A ligação chegou tarde. Quando Edu Gaspar discou para Jorginho em 2016, o meia já havia tomado a decisão mais importante da sua carreira de seleções — e não havia nada que a Confederação Brasileira de Futebol pudesse fazer para desfazê-la. O destino já estava traçado em azul e preto, as cores da Azzurra, não em verde e amarelo.
O sonho amarelo que a Itália transformou em realidade azul
Nascido em Imbituba, litoral catarinense, em 20 de dezembro de 1991, Jorge Luiz Frello Filho partiu para a Europa ainda jovem e encontrou no futebol italiano não apenas um emprego, mas uma identidade. Em 2010, com apenas 18 anos, ingressou nas categorias de base do Hellas Verona. Passou pelo modesto Sambonifacese e foi no Napoli, entre 2014 e 2018, que se revelou ao mundo: parceiro de Lorenzo Insigne e Dries Mertens, tornou-se o metrônomo do meio-campo napolitano sob o comando de Maurizio Sarri, o técnico que depois o levaria ao Chelsea.
Em entrevista ao SBT, Jorginho descreveu com precisão o conflito interno que viveu naquele período:
"Quando você tem o sonho de jogar futebol, você imagina a 'Amarelinha'. Não tem como ser diferente. Mas, primeiro, eu via a Seleção Brasileira como algo muito distante. Depois, comecei na Itália. Foi um país que me acolheu, me abraçou e abriu as portas para eu realizar o sonho."
Há uma dimensão histórica nessa confissão que merece atenção. A Itália não foi a primeira nação europeia a naturalizar um brasileiro para reforçar sua seleção — basta lembrar de Marcos Senna, que defendeu a Espanha na Eurocopa de 2008 e foi peça central no título, ou de Eduardo, que optou por Croácia. Mas o caso de Jorginho é singular: ele não foi recrutado como tapa-buraco. A Azzurra o convocou porque enxergou nele uma solução tática genuína, o pivô fixo que o futebol italiano havia perdido desde os tempos de Gennaro Gattuso e Andrea Pirlo.
O telefonema de Edu Gaspar e o momento em que a CBF chegou atrasada
Em março de 2016, Jorginho estreou pela Itália principal. A convocação veio como confirmação de um processo construído ao longo de anos no calcio. Foi exatamente nesse instante que o telefone tocou — do lado de cá do oceano.
"Depois, quando chega a convocação para a Seleção Italiana principal, recebi uma ligação do Edu Gaspar. Por mais que eu não visse a Seleção Brasileira como uma opção, quando chega a ligação e você para para pensar, isso balança. Naquele momento, a Itália precisava da minha ajuda. Fiz essa escolha por gratidão mesmo. Não me arrependo dessa decisão e tenho o coração em paz."
Edu Gaspar era, à época, coordenador de seleções da CBF, antes de seguir carreira como diretor esportivo no Arsenal. O contato foi real, mas chegou num momento em que a balança já pendia com toda a força para o lado italiano. A CBF tentou, reconheceu o talento — mas reconheceu tarde. Nos bastidores do futebol brasileiro, esse tipo de situação já aconteceu antes: Thiago Motta, formado nas categorias de base do Palmeiras, optou pela Itália em 2011 após anos de indefinição e chegou a disputar a Copa do Mundo de 2014 pela Azzurra. A diferença é que Motta nunca foi procurado de forma oficial pela CBF. Jorginho foi — e mesmo assim disse não.
O levantamento que o SportNavo fez sobre brasileiros naturalizados que optaram por outras seleções revela um padrão consistente: em quase todos os casos, a CBF só se movimentou quando a escolha já estava feita. A estrutura de captação de talentos da confederação nunca priorizou monitorar brasileiros que emigravam jovens para a Europa, lacuna que persiste até hoje.
Cinquenta e sete jogos pela Azzurra e o peso de uma Eurocopa em Wembley
A escolha de Jorginho não foi sentimental apenas — foi tecnicamente justificada pelos números. Em 57 partidas pela Itália, o meia marcou cinco gols e construiu uma carreira de seleção que poucos brasileiros naturalizados em outras nações podem igualar. O ponto mais alto veio em 11 de julho de 2021, quando a Itália derrotou a Inglaterra nas penalidades máximas, em pleno Estádio de Wembley, conquistando a Eurocopa. Jorginho cobrou pênaltis decisivos na competição — uma frieza que remete à tradição italiana de volantes que pensam mais rápido do que correm.
Para efeito de comparação histórica: a última vez que um jogador formado no Brasil ergueu um troféu equivalente em termos de prestígio europeu foi Marcos Senna, com a Espanha na Eurocopa de 2008. Antes dele, seria necessário recuar até os anos 1950 para encontrar exemplos de brasileiros que ajudaram outras seleções a conquistar títulos de porte similar. Jorginho está nessa lista exclusiva.
Aos 34 anos, o meia retornou ao Brasil em 2025 para defender o Flamengo, encerrando um ciclo europeu que incluiu ainda o Chelsea — onde conviveu com figuras como Mason Mount e Reece James — e o Arsenal, onde atuou na temporada 2022/2023. No Rubro-Negro, ele é o pulmão do meio-campo, distribuindo o jogo com a mesma cadência que aprendeu nos treinos de Sarri em Nápoles.
A decisão de 2016 moldou duas trajetórias ao mesmo tempo: a da Itália, que encontrou nele o regista que precisava para chegar ao título europeu cinco anos depois, e a do Brasil, que seguiu buscando uma solução para a mesma posição ao longo de quase uma década — de Paulinho a Casemiro, passando por Lucas Lima e Fabinho — sem nunca ter a resposta definitiva que Jorginho daria de graça, se a CBF tivesse chegado antes.
Quem quiser ver Jorginho em ação com a camisa do Flamengo tem oportunidade já neste fim de semana, com o Rubro-Negro em campo pelo Brasileirão 2026 — partida que pode dar mais pistas sobre qual versão do meia o torcedor vai encontrar na Gávea ao longo desta temporada.









