Março de 2017. Quando a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) lavrou o boletim de ocorrência contra o ex-presidente Toninho Fernandes e o ex-diretor-financeiro Eduardo Esteter, o movimento não foi surpresa para quem acompanhava as denúncias do portal Olhar Olímpico desde dezembro do ano anterior. A surpresa foi a escala do que as investigações internas revelaram: dos R$ 1,5 milhão de um único convênio firmado em 2014 com a Secretaria de Esportes de São Paulo (SELJ), nada menos que R$ 906 mil foram sacados diretamente na boca do caixa. Os dois dirigentes assinavam os cheques, os endossavam e os resgatavam como pessoas físicas na rede bancária — um método que, pela sua rudeza, diz muito sobre o grau de impunidade que vigorava dentro da entidade.
O mecanismo de saque que derrubou Toninho Fernandes
O esquema identificado nos dois primeiros inquéritos administrativos da CBAt não exigia sofisticação financeira. Toninho Fernandes, que chegou a ser cotado para a vice-presidência do Comitê Olímpico do Brasil (COB) e para a presidência do Comitê Rio-2016, operava com uma lógica quase artesanal: convênios públicos eram firmados com a SELJ, os recursos entravam nas contas da confederação e, em seguida, cheques eram emitidos, endossados pelos próprios signatários e sacados em agências bancárias. A investigação interna, conduzida após a renúncia de Toninho em março, apurou que R$ 555 mil pagos a uma agência de turismo — supostamente para hospedar atletas durante o Troféu Brasil de 2014 — jamais foram comprovados como despesa legítima.

O presidente que assumiu após a renúncia, Warlindo Carneiro, abriu quatro inquéritos administrativos paralelos. Segundo o relato das apurações, outros três convênios de 2014 com a SELJ totalizam R$ 4,2 milhões ainda sob investigação — valor que, somado aos R$ 906 mil já comprovados, coloca o potencial de desvio na casa dos R$ 5,1 milhões em um único ano fiscal. O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP), pelo conselheiro Antonio Roque Citadini, já julgou irregulares as prestações de contas dos quatro convênios. A CBAt notificou o Ministério Público Estadual e ingressou com ações de ressarcimento contra os envolvidos.
"Toninho Fernandes caminhava para ser escolhido como vice-presidente do COB e presidente do Comitê Rio-2016, consagrado como segundo cartola mais influente do país no movimento olímpico", registrou o Olhar Olímpico ao detalhar a extensão da influência política do ex-dirigente antes das denúncias.
Figuras internacionais e a teia que conecta o atletismo ao Rio-2016
O caso da CBAt não existe no vácuo. Ele se insere em um padrão de governança fraturada que o atletismo mundial conheceu de perto nos anos que antecederam os Jogos Olímpicos do Rio. O jornal francês Le Monde revelou que Sergei Bubka — hexacampeão mundial e campeão olímpico do salto com vara, membro do COI e então vice-presidente da Federação Internacional de Atletismo (IAAF) — transferiu US$ 45 mil para a New Mills Investments em junho de 2009, empresa vinculada a Valentin Balakhnichev, ex-presidente da Federação Russa de Atletismo e ex-tesoureiro da IAAF. A New Mills, por sua vez, havia repassado valor idêntico à Pamodzi Sports, empresa de Papa Massata Diack, filho do ex-presidente da IAAF Lamine Diack, figura central no escândalo de compra de votos para a escolha do Rio como sede olímpica.
O empresário brasileiro Arthur Soares — alvo de mandado de prisão internacional da Interpol — transferiu US$ 1,5 milhão à mesma Pamodzi Sports e outros US$ 500 mil para uma conta na Rússia em benefício de Papa Massata Diack. Soares era próximo ao ex-governador Sérgio Cabral e acumulou contratos públicos estimados em R$ 3 bilhões durante aquela gestão. A análise do SportNavo sobre esse mapa de conexões indica que o atletismo funcionou, em parte, como correia de transmissão entre interesses políticos nacionais e a estrutura de poder da IAAF — um ecossistema onde dinheiro público e prestígio olímpico se retroalimentavam.

"A companhia pertence a Valentin Balakhnichev, ex-presidente da Federação Russa de Atletismo — acusada de patrocinar um esquema de dopagem de atletas — e ex-tesoureiro da Iaaf", descreveu o Estadão ao detalhar a cadeia de transferências financeiras.
Michael Johnson e o colapso da Grand Slam Track
Se o caso Toninho Fernandes ilustra o que acontece quando o controle público é frouxo, o processo envolvendo o tetracampeão olímpico Michael Johnson mostra que a ausência de governança privada produz estragos igualmente graves. Três fornecedores da extinta Grand Slam Track — liga de atletismo criada por Johnson que encerrou as atividades em 2026 com dívidas estimadas em R$ 200 milhões — pediram a um tribunal de falências nos Estados Unidos, em 9 de março, autorização para processar o velocista e o principal investidor da liga, a Winners Alliance, por fraude avaliada em 25 milhões de dólares.
O ponto central da acusação é um pagamento de US$ 500 mil que Johnson teria feito a si mesmo em junho de 2025, quase simultaneamente ao cancelamento do último Grand Slam em Los Angeles, que estava programado para 28 e 29 de junho. Segundo o Front Office Sports, os fornecedores alegam que Johnson "optou por se favorecer secretamente em detrimento dos atletas e de outros credores". Entre os atletas que aguardam pagamento está o brasileiro Alisson dos Santos, que disputou etapas da liga em 2025. Um plano que previa 85% de quitação para atletas e apenas 1,5% para credores foi rejeitado pelo tribunal. A ação judicial por desvio equivale a R$ 2,5 milhões na conversão direta citada nas investigações.
Há um ditado popular que diz que quem não tem cão caça com gato — e o atletismo brasileiro, historicamente subfinanciado e dependente de convênios estaduais para manter sua estrutura básica, caçou durante anos com os instrumentos que tinha: dirigentes com trânsito político e acesso a verbas públicas de baixo escrutínio. O resultado foi uma confederação vulnerável à captura por interesses privados, exatamente o padrão que o inquérito da CBAt agora documenta com nomes, valores e datas.
Com os relatórios dos dois primeiros inquéritos acolhidos integralmente pelo presidente Warlindo Carneiro, os próximos passos incluem a conclusão dos dois inquéritos restantes sobre os convênios de R$ 4,2 milhões, a tramitação do boletim de ocorrência junto à Polícia Civil, o acompanhamento pelo Ministério Público Estadual e as ações de ressarcimento na Justiça cível. Funcionários identificados como partícipes do esquema devem ser demitidos e igualmente denunciados. O TCE-SP já sinalizou a irregularidade formal das contas — o que abre caminho para responsabilização dos gestores públicos da SELJ que firmaram os convênios sem controle adequado. É o mesmo cenário que o atletismo mundial viveu com o caso Lamine Diack em 2015 — só que agora a aposta é que as instituições brasileiras consigam, desta vez, completar o ciclo de responsabilização.









