Diz-se que a Argentina depende tanto de Lionel Messi que qualquer ausência do camisa 10 desestabiliza o sistema inteiro. Na Copa do Mundo 2026, esse argumento começa a ruir — e o nome do responsável por isso é Thiago Almada. Com ou sem Messi em campo, Scaloni mantém Almada no onze inicial. Essa estabilidade não é detalhe tático; é um indicador de que a seleção argentina encontrou, enfim, um jogador capaz de operar no corredor esquerdo com autonomia suficiente para não ser apenas um apêndice do astro do Inter Miami.

Seis minutos em 2022 e o peso silencioso de carregar uma camisa

Almada não estava sequer na lista original de Lionel Scaloni para o Catar. A convocação veio por necessidade: a lesão de Joaquín Correa, hoje no Botafogo, abriu uma vaga de última hora para o meia que, à época com 21 anos, atuava no Atlanta United, na MLS. Sua participação no torneio que a Argentina venceu ficou restrita a seis minutos — a vitória por 2 a 0 sobre a Polônia, na fase de grupos. Matematicamente, ele é campeão mundial. Simbolicamente, sabia que precisava construir outro tipo de legitimidade.

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Há uma lógica sociológica nessa trajetória que merece atenção. No futebol de alto rendimento, o pertencimento a um grupo campeão confere capital simbólico imediato, mas também impõe uma cobrança proporcional. Almada carregou o título sem ter contribuído de forma substantiva para ele, e esse fardo invisível moldou os anos seguintes. Ele passou uma temporada inteira à margem da seleção porque a vaga à esquerda tinha dono, e esse dono tinha nome, sobrenome e uma Copa do Mundo de 2014 tatuada na memória coletiva argentina: Ángel Di María.

"Um jogador que herda uma posição de um ídolo não precisa imitá-lo — precisa justificar por que o lugar agora é dele", observou um preparador físico da comissão técnica de uma seleção sul-americana em entrevista a um canal europeu de análise tática, sem citar nomes.

Di María se aposenta e Almada encontra o caminho pelo Brasileirão

A aposentadoria de Di María da seleção argentina ocorreu em 2024, após o título da Copa América. A janela se abriu, mas Almada precisou ainda provar que merecia cruzá-la. O veículo dessa prova foi o Botafogo, e o ano foi 2024 — uma temporada que o clube carioca transformou em lenda ao conquistar simultaneamente o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores. Almada foi um dos pilares técnicos dessa campanha, e o desempenho o colocou definitivamente no radar de Scaloni.

Há uma dimensão econômica relevante nessa história que costuma passar despercebida nas narrativas esportivas convencionais. O Botafogo, sob o modelo de gestão de John Textor, investiu de forma consistente em contratações de alto padrão — Almada foi descrito como a compra mais cara da história do futebol brasileiro no momento de sua chegada. O próprio jogador minimizou o rótulo em sua apresentação: "Não penso nisso de ser a compra mais cara do futebol brasileiro. Trato de mostrar dentro de campo o motivo de terem me comprado." A frase, aparentemente modesta, revela maturidade competitiva: ele entende que o valor de mercado é um argumento que se sustenta apenas enquanto o desempenho o confirma.

Textor, por sua vez, foi direto ao expor o projeto ao jogador durante as negociações: "Quando John me chamou, me disse que queria ganhar a Libertadores, os torneios do Brasil", contou Almada. Essa convergência entre ambição institucional e ambição individual criou as condições para que o meia entregasse exatamente o que a seleção argentina precisava observar para confiar nele.

Almada nas Olimpíadas e o que o camisa 10 clássico representa para a Argentina

Almada é descrito pelos analistas táticos como um camisa 10 clássico que, quando posicionado aberto na ponta esquerda, corta em direção ao centro para finalizar ou armar. Gosta de invadir a área, tem precisão técnica acima da média e uma leitura de jogo que remete ao estilo de armador criativo — diferente do Di María raçudo e vertical, mas complementar ao sistema de Scaloni de uma forma que o treinador levou tempo para reconhecer. A substituição não é uma réplica; é uma evolução do papel.

Ao ser apresentado no Botafogo antes dos Jogos Olímpicos de Paris, Almada deixou clara sua escala de prioridades: "Agora é pensar nos Jogos Olímpicos e depois focar no Botafogo." A declaração, dita com naturalidade, encapsula algo que a sociologia do esporte estuda há décadas — a tensão entre o pertencimento ao clube pagador e o pertencimento à nação. Para Almada, a camiseta da Argentina tem uma carga identitária que precede qualquer contrato.

Na Copa do Mundo 2026, o meia já demonstrou o que significa ter superado essa fase de transição. Titular absoluto no Grupo A, ele disputou os três jogos da fase de grupos — contra Argélia em 16 de junho, Áustria em 22 de junho e Jordânia em 27 de junho — e consolidou sua posição como o jogador que libera Messi de responsabilidades no corredor esquerdo, ampliando as opções ofensivas da equipe. A Argentina avança na Copa carregando, pela primeira vez desde 2018, uma ala esquerda que não depende de um único nome para funcionar. Esse equilíbrio, construído ao longo de dois anos de paciência e desempenho, é o legado mais concreto que Almada já entregou à seleção — antes mesmo de marcar seu primeiro gol no torneio.