É um relógio suíço com pavio curto.

A imagem serve bem para descrever o modelo econômico da Copa do Mundo de 2026: uma máquina de precisão construída para gerar receita recorde, mas com uma tensão interna que pode explodir assim que o apito final soar em julho. A Fifa anuncia, com o entusiasmo de quem abriu um cofre, faturamento sem precedentes nesta edição inaugural com 48 seleções. O que a entidade não anuncia com o mesmo volume de voz é quanto desse bolo vai, de fato, chegar às mãos das cidades que cederam seus estádios, sua infraestrutura e sua rotina por um mês inteiro.

O faturamento recorde que a Fifa exibe como troféu

Quando Gianni Infantino assumiu a presidência da Fifa em 2016, uma das primeiras promessas foi expandir a Copa para 48 seleções a partir de 2026. O argumento era claro: mais jogos, mais mercados, mais receita para redistribuir ao futebol mundial. A lógica não é nova — a UEFA usou raciocínio parecido quando ampliou a Champions League de 16 para 32 clubes em 1999, turbinando os direitos de TV de forma que, naquele primeiro ciclo, a receita da competição triplicou em quatro anos. Com a Copa, o salto é estruturalmente similar, mas a escala é planetária.

A edição de 2022, no Qatar, gerou aproximadamente US$ 7,5 bilhões em receita total para a Fifa. Com 16 jogos a mais no calendário — a ampliação de 64 para 104 partidas — e três países-sede (Estados Unidos, Canadá e México) que somam mercados publicitários entre os cinco maiores do planeta, as projeções internas apontam para números bem acima desse patamar. Direitos de transmissão, patrocínios e licenciamentos formam o tripé dessa receita, e os americanos — que nunca sediaram uma Copa na era digital madura — representam um território virgem para marcas globais.

O faturamento recorde que a Fifa exibe como troféu Como a Fifa divide bilhões da
O faturamento recorde que a Fifa exibe como troféu Como a Fifa divide bilhões da
"A Fifa se vangloria do faturamento sem precedentes nesta primeira Copa do Mundo com 48 seleções", registrou a Folha de S.Paulo, sublinhando que o tom da entidade é de celebração — enquanto o retorno para países participantes e cidades-sede segue "muito mais incerto".

O caminho tortuoso do dinheiro até quem recebeu a festa

Quem acompanhou a Copa de 1994, também nos Estados Unidos, lembra que o torneio foi um sucesso comercial retumbante — mas as cidades-sede, de Los Angeles a Detroit, investiram pesado em segurança, logística e adequação de estádios sem garantia de retorno direto da Fifa. Trinta e dois anos depois, o mecanismo mudou pouco. A entidade repassa às confederações e federações nacionais uma fatia da receita via o chamado programa de benefícios, mas as cidades-sede negociam separadamente com os comitês organizadores locais, e essa cadeia tem perdas consideráveis ao longo do caminho.

Para se ter uma referência histórica: na Copa de 2014, no Brasil, a Fifa distribuiu cerca de US$ 576 milhões em premiações às seleções participantes — um valor que parece generoso até você comparar com os mais de R$ 7 bilhões que o governo federal brasileiro injetou em infraestrutura e garantias. Cidades como Manaus e Cuiabá construíram ou reformaram estádios que, passada a Copa, viraram elefantes brancos com custos de manutenção que consomem orçamentos municipais até hoje. O padrão se repetiu no Qatar, onde a discussão sobre o legado das arenas climatizadas ainda não tem resposta definitiva.

A edição de 2026 tem uma diferença geográfica relevante: os três países-sede já possuem infraestrutura consolidada — o MetLife Stadium, em Nova Jersey, recebe a final sem precisar de uma reforma estrutural, e o Estadio Azteca, no México, é o único estádio a sediar finais de Copa em três edições diferentes (1970, 1986 e agora 2026). Mas "infraestrutura consolidada" não significa "custos zero". Seattle, Dallas e Boston, entre outras cidades americanas, investiram dezenas de milhões de dólares em adequações de segurança, transporte e hospitalidade exigidas pela Fifa como contrapartida para receber os jogos.

A assimetria que não aparece nos comunicados oficiais

Existe um paralelo que me ocorre sempre que analiso esses ciclos econômicos: o da Bundesliga nos anos 90. Quando a liga alemã modernizou seus estádios após a Copa de 1974 — e depois de novo para 2006 —, o benefício foi estrutural e de longo prazo, porque o modelo de propriedade dos clubes (com a regra dos 50%+1, que garante controle dos sócios) criou um alinhamento de interesses entre entidade, clube e cidade. A Fifa não tem esse alinhamento. Ela entra, organiza, fatura e sai. O que fica para a cidade depende quase exclusivamente de como o poder público local negociou antes de assinar o contrato de sede.

Nas matérias publicadas em matéria do SportNavo ao longo dos últimos meses, o tema do legado econômico das Copas aparece como uma das questões mais debatidas entre economistas do esporte. A conta raramente fecha no curto prazo. O turismo gera receita, o comércio local se aquece durante o torneio, hotéis esgotam sua capacidade — mas os investimentos em infraestrutura raramente são amortizados apenas com a Copa. Guadalajara, que recebe quatro jogos nesta edição, investiu em melhorias no Estadio Akron e no sistema de transporte metropolitano, apostando que o retorno virá na forma de eventos futuros atraídos pela visibilidade global.

O problema estrutural — que a Fifa nunca coloca no comunicado de faturamento recorde — é que a entidade captura a maior parte do valor gerado pelo torneio via direitos de TV e patrocínios globais, enquanto os custos de operação são majoritariamente suportados pelas cidades e governos locais. Com 104 jogos espalhados por 16 cidades em três países, essa dispersão geográfica amplia tanto a receita da Fifa quanto a fragmentação dos custos locais, tornando ainda mais difícil medir quem ganhou e quem subsidiou o espetáculo.

A Copa começa em 11 de junho e a final acontece em 19 de julho, no MetLife Stadium. Quando o último apito soar, a Fifa já terá seus números consolidados. As cidades-sede terão os deles apenas quando as contas de luz dos estádios vazios chegarem em agosto.