Plantou. A CBF semeou entre 2008 e 2021 e colhe agora, às vésperas da Copa do Mundo: 22 dos 26 jogadores convocados por Carlo Ancelotti para o Mundial têm passagem documentada pelas categorias de base da Seleção Brasileira. O número equivale a 84,61% da lista final — percentual que não tem precedente na história recente do futebol nacional e que transforma o debate sobre a convocação em algo muito maior do que a escolha de um técnico estrangeiro.
O fio que conecta 2008 a 2026
Para entender a magnitude do dado, é preciso recuar dezoito anos. Em março de 2008, três adolescentes responderam pela primeira vez a uma convocação da Seleção Sub-16: Alisson, Casemiro e Neymar. Nenhum deles tinha completado dezesseis anos. Nenhum deles sabia que, em 2026, estaria numa lista para disputar uma Copa do Mundo sob o comando de um técnico italiano tetracampeão da Liga dos Campeões.
Reparemos no detalhe que a estatística bruta esconde: não se trata apenas de detectar talento precocemente. Trata-se de mantê-lo dentro de um sistema de desenvolvimento que, segundo o coordenador das Seleções de Base da CBF, Branco, planeja ao menos três edições do Mundial à frente. O ex-lateral-esquerdo campeão com o Brasil na Copa de 1994 foi explícito ao comentar a lista de Ancelotti:
"Nós trabalhamos as gerações em um planejamento que prevê, ao menos, três Copas à frente. Ou seja, Endrick e Rayan, por exemplo, são jogadores com os quais trabalhamos pensando já em 2034. Eles são exemplos de uma geração muito talentosa. Dentro da base, sempre foram referências e até pularam etapas, assim como em seus clubes."
A declaração de Branco não é retórica vazia. Endrick e Rayan começaram a trajetória na Sub-15 em 2021 — cinco anos antes da Copa em que agora figuram na lista principal. Pularam a Sub-17, a Sub-20 e chegaram ao grupo de Ancelotti sem terem completado vinte anos. A trajetória deles dentro da estrutura da CBF assemelha-se a um rio que nasce fino na serra e chega largo ao litoral: a vazão aumentou de modo gradual, nunca por ruptura.
Marquinhos, Casemiro e a geração que formou o esqueleto da Seleção
Entre os 22 convocados com passagem pela base, o espectro de posições é quase completo. Na defesa, Marquinhos vestiu a camisa das categorias inferiores antes de se tornar capitão do PSG e um dos zagueiros mais consistentes da última década europeia. No meio-campo, Casemiro — que acumula cinco títulos da Liga dos Campeões, sendo quatro pelo Real Madrid e um pelo Manchester United — iniciou o ciclo na mesma turma Sub-16 de Alisson e Neymar em 2008.
A presença de Alisson na lista merece atenção específica. O goleiro gaúcho, revelado pelo Internacional, tem o maior número de jogos invicto numa única Copa do Mundo entre os goleiros brasileiros desde Taffarel na campanha de 1994: manteve a meta inviolada por 307 minutos na Copa da Rússia, em 2018, antes de sofrer o gol de Neymar Coutinho... perdão, o gol de Nacer Chadli na derrota por 2 a 1 para a Bélgica nas quartas de final. O dado quantifica o que a base da CBF produziu em termos de qualidade técnica individual.
"A minha sensação é de orgulho e de um entendimento positivo sobre a condução do trabalho nas categorias de base. Esse alto número de jogadores entre os convocados com passagens pela base — 22 ao todo — mostra que temos uma sólida estrutura de observação e de avaliação dos atletas. Não se trata apenas de detectar talento, mas de aproveitá-lo ao máximo enquanto está na Seleção para desenvolvê-lo dentro do que imaginamos", afirmou Branco, em matéria do SportNavo.
O Brasil em comparação com as outras potências do futebol mundial
A título de referência histórica: a Alemanha tetracampeã de 2014 apresentou, segundo levantamento da UEFA, aproximadamente 73% dos convocados com passagem pelas categorias Sub-21 da DFB — federação alemã — nos quatro anos anteriores ao Mundial. A Espanha bicampeã entre 2008 e 2012 manteve índice similar, em torno de 76%, considerando os três torneios consecutivos (Euro 2008, Copa 2010 e Euro 2012). O índice brasileiro de 84,61% para a Copa de 2026 supera ambos os referenciais europeus que moldaram o debate sobre formação de seleções na última geração.
A diferença estrutural está no ciclo. Enquanto federações europeias costumam trabalhar em ciclos de quatro anos — um por Copa —, a CBF adotou, ao menos discursivamente desde a reformulação pós-2014, o planejamento trifásico: uma geração atende a Copa imediata, outra está em formação para a seguinte e uma terceira é apenas observada para o horizonte de doze anos. Endrick e Rayan exemplificam a segunda fase desse modelo; são jogadores da Copa de 2026 que já foram planejados com olhos em 2034.
Os quatro convocados sem passagem pela base e o que isso revela
Dos 26 nomes na lista de Ancelotti, quatro não têm registro de passagem pelas categorias inferiores da Seleção. Identificar esses atletas importa tanto quanto celebrar os 22 que têm. Em tese, eles chegaram à Seleção principal por rotas alternativas — maturidade tardia, clubes no exterior desde a adolescência ou desenvolvimento fora do radar dos observadores da CBF durante a janela de detecção. Nenhuma estrutura de formação, por mais eficiente, captura cem por cento dos talentos disponíveis. O próprio Branco reconheceu que o sistema é de observação e avaliação, não de controle total.

O número dos quatro ausentes da base aponta, paradoxalmente, para o limite saudável do modelo: a Seleção não é um produto exclusivo da CBF, mas uma combinação entre o planejamento institucional e a capacidade dos clubes brasileiros — e europeus — de desenvolver atletas que o sistema federativo não alcançou a tempo. A tensão entre esses dois polos alimentou as melhores gerações do futebol brasileiro, da Copa de 1970, com Pelé aos 29 anos liderando uma equipe construída por João Saldanha e refinada por Zagallo, até o time de 1994, em que Branco — hoje do lado da gestão — jogou ao lado de Romário e Bebeto numa das campanhas de aproveitamento mais sólidas da história: seis vitórias e um empate em sete jogos, com 11 gols marcados e apenas três sofridos.
A Copa do Mundo de 2026 começa para o Brasil em 18 de junho, contra o México, no Rose Bowl, em Pasadena. Dos 22 convocados que passaram pela base da CBF, pelo menos dezesseis devem figurar entre os titulares ou reservas imediatos de Ancelotti. Endrick e Rayan, os mais jovens da lista, carregam sobre os ombros não apenas a expectativa de 2026, mas o peso calculado de um planejamento que já mira 2034 — e que, se os números de hoje se confirmarem em campo, terá cumprido a promessa que começou numa convocação Sub-16, em março de 2008.









