A última vez que a Seleção Brasileira entrou em campo para um amistoso pré-Copa sem nenhum dos dois zagueiros titulares foi em junho de 2014, às vésperas do Mundial em casa, quando Luiz Felipe Scolari testou David Luiz e Dante juntos pela primeira vez como dupla de fato. Naquele ciclo, a improvisação virou solução — e a solução durou até o 7 a 1. A história, desta vez, tem contexto diferente, mas o dilema defensivo é o mesmo: Carlo Ancelotti vai a campo no dia 31 de maio, no Maracanã, sem Marquinhos e sem Gabriel Magalhães.
A razão é objetiva. Os dois zagueiros estarão em Budapeste, na Hungria, disputando a final da Liga dos Campeões no dia 30 — Marquinhos pelo Paris Saint-Germain, Gabriel Magalhães pelo Arsenal. A decisão europeia acontece na véspera exata do amistoso brasileiro, tornando a presença de ambos no Rio de Janeiro simplesmente impossível. Gabriel Martinelli, atacante do Arsenal, está na mesma situação e também será ausência no Maracanã.
A janela que a Champions abre na defesa brasileira
O calendário não dá margem. A delegação brasileira viaja para os Estados Unidos no dia 1º de junho, o que significa que o amistoso contra o Panamá é, literalmente, a última chance de Ancelotti testar combinações em solo nacional antes da Copa. Marquinhos e Gabriel Magalhães também perderão o início da concentração na Granja Comary, em Teresópolis, que começa no dia 27 de maio. Serão, portanto, ao menos quatro dias de trabalho coletivo sem a dupla titular.
Para um técnico que valoriza a construção defensiva a partir da linha de quatro — característica do trabalho de Ancelotti tanto no Real Madrid quanto no histórico com o Milan —, a ausência simultânea dos dois zagueiros titulares não é detalhe. Marquinhos, com mais de 90 jogos pela Seleção, é o referencial de liderança na saída de bola. Gabriel Magalhães, revelado pelo futebol brasileiro e consolidado na Premier League, trouxe ao lado do capitão do PSG uma solidez que o Brasil não exibia há anos na fase de grupos das Eliminatórias.
Seria injusto chamar de crise o que é, tecnicamente, uma janela de testes — mas é uma janela que se abre a menos de duas semanas da estreia do Brasil no Mundial contra o Marrocos, em Nova Jersey, no dia 13 de junho.
Os nomes que Ancelotti tem à disposição no Maracanã
O histórico recente do Brasil contra o Panamá oferece algum conforto. Em 2014, no Serra Dourada, em Goiânia, a Seleção goleou os centro-americanos por 4 a 0, com gols de Neymar, Daniel Alves, Hulk e William — partida que também antecedeu uma Copa do Mundo. O Panamá chega a este amistoso de 2026 ocupando a 33ª posição no ranking da Fifa, num grupo L do Mundial ao lado de Inglaterra, Croácia e Gana. Não é adversário que exige o melhor da Seleção para ser batido, mas tampouco é um sparring inofensivo.
A questão central é quem Ancelotti escalará ao lado de quem. Os nomes mais cotados para a zaga no amistoso são Éder Militão, quando disponível, Bremer e Beraldo, jovem zagueiro do PSG que vem ganhando espaço nas convocações. A dupla Bremer-Beraldo seria a combinação mais provável, dado que Militão ainda carrega histórico recente de lesão. Nenhum dos três tem a experiência acumulada de Marquinhos, que disputou as Copas de 2014, 2018 e 2022 com a camisa amarela.
"Gosto muito do Maracanã, é um palco grandioso, que carrega muita história. Temos tudo para fazer uma Copa em alto nível, estamos nos preparando muito bem, os jogadores sentem orgulho em servir à seleção", afirmou Ancelotti ao confirmar o amistoso de despedida.
O presidente da CBF, Samir Xaud, enquadrou o amistoso dentro de uma lógica simbólica e afetiva.
"Eu acho muito simbólico que essa despedida seja num palco tão importante e emblemático. O Maracanã é a casa da seleção brasileira, um estádio conhecido no mundo inteiro e que sempre foi palco de grandes apresentações. Receber o carinho e o apoio dos torcedores vai ser fundamental para o time", declarou o dirigente.
O que o amistoso revela sobre a hierarquia defensiva antes da Copa
Há uma leitura tática que vai além do resultado do dia 31. Ancelotti sabe que, na Copa, a dupla Marquinhos-Gabriel Magalhães volta a ser a primeira opção. A questão é o que acontece se um dos dois sair por lesão ou suspensão durante o torneio. O amistoso contra o Panamá é, nesse sentido, um laboratório de contingência — e o técnico italiano tem consciência disso.
Em Copas do Mundo, a profundidade defensiva já decidiu campanhas inteiras. A Itália de 2006, campeã em Berlim, tinha em Cannavaro e Nesta seus titulares, mas foi a solidez dos reservas que sustentou o título quando lesões apareceram. O Brasil de 2002, com Lúcio e Roque Júnior como dupla central, também dependeu de opções secundárias em momentos pontuais. Ancelotti, que dirigiu o Milan naquele período europeu, conhece essa matemática de cor.
O amistoso contra o Panamá, portanto, carrega mais perguntas do que respostas. Qual zagueiro convence ao lado de Bremer? Beraldo tem maturidade para ser a terceira opção numa Copa? A linha defensiva sem os dois titulares mantém a organização que Ancelotti construiu nas Eliminatórias? Essas respostas precisam aparecer antes do dia 13 de junho, quando o Brasil estreia contra o Marrocos em Nova Jersey — e Marquinhos e Gabriel Magalhães, enfim, estarão disponíveis para retomar seus postos.









