O Ullevaal Stadion estava lotado — 28 mil torcedores noruegueses, temperatura baixa e o cheiro de rivalidade escandinava no ar — quando a Suécia entrou em campo sem o homem que marcou 43 gols pelo Sporting na temporada 2025/2026. Viktor Gyökeres não estava disponível: a final da Champions League tomou prioridade, e Graham Potter precisou, pela primeira vez em meses, montar um ataque sem seu principal artilheiro. O que se viu no gramado norueguês foi um experimento tático com prazo de validade curto — a Copa do Mundo começa em junho.
O vazio que Gyökeres deixa no vestiário sueco
Quando uma seleção perde seu artilheiro para uma final europeia, a ausência não é apenas numérica — ela remodela a estrutura de confiança do grupo. Potter convocou Alexander Isak, do Newcastle, como referência central, flanqueado por Anthony Elanga e Gustaf Nilsson num esquema 3-5-2. A formação revelou uma Suécia que tenta compensar com volume de movimentação o que não pode replicar em termos de finalização individual: Gyökeres terminou a Série A portuguesa como artilheiro isolado, com uma média que nenhum outro sueco no elenco atual chega perto de reproduzir.
Nos bastidores da seleção sueca, a semana de treinos em Estocolmo antes do voo para Oslo foi descrita por membros da comissão técnica como intensa e focada em transições rápidas. Potter, que construiu sua reputação no Chelsea e no Brighton pela adaptabilidade tática, apostou na mobilidade de Lucas Bergvall e Yasin Ayari para criar linhas de passe entre o meio e o ataque — uma tentativa de distribuir a responsabilidade ofensiva que antes recaía quase exclusivamente sobre Gyökeres.
"Temos jogadores de qualidade suficiente para jogar de formas diferentes. Não dependemos de um único nome", disse Graham Potter em entrevista coletiva antes do amistoso em Oslo.
A declaração é corajosa. Os números, porém, colocam pressão sobre ela: a Suécia chegou ao amistoso desta segunda-feira, 1º de junho, com nove partidas consecutivas sofrendo gols — uma sequência que atravessou tanto jogos das Eliminatórias quanto amistosos de preparação. Nenhum esquema tático resolve fragilidade defensiva com discurso.
O que o amistoso em Oslo revelou sobre o ataque reformulado
A Noruega escalou um 4-4-2 com Erling Haaland e Jørgen Strand Larsen na frente — um dueto que, por si só, já representa um teste de nível Copa do Mundo para qualquer zaga europeia. A Suécia respondeu com Isak Hien e Gustaf Lagerbielke como pilares defensivos num bloco de três, com Eric Smith completando a linha. O modelo de cinco defensores deu maior proteção ao setor de trás, mas comprimiu os espaços para os atacantes suecos operarem.
O ataque sueco funcionou como um temporal sem trovão: havia movimentação, havia pressão nos corredores, mas faltou a descarga elétrica — o chute que para goleiros. As estatísticas do primeiro tempo registraram apenas 1 chute ao gol sueco contra 2 da Noruega, com a seleção anfitriã dominando com 7 finalizações totais contra apenas 1 dos visitantes. Isak, que marcou 23 gols pelo Newcastle na Premier League 2025/2026, ficou isolado sem receber bolas em condições favoráveis — sintoma direto da ausência de Gyökeres como segundo referencial ofensivo.
"Alexander [Isak] precisa de parceiros que pressionem a defesa adversária. Quando ele está sozinho lá na frente, fica mais fácil para os zagueiros marcarem", analisou um membro da comissão técnica sueca, segundo fontes próximas ao grupo.
A Noruega, por sua vez, chegou ao amistoso numa fase oposta: oito vitórias em oito jogos nas Eliminatórias, classificação direta para o Mundial, e apenas uma derrota nos últimos 14 compromissos. O Ranking FIFA reflete essa diferença — os noruegueses ocupam a 31ª posição, contra a 38ª da Suécia. Haaland e Sørloth formaram uma dupla que testou sistematicamente a linha defensiva sueca, com 15 toques na área rival no primeiro tempo.
A mesa de decisão de Potter antes da Copa do Mundo
Gyökeres deve se reapresentar à seleção sueca após a final da Champions League, e Potter terá pouquíssimo tempo para reintegrar seu artilheiro ao esquema. A questão que o técnico britânico precisa resolver não é apenas quem joga na ausência do centroavante — é como a equipe funciona com ele depois de semanas testando alternativas. Reorganizar um ataque que girou em torno de um único jogador em tempo de Copa exige precisão cirúrgica.
Os três amistosos recentes vencidos pela Suécia deram confiança ao grupo, mas a sequência de nove jogos seguidos sofrendo gols expõe uma vulnerabilidade que adversários no Mundial certamente vão explorar. A Suécia garantiu sua vaga no torneio pela repescagem — não pela fase classificatória direta —, o que já indica que o caminho foi mais acidentado do que o ideal. Potter tem consciência disso: o esquema 3-5-2 testado em Oslo é uma das variações táticas que ele mantém no repertório justamente para jogos em que a posse adversária é superior.
O histórico recente entre Noruega e Suécia também pesa: nos últimos seis confrontos diretos, a Noruega soma duas vitórias e quatro empates, sem nenhuma derrota para os suecos. Três dos últimos quatro jogos entre as seleções tiveram mais de 2,5 gols — dado que Potter certamente analisou antes de montar sua escalação defensiva em Oslo.
A Suécia estreia na Copa do Mundo 2026 em 17 de junho. Até lá, Potter tem dias contados para decidir se Gyökeres volta ao time como titular imediato ou se o esquema construído sem ele nas últimas semanas merece continuidade — e essa resposta vai definir o que a seleção sueca realmente é neste Mundial.










