O silêncio do vestiário escocês durou muito mais do que o tempo de um discurso de despedida. Horas depois da eliminação na fase de grupos da Copa do Mundo de 2026, Steve Clarke comunicou à Federação Escocesa de Futebol que não seguiria no cargo — mesmo tendo assinado uma renovação contratual até 2030 apenas semanas antes, em maio, com o embarque para o Mundial já confirmado. A contradição entre a tinta fresca no papel e o gesto de renúncia resume bem a tensão que marcou a campanha escocesa no torneio.
Uma eliminação que não perdoa renovação relâmpago
A Escócia terminou em terceiro lugar no Grupo C, atrás do Brasil e de Marrocos. A única vitória foi por 1 a 0 sobre o Haiti — adversário que, historicamente, nunca disputou uma Copa antes desta edição. As derrotas para os marroquinos e para os brasileiros fecharam qualquer possibilidade de classificação entre as oito melhores terceiras colocadas. Em um torneio com 48 seleções, no qual a janela de classificação foi ampliada justamente para beneficiar equipes de menor tradição, a Escócia não conseguiu aproveitar o formato mais generoso da história do Mundial.
Clarke tinha 62 anos ao deixar o cargo. Em carta divulgada pela federação, o treinador afirmou que sai "com orgulho pelo trabalho realizado" e destacou "a honra de ter comandado a seleção em um período de reconstrução". A imprensa britânica, contudo, foi categórica: a postura tática conservadora e as atuações abaixo das expectativas tornaram sua permanência "insustentável", segundo ex-jogadores e analistas ouvidos pelos principais veículos do Reino Unido.
"Deixo o cargo com orgulho pelo trabalho realizado e com profundo agradecimento aos jogadores, à comissão técnica e aos torcedores que estiveram ao nosso lado", escreveu Clarke na carta de despedida divulgada pela Federação Escocesa.
O legado que nenhum técnico escocês havia construído antes
Quem conhece a história do futebol escocês sabe o peso do que Clarke entregou. Antes de assumir o cargo em 2019, a Escócia vivia um jejum de 28 anos sem participar de Copas do Mundo — a última aparição havia sido em 1998, na França, quando a equipe foi eliminada na fase de grupos após derrota para o Marrocos e empate com a Noruega. Clarke não apenas encerrou esse jejum como classificou o país para três grandes torneios consecutivos: a Eurocopa de 2021 (realizada em 2021), a Eurocopa de 2024 na Alemanha e agora o Mundial de 2026. Nenhum outro técnico da seleção masculina escocesa havia conseguido esse feito na história centenária do futebol do país.
Para situar o leitor com precisão histórica: entre 1998 e 2021, a Escócia disputou quatro Copas do Mundo sem se classificar e três Eurocopas sem presença. Clarke transformou esse ciclo de ausências em participação regular — o que, no contexto escocês, equivale a uma revolução estrutural.
Como dizia o ditado: quem não tem cão caça com gato. Clarke trabalhou com um elenco sem uma grande estrela de nível mundial — Robertson é o nome mais reconhecível, mas nunca foi um craque dominante como os que a Irlanda do Norte teve nos anos 1980 ou como a própria Escócia teve com Dalglish nos anos 1970 — e ainda assim entregou classificações que gerações anteriores não conseguiram.
Quem pode vir depois e o que a federação precisa agora
A busca por sucessor ganhou caráter de urgência porque a Escócia volta a campo em menos de três meses, pelas eliminatórias da próxima edição da Liga das Nações. A Federação Escocesa não tem tempo para um processo longo de seleção.
Os nomes mais ventilados na imprensa britânica são dois: David Moyes, atual técnico do Everton, e Ange Postecoglou, que já comandou o Celtic — onde conquistou o título escocês — e mais recentemente o Tottenham Hotspur na Premier League. Moyes, com 63 anos, tem experiência acumulada em clubes ingleses de grande porte, incluindo passagens por Manchester United e West Ham. Postecoglou, australiano de origem grega, conhece o futebol escocês de dentro e tem um estilo ofensivo que contrasta diretamente com o conservadorismo que afastou a torcida de Clarke.
"Sua permanência havia se tornado insustentável", afirmaram ex-jogadores e analistas à imprensa britânica após a eliminação da fase de grupos.
O perfil exigido pelo momento é de um técnico que aceite jogar com mais intensidade ofensiva — algo que Clarke resistiu em adotar mesmo com jogadores como McTominay, que teve uma temporada expressiva pelo Napoli na Serie A 2025/2026, e Che Adams, artilheiro da seleção nas últimas campanhas classificatórias.
O que a Escócia precisa provar nos próximos dois anos
A pergunta que o futebol escocês precisa responder é mais dura do que qualquer nome de técnico: o ciclo de Clarke foi a exceção ou o novo padrão?

A resposta dependerá do que vier a seguir. A geração de jogadores que permitiu as três classificações consecutivas ainda está ativa — Robertson tem 32 anos, McTominay está no auge aos 29, e Billy Gilmour, que perdeu espaço durante a Copa por questões táticas, completou 24 anos em junho. O talento está disponível. O que falta é um projeto que o utilize com mais ambição.
Em matéria do SportNavo, os dados mostram que a Escócia não passou da fase de grupos em nenhuma das oito participações anteriores em Copas do Mundo — incluindo as edições de 1974, 1978, 1982, 1986 e 1990, quando chegou a cinco torneios consecutivos. Superar essa barreira histórica será o verdadeiro teste para o técnico que vier. A Federação Escocesa tem até agosto para confirmar o nome do substituto, antes da retomada das competições internacionais.










