Sábado, meia-noite no horário de Brasília. Em Vancouver, o BC Place vai receber um jogo que a Bélgica jamais imaginou disputar sob essa pressão — um duelo de vida ou morte contra a Nova Zelândia, seleção que sequer figurava entre as ameaças do Grupo G quando os sorteios foram feitos. Não é a final que os belgas ensaiaram. E o roteiro que chegou até aqui é mais complexo do que a narrativa simples de 'decepção' que circula nas redes sociais.
A narrativa do fracasso que precisa ser revisada
O senso comum diz que a Bélgica entrou na Copa do Mundo de 2026 como potência e desmoronou. Mas os números contam uma história mais precisa: a seleção belga não perdeu suas duas primeiras partidas — empatou as duas. Pontos na tabela, zero vitórias. A diferença é pequena no resultado, mas enorme no diagnóstico. Não houve colapso tático abrupto. Houve algo mais insidioso: uma seleção que chegou ao torneio com o corpo do elenco de 2018 e 2022, mas sem o mesmo nível de explosão coletiva que um dia justificou o apelido de geração de ouro.
Kevin De Bruyne completou 34 anos em junho. Romelu Lukaku joga na Napoli e carrega no currículo mais de 90 gols pela seleção, mas seu futebol de 2026 não é o mesmo de quando aterrizava em Moscou com a camisa vermelha e a certeza de marcar. Dries Mertens se despediu. Axel Witsel pendurou as chuteiras na seleção. O que ficou foi uma transição incompleta — jogadores veteranos que ainda tentam sustentar o peso de uma identidade construída há quase uma década.
"Temos qualidade para vencer qualquer adversário neste grupo. Mas precisamos mostrar isso dentro de campo, não em entrevista", disse De Bruyne após o segundo empate, com a voz de quem carrega o time nas costas há anos.
O que os dados revelam sobre a Bélgica em 2026
Dois empates em dois jogos. Nenhum gol marcado nos últimos 45 minutos de partida. Seria injusto chamar de colapso geracional — mas é uma transição em câmera lenta que chegou à data errada. A Bélgica terminou a fase de grupos da Copa de 2022 no Qatar em terceiro lugar, eliminada nas oitavas de final pelo Marrocos. Em 2026, a ameaça de nem chegar às oitavas é real e palpável.
O técnico Domenico Tedesco, que assumiu a seleção em 2023, trabalhou durante dois anos para equilibrar a saída dos veteranos com a chegada de nomes como Lois Openda, do RB Leipzig, e Johan Bakayoko, do PSV. Mas o torneio não esperou o processo amadurecer. Openda jogou os dois primeiros jogos abaixo do esperado. Bakayoko entrou como substituto e não conseguiu criar desequilíbrio consistente. O time que em teoria tinha velocidade pelas pontas acabou dependendo da criatividade de um De Bruyne que joga há mais tempo no centro do campo do que na beira da grande área.
"A Nova Zelândia vai pressionar alto. Precisamos de paciência com a bola e agressividade nas transições", afirmou Tedesco na coletiva pré-jogo, reconhecendo que o modelo ofensivo precisa ser ajustado para o jogo decisivo.
O que a Bélgica precisa fazer contra a Nova Zelândia
A Nova Zelândia não é a mesma seleção de 2010, quando surpreendeu o mundo ao empatar todos os três jogos da fase de grupos na África do Sul. A seleção da Oceania chegou à Copa de 2026 com organização defensiva sólida e velocidade nos contra-ataques. Não é um adversário que se vence por pressão de nome. A Bélgica precisará criar superioridade numérica no meio-campo e usar a experiência de De Bruyne para ditar o ritmo da partida desde os primeiros minutos.
Tedesco tem três opções táticas sobre a mesa: manter o 4-3-3 que não funcionou, migrar para um 4-4-2 com dois centroavantes — algo que colocaria Lukaku em campo com Openda — ou arriscar um 3-5-2 que dá mais proteção defensiva e libera os alas para chegadas. Cada escolha carrega risco. Um empate já elimina os belgas se a outra partida do grupo não favorecer. A Bélgica, em síntese, não tem opção que não seja vencer.
O drama de Vancouver tem hora marcada. A partida entre Bélgica e Nova Zelândia começa à meia-noite de sábado pelo horário de Brasília, no BC Place. Uma vitória belga mantém viva a possibilidade de classificação — dependendo do resultado paralelo no Grupo G. Uma derrota ou empate encerra em Vancouver o ciclo de uma geração que prometeu uma taça e entrega, por ora, apenas histórias inacabadas.










