 não é apenas um uniforme. É um documento físico de uma noite que mudou o Brasil — e que o Brasil, ao que parece, ainda não terminou de precificar.

Os lances para a camisa serão recebidos entre 29 de junho e 16 de julho de 2026 pela plataforma da Sotheby's, com exibição presencial a partir de 1º de julho no Breuer Building, em Manhattan. O valor final pode superar os US$ 9,28 milhões da camisa de Maradona — esse recorde está na mesa — e ameaçar os US$ 10,1 milhões de Jordan.