As luzes dos estádios estavam acesas, as arquibancadas lotadas, e o maior torneio do planeta seguia seu ritmo frenético de jogos. Então, na noite de quarta-feira, 24 de junho, o chão literalmente tremeu. Com epicentro em La Guaira, cidade costeira a poucos quilômetros de Caracas, um abalo sísmico de 7.1 graus na escala Richter varreu o norte da Venezuela em questão de segundos, derrubando edifícios, soterando famílias e matando, até o momento, 920 pessoas — número confirmado pelo governo venezuelano na sexta-feira, 26 de junho. Entre os escombros, estava Yimbert Berroterán, atacante de 17 anos que havia representado sua seleção na Copa do Mundo Sub-17 realizada no Catar.
A narrativa que circulou primeiro não conta a história completa
Nas primeiras horas após a tragédia, a cobertura internacional tratou o terremoto venezuelano como mais um desastre natural em meio ao calendário da Copa do Mundo — uma nota de rodapé trágica, mas periférica ao torneio. Essa leitura subestima o impacto real. A Venezuela não é apenas um país afetado por uma catástrofe: é uma nação que, nos últimos anos, construiu pacientemente uma das bases de futebol jovem mais promissoras da América do Sul. A morte de Berroterán não é só uma perda humana — é um símbolo do que o terremoto roubou de uma geração inteira.
Berroterán atuava pelo Universidade Cesar Vallejo, clube peruano, e estava em La Guaira quando o tremor ocorreu. Ele havia participado da Copa do Mundo Sub-17 da Fifa no Catar, competição que revelou ao mundo o talento emergente do futebol venezuelano. Tinha 17 anos. A notícia de sua morte circulou rapidamente nas redes sociais e foi confirmada por fontes oficiais do futebol venezuelano na quinta-feira.
O presidente da Fifa, Gianni Infantino, emitiu um comunicado oficial neste sábado, 27 de junho, expressando solidariedade às vítimas. Em suas palavras:
"Entristece-me profundamente ver a devastadora destruição causada pelos terremotos na Venezuela, que tiraram tantas vidas e afetaram muitas outras pessoas. Uma das vítimas dessa tragédia é Yimbert Berroterán, jogador venezuelano que participou com a seleção de seu país na Copa do Mundo Sub-17 da FIFA 2025, no Catar. Em nome da FIFA e da comunidade futebolística mundial, quero expressar minhas mais sinceras condolências e dedicar minhas orações à sua família, amigos, companheiros de equipe e a todos que o conheciam, assim como às famílias e amigos de todas as outras vítimas." — Gianni Infantino, presidente da Fifa
Como a Copa do Mundo respondeu ao luto em campo e fora dele
A resposta do torneio foi rápida e coordenada. Todos os seis jogos realizados na sexta-feira, 26 de junho, pela fase de grupos da Copa do Mundo, incluíram um minuto de silêncio antes do apito inicial, em homenagem às vítimas do terremoto. A medida foi determinada pela organização do torneio e cumprida nos diferentes estádios que sediaram as partidas do dia.
A Espanha foi além. Na quinta-feira, 25 de junho, um dia após o terremoto, a seleção espanhola realizou um minuto de silêncio antes do treino. Na coletiva de imprensa subsequente, o técnico Luis de La Fuente abriu sua fala não com análises táticas ou prognósticos sobre o próximo jogo, mas com palavras de solidariedade à Venezuela. O gesto do treinador espanhol foi amplamente notado pela imprensa sul-americana como um ato de empatia genuína em meio à pressão competitiva de uma Copa do Mundo.
No futebol, como diz o ditado popular, quem não tem cão caça com gato — e a Venezuela, país historicamente mais associado ao beisebol do que ao futebol, encontrou no esporte a linguagem universal para receber a solidariedade do mundo. O minuto de silêncio nos estádios da Copa não apaga a dor, mas traduz em ritual coletivo o que palavras isoladas não conseguem expressar.
O que a perda de Berroterán revela sobre o futebol venezuelano
Para entender o peso real da morte de Yimbert Berroterán, é preciso contextualizar o momento do futebol venezuelano. A Vinotinto, como é conhecida a seleção do país, vive uma das fases mais promissoras de sua história recente. Nas categorias de base, o trabalho de formação ganhou consistência suficiente para levar o país a competições mundiais — algo impensável há duas décadas, quando o Venezuela era lanterna permanente nas Eliminatórias sul-americanas.
A Copa do Mundo Sub-17 no Catar foi justamente uma dessas vitrines. Berroterán, como atacante, representava exatamente o perfil de jogador que o futebol venezuelano vinha produzindo: jovem, técnico, com passagem por clubes sul-americanos fora do país — no caso dele, o Universidade Cesar Vallejo, do Peru. Sua morte, aos 17 anos, retira do futebol venezuelano não apenas um atleta, mas uma trajetória que ainda estava sendo escrita.
Cidades como La Guaira e Caracas registraram os maiores índices de destruição, com desabamentos que deixaram pessoas desaparecidas sob os escombros até esta data. O governo venezuelano ainda não divulgou um balanço definitivo de desaparecidos, mas as autoridades locais trabalham com a possibilidade de o número de mortos aumentar nas próximas horas, à medida que as equipes de resgate acessam áreas ainda bloqueadas pelos destroços.
A resposta institucional da Fifa — comunicado do presidente, minuto de silêncio nos jogos, homenagem específica a Berroterán — segue o protocolo que a entidade adotou em outras tragédias que afetaram diretamente o futebol. Mas há uma diferença relevante neste caso: a Copa do Mundo está em andamento, o que amplifica exponencialmente o alcance das homenagens. Estima-se que os jogos da fase de grupos reúnam audiências globais de centenas de milhões de espectadores por partida — o que transforma cada minuto de silêncio num ato de solidariedade transmitido simultaneamente para o planeta inteiro.
Para os torcedores que acompanham a Copa do Mundo neste fim de semana, vale prestar atenção às homenagens que os próximos jogos ainda devem realizar. A fase de grupos encerra sua última rodada neste sábado, 27 de junho, e os minutos de silêncio programados continuam sendo o momento mais concreto em que o torneio reconhece, diante de bilhões de pessoas, que o futebol existe dentro do mundo — e que o mundo, às vezes, sangra.










