Se a Holanda entrasse em campo amanhã na Copa do Mundo, o técnico Ronald Koeman teria um problema sério nas mãos — e não seria de ordem tática, mas de efetividade pura. Nesta quarta-feira, 3 de junho, no estádio De Kuip, em Roterdã, a Laranja Mecânica controlou a bola, avançou com frequência e terminou a partida sem uma única finalização que realmente ameaçasse o goleiro argelino Zidane. A Argélia, mais fria e objetiva, venceu por 1 a 0 com gol de Anis Hadj Moussa aos 86 minutos.

A resolução é imediata: a Holanda não está pronta. Mas o diagnóstico exige mais contexto histórico do que um simples amistoso pré-Copa costuma receber.

A síndrome do domínio estéril que assombra a Laranja desde os anos 90

Quem acompanhou a Holanda de Guus Hiddink na Copa de 1998 lembra bem da sensação. A equipe com Bergkamp, Overmars e os irmãos De Boer chegou às semifinais com um futebol de posse elegante, mas esbarrou em Ronaldo e numa finalização irregular que custou a vaga na decisão. Quatro anos antes, em 1994, a geração de Gullit e Van Basten já havia se despedido — e o que veio depois foi exatamente esse padrão que se repete agora: seleções holandesas que dominam o jogo sem dominar o placar. A derrota desta quarta-feira para a Argélia não é um acidente isolado; é um sintoma recorrente.

Contra os argelinos, escalados com Mahrez, Aouar e Amoura no setor ofensivo, a Holanda apresentou uma linha de meio-campo com De Jong, Reijnders e Gravenberg que circulou a bola com fluidez, mas raramente chegou com profundidade. Gakpo e Malen, os dois centroavantes da rotação de Koeman, ficaram invisíveis durante longos períodos. A Argélia, por sua vez, apostou num bloco baixo compacto e esperou o momento certo para atacar — uma estratégia que lembra, curiosamente, a que a própria Holanda usou para eliminar a Espanha por 5 a 1 na Copa de 2014, explorando os espaços deixados pela posse adversária.

O gol que a Argélia soube construir quando a Holanda não soube evitar

Aos 29 minutos do segundo tempo, a Argélia já sinalizava perigo. Moussa tocou curto numa cobrança de falta na entrada da área, Chaïbi finalizou para fora, mas o lance revelou a vulnerabilidade da defesa holandesa em transições rápidas. Van Dijk e Van de Ven, individualmente, são dois dos melhores zagueiros do mundo — o primeiro no Liverpool, o segundo no Tottenham — mas a dupla ainda não demonstrou entrosamento suficiente para cobrir os espaços laterais quando o bloco defensivo se abre.

O gol saiu aos 40 minutos da etapa final, o 86º do jogo. Hadj Moussa avançou pela direita, entrou na área e finalizou com o pé esquerdo de boa distância, sem que nenhum marcador holandês conseguisse fechar o ângulo. Um zurdazo preciso que fechou o placar e deixou o De Kuip em silêncio.

A síndrome do domínio estéril que assombra a Laranja desde os anos 90 Como a Hol
A síndrome do domínio estéril que assombra a Laranja desde os anos 90 Como a Hol
"A Argélia foi eficiente onde a Holanda não foi", resumiu a cobertura do portal RPP, que acompanhou o jogo em tempo real e destacou a contundência argelina como fator decisivo num duelo de equilíbrio técnico.

Memphis Depay em campo, mas a questão vai além do artilheiro histórico

Memphis Depay, maior artilheiro da história da seleção holandesa, entrou no segundo tempo após se recuperar de uma lesão muscular de grau 2 na coxa direita. Jogou aproximadamente 45 minutos, mas passou em branco. A presença do atacante do Corinthians foi simbólica — um sinal de que Koeman quer tê-lo disponível para o Mundial — mas o desempenho coletivo ao redor dele foi insuficiente para criar as condições que Memphis precisa para ser decisivo.

Há um paralelo interessante aqui com a Copa de 2014, quando Arjen Robben entrou como referência individual numa equipe que funcionava bem coletivamente. Memphis, aos 32 anos, não é mais o jogador explosivo que encantou no PSV e no Barcelona entre 2015 e 2019. Ele precisa de apoio estrutural — passes entre linhas, movimentação dos meias, pressão alta que libere espaço — e nada disso apareceu contra a Argélia. Conforme registrado pelo SportNavo em cobertura anterior, Memphis chegou à Copa com 60 dias de silêncio competitivo, e este amistoso confirmou que o retorno ainda está em construção.

"Queria ter feito mais", disse Memphis, segundo relatos da imprensa holandesa após o apito final — uma frase curta que resume bem o estado de um jogador que ainda busca ritmo de jogo.

O que esperar da Holanda no Grupo F da Copa do Mundo

A Holanda está no Grupo F ao lado de Japão, Suécia e Tunísia. No papel, é um grupo administrável para uma seleção com o elenco holandês — Van Dijk, De Jong, Gakpo, Reijnders e Xavi Simons formam um conjunto de alto nível europeu. Mas amistosos têm uma função diagnóstica que os resultados finais às vezes escondem, e o diagnóstico desta quarta-feira foi claro: a equipe precisa de mais precisão nas últimas ações ofensivas antes de enfrentar adversários que saibam explorar contra-ataques com a velocidade do Japão ou a organização da Suécia.

Koeman ainda tem um amistoso pela frente — contra a Escócia, na próxima segunda-feira — para ajustar o que for possível ajustar em sete dias. A Argélia, por sua vez, encerra sua preparação aqui e estreia no Mundial no dia 16 de junho, contra a Argentina, pelo Grupo J, ao lado de Jordânia e Áustria. Para os argelinos, vencer a Holanda no De Kuip é exatamente o tipo de resultado que constrói confiança antes de um confronto contra Messi e companhia.

No vestiário do De Kuip, depois do apito final, Van Dijk saiu em silêncio. Ao fundo, os torcedores holandeses ainda tentavam entender como uma equipe com tanta bola havia perdido para uma seleção que mal a tocou.