O tênis no lugar da chuteira disse tudo. Quando Neymar apareceu no gramado do CT Columbia Park, em Nova Jersey, na manhã de terça-feira (16/06), acompanhado apenas do preparador físico Mino Fulco, o detalhe no pé era um comunicado silencioso: o processo segue controlado, sem atalhos. Nenhum contato com bola. Nenhuma interação com os companheiros. Trotes, embaixadinhas e condução — e só depois, chuteiras. A Copa do Mundo pode ser urgente para o Brasil, mas a panturrilha direita do camisa 10 não recebeu o memorando.
Da pancada no Santos à lesão grau 2 que mudou o roteiro da Seleção
A origem do problema tem data e endereço precisos: 17 de maio, Neo Química Arena, derrota do Santos para o Coritiba por 3 a 0 pelo Campeonato Brasileiro. Na ocasião, o clube paulista classificou a ocorrência como "pancada leve" na panturrilha, descartando qualquer impedimento para jogos futuros. No dia seguinte, Carlo Ancelotti convocou Neymar para o Mundial sem aparente preocupação.
O roteiro mudou em 27 de maio, quando o atacante se apresentou na Granja Comary, em Teresópolis. Novos exames contrariaram o diagnóstico inicial do Santos: havia uma lesão grau 2 na panturrilha, não apenas um edema. O médico da CBF, Rodrigo Lasmar, estabeleceu uma janela de duas a três semanas para retomada das atividades em campo — prazo que se encerrava justamente em 17 de junho, um mês após a última partida oficial do jogador.
"Em mais um passo do seu processo de recuperação física, Neymar treinou hoje no gramado do CT de Columbia Park", comunicou a Confederação Brasileira de Futebol em publicação nas redes sociais na tarde de terça-feira.
Na segunda-feira (15), antes do treino no gramado, Neymar foi submetido a novos exames em uma clínica na região de Nova Jersey. A CBF foi categórica ao afirmar que o teste já estava dentro da programação e não foi motivado por nenhuma intercorrência. Sem problemas adicionais detectados. Mas "sem problemas adicionais" não é o mesmo que "pronto para jogar". Essa distinção importa — e muito.
Ancelotti não arrisca e o Haiti recebe uma Seleção sem o camisa 10
Cauteloso. A palavra foi usada pela comissão técnica em ao menos duas comunicações oficiais desde que Neymar chegou aos Estados Unidos, e ela não é retórica. Ancelotti tem histórico de gestão de lesões musculares no Real Madrid — casos como os de Benzema e Militão ensinaram que lesão grau 2 em músculo posterior de membro inferior exige progressão rigorosa antes de qualquer esforço explosivo em jogo oficial.
O treinamento de terça foi o primeiro em que Neymar esteve ao lado do restante do elenco desde o início da preparação brasileira para o Mundial. Ainda assim, ele não participou dos trabalhos coletivos com bola. A tendência consolidada dentro da comissão técnica aponta para mais uma ausência na sexta-feira (19), quando o Brasil enfrenta o Haiti na Filadélfia, às 21h30 no horário de Brasília, pela segunda rodada do Grupo D.
"A estratégia da comissão é priorizar a recuperação completa do atleta antes de liberá-lo para voltar a atuar em jogos oficiais", conforme registrado pelo SportNavo com base nas comunicações da CBF ao longo da semana.
Decidiu. Ancelotti não vai queimar etapas contra adversário de menor porte quando há jogos eliminatórios à frente. Essa escolha tem lógica esportiva impecável — e também tem um custo imediato, porque o Brasil está pressionado após a estreia.
Empate com Marrocos expõe o Brasil travado e aumenta a conta do Haiti
O 1 a 1 com o Marrocos na estreia, em 13 de junho, em Nova Jersey, deixou o Brasil na segunda posição do grupo com apenas um ponto. Vinicius Jr. e Raphinha foram os nomes mais acionados no ataque, mas a Seleção não criou volume suficiente para transformar presença em gols. Neymar assistiu ao jogo do banco.
Uma lesão grau 2 em panturrilha tem, pela literatura médica esportiva, tempo médio de recuperação entre 10 e 21 dias para retorno ao treinamento físico pleno — e de 21 a 35 dias para competição de alta intensidade. Neymar lesionou-se em 17 de maio. No dia do jogo contra o Haiti, 19 de junho, serão 33 dias desde a última vez que ele disputou uma partida oficial. O prazo está no limite inferior da zona segura para retorno competitivo, não no confortável.
Se o Brasil vencer o Haiti e avançar na fase de grupos, os próximos jogos do Grupo D estão programados para o final de junho. Esse seria o horizonte mais realista para uma estreia de Neymar no Mundial — um cenário em que ele chegaria com, no mínimo, 35 a 40 dias de recuperação e ao menos uma semana de treinos com bola integrados ao grupo. Não há tragédia: há contabilidade.
O Brasil joga na Filadélfia nesta sexta-feira (19), às 21h30 (horário de Brasília), contra o Haiti, com a obrigação de vencer para se manter vivo no grupo. Neymar, segundo tudo indica, estará no banco — e o ataque de Ancelotti precisará encontrar as respostas que faltaram contra Marrocos sem o maior artilheiro da história da Seleção Brasileira.










