A última vez que um modelo estatístico sério colocou o Brasil fora do grupo das cinco maiores favoritas a uma Copa do Mundo foi em 2010, quando a equipe de Dunga chegou ao torneio com campanha irregular nas Eliminatórias e acabou eliminada pela Holanda nas quartas de final. Dezesseis anos depois, um estudo desenvolvido por alunos da Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getulio Vargas (FGV) repete o alerta: a Seleção Brasileira ocupa apenas a nona posição nas projeções de chances de título, com 4,68% de probabilidade, atrás de seleções como Colômbia, Marrocos e Portugal.
O que a metodologia da FGV mede e o que ela deliberadamente ignora
O modelo foi construído a partir de 2.997 partidas disputadas por 187 seleções ao longo dos últimos quatro anos, segundo o professor Moacyr Alvim Silva, coordenador do projeto. A lógica central é simples: o sistema pondera o desempenho recente das equipes para estimar probabilidades de classificação e título em cada fase do torneio. Não há peso extra para tradição, número de títulos mundiais ou torcida. O pentacampeonato brasileiro não vale um único ponto na equação.
"Nosso modelo é bastante competitivo. Em edições anteriores da Copa, conseguimos vencer um bolão de estatísticos, superando grupos que utilizavam modelos muito mais sofisticados", disse o professor Moacyr Alvim Silva.
Isso explica o número. A Copa do Mundo de 2026 começa com a Espanha na liderança das projeções da FGV, com 15,57%. Argentina aparece em segundo com 13,62%, seguida pela Inglaterra com 9,24%. O Brasil, com 4,68%, fica numericamente próximo de seleções que, nos últimos quatro anos, construíram campanhas mais consistentes nas Eliminatórias e em torneios continentais — exatamente o recorte temporal que o algoritmo prioriza.
Por que Colômbia e Marrocos aparecem acima do Brasil no ranking
A Colômbia chegou à final da Copa América de 2024, perdendo apenas nos pênaltis para a Argentina após uma campanha invicta que incluiu vitória sobre o Uruguai nas semifinais. Marrocos, por sua vez, foi semifinalista da Copa do Mundo de 2022 no Catar — a melhor campanha da história de uma seleção africana — e manteve o núcleo daquele elenco praticamente intacto. Esses resultados recentes alimentam diretamente o banco de dados da FGV com partidas de alto nível e desfechos favoráveis, o que eleva as probabilidades calculadas pelo modelo.
O Brasil, no mesmo período, oscilou nas Eliminatórias Sul-Americanas, trocou de técnico mais de uma vez antes da chegada de Carlo Ancelotti e chegou ao torneio sem uma identidade tática consolidada em quatro anos. O mestrando Ezequiel de Braga Santos, integrante do projeto, foi direto ao reconhecer os limites do instrumento:
"O modelo devolve probabilidades, e não certezas absolutas. Afinal, futebol é uma das áreas mais difíceis de prever porque existem muitas variáveis envolvidas", afirmou Ezequiel de Braga Santos.
Traduzindo: o algoritmo captura o que aconteceu no campo, não o potencial individual de um elenco com jogadores como Vinícius Júnior, Rodrygo e Raphinha atuando nas melhores ligas europeias. É como medir a força de um temporal pela quantidade de chuva dos últimos dias — os trovões que estão por vir não aparecem no gráfico.
O que os números não enxergam na Granja Comary
Enquanto a FGV processa dados históricos, a CBF trabalha o lado emocional da preparação. A entidade pintou as ruas que dão acesso ao centro de treinamento em Teresópolis com as cores verde e amarela e estampou no asfalto a frase que resume a campanha oficial lançada para a Copa: "Traz a torcida que a gente traz o resto". A iniciativa integra o projeto "Bate no Peito", criado para aproximar jogadores e torcedores nos dias finais antes da viagem ao torneio.
Ancelotti usa os últimos treinos na Granja Comary para ajustes táticos antes do amistoso de despedida contra o Panamá, marcado para domingo, 31 de maio, às 18h30, no Maracanã. O jogo serve como termômetro final antes da estreia no Mundial e será o último contato da equipe com a torcida brasileira em solo nacional.
O que a história diz sobre modelos que subestimaram o Brasil
Não é a primeira vez que projeções estatísticas colocam a Seleção em posição desconfortável antes de um Mundial. Em 2002, o Brasil chegou à Copa da Coreia e do Japão após uma campanha nas Eliminatórias que deixou a equipe na beira do precipício — em determinado momento, a Seleção estava fora da zona de classificação. Os modelos da época não apostavam no hexacampeonato. O time de Luiz Felipe Scolari levantou a taça sem perder uma partida sequer.
A diferença estrutural entre aquele Brasil e o atual está justamente no que os algoritmos capturam. Em 2002, o desempenho recente era fraco mas o elenco tinha Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo no auge. Em 2026, o elenco tem qualidade individual inquestionável, mas o desempenho coletivo nos últimos quatro anos não gerou os resultados que alimentariam um ranking mais favorável na FGV. O modelo é honesto com o que mede:
- Espanha lidera com 15,57% — campeã da Euro 2024 e com geração consolidada
- Argentina aparece com 13,62% — atual campeã mundial, dois títulos consecutivos em Copas América
- Inglaterra registra 9,24% — vice da Euro 2024, elenco jovem e em ascensão
- Brasil figura com 4,68% — oscilações nas Eliminatórias pesam mais do que o pedigree histórico
O amistoso contra o Panamá no domingo não vai mover um décimo de ponto percentual nos cálculos da FGV — a partida não entra no banco de dados do modelo. Mas vai mostrar se Ancelotti encontrou o equilíbrio tático que os últimos quatro anos não produziram. Se a resposta for sim, os 4,68% de probabilidade estatística podem virar o número menos relevante da Copa do Mundo de 2026.









