O silêncio tático que tomou conta do primeiro tempo do Maracanã no domingo (31) falou mais alto do que a goleada de 6 a 2 sobre o Panamá. Com Alisson no gol, Wesley, Ibañez, Léo Pereira e Alex Sandro na defesa, e um meio-campo de Casemiro e Bruno Guimarães sem criatividade para ditar o ritmo, o Brasil exibiu um retrato preocupante — e o próprio Carlo Ancelotti reconheceu que a ideia é mudar. A chegada de Marquinhos, Gabriel Magalhães e Martinelli na noite desta segunda-feira (1º) a Nova Jersey, após a final da Champions League disputada no sábado (30), transforma o quebra-cabeça tático em exercício obrigatório: Ancelotti tem até 13 de junho, data da estreia contra Marrocos, para encaixar os três sem desmontar o que funciona.
O time sem o trio e os dois problemas que Ancelotti precisa resolver
No 4-4-2 escalado contra o Panamá, a seleção jogou com Matheus Cunha como ponta pela esquerda, Luiz Henrique pela direita, e Raphinha e Vinícius Júnior como meias-pontas com liberdade de movimentação. O esquema funcionou no placar — seis gols — mas escondeu falhas estruturais que ficaram evidentes especialmente no primeiro tempo. O primeiro problema foi a velocidade excessiva das jogadas: lançamentos e tentativas de contra-ataques sem ninguém capaz de pensar lá atrás e ditar o ritmo. Casemiro ficou entre os zagueiros sem sair para criar, Bruno Guimarães não deu apoio para fazer o jogo rodar, e Wesley e Luiz Henrique ocupavam o mesmo corredor direito ao mesmo tempo. O resultado foi um time de oito jogadores de linha empilhados sem organização posicional clara — e Vinícius Júnior, melhor do primeiro tempo, indo buscar a bola no campo de defesa por falta de opção.
O segundo problema ficou na zaga. Sem Marquinhos e Gabriel Magalhães, titulares absolutos no planejamento de Ancelotti, a dupla Ibañez e Léo Pereira mostrou limitações na saída de bola e na organização defensiva. A comissão técnica já sinalizou que a expectativa é de retorno imediato de ambos os zagueiros aos treinos táticos com bola, o que indica que o time titular da Copa será diferente do que foi visto no Maracanã. A diferença entre o time com e sem Marquinhos e Gabriel é, analiticamente, tão grande quanto a distância entre Recife e Porto Alegre — 3.200 quilômetros de qualidade na construção desde trás.
O que a chegada do trio muda no esquema tático
A reintegração de Marquinhos e Gabriel Magalhães resolve o problema mais urgente: a zaga titular. Os dois formaram dupla consistente nas Eliminatórias e são os nomes mais consolidados na posição dentro da convocação de Ancelotti. Com a linha defensiva recomposta, o técnico ganha liberdade para ajustar o meio-campo — e é aí que a presença de Martinelli entra como variável decisiva.

O atacante do Arsenal, que completou uma temporada 2025/2026 de alto nível na Premier League, oferece uma característica que o Brasil não teve contra o Panamá: profundidade pela esquerda com qualidade de finalização e capacidade de segurar a bola. Sem ele, Matheus Cunha foi obrigado a atuar por dentro, liberando o corredor esquerdo mas tirando o time de uma referência de movimentação. Com Martinelli na ponta, Ancelotti pode manter o 4-4-2 ou migrar para um 4-3-3 com mais presença no meio-campo — exatamente o que faltou no primeiro tempo do amistoso.
"A chave do êxito é talento mais atitude. Talento com zero atitude não ganha. Zero talento com muita atitude, também não ganha. Com a combinação entre talento e atitude pode ganhar", afirmou Ancelotti em entrevista anterior ao torneio.
O técnico já havia indicado, antes do embarque, que a ideia era mudar não apenas os jogadores, mas também o sistema tático. A frase ganhou peso depois do que foi visto contra o Panamá: "A ideia que tenho é mudar um pouco, não só os jogadores", declarou o italiano, sem detalhar qual esquema pretende adotar na Copa.
Martinelli como peça de encaixe ou como dilema de posição
O maior desafio de Ancelotti não é colocar Marquinhos e Gabriel Magalhães — eles voltam direto para a zaga. O problema real é Martinelli. No Arsenal na temporada 2025/2026, o atacante de 23 anos atuou predominantemente como ponta esquerda em um sistema de três atacantes. Na seleção, esse corredor é ocupado por Vinícius Júnior, peça inegociável no esquema. Colocar os dois juntos exige ou uma mudança de posição de um deles, ou um sistema com dois atacantes pela esquerda em momentos alternados.
Uma solução possível seria Martinelli como segundo atacante no 4-4-2, ao lado de Vinícius Júnior ou Rodrygo, com Raphinha e Luiz Henrique nas pontas. Outra opção seria um 4-2-3-1 com Martinelli como meia-atacante pela esquerda, liberando Vini Jr para o centro do ataque — posição em que o camisa 7 do Real Madrid se destacou em momentos da temporada europeia. As duas alternativas têm implicações diretas sobre quem sai: Matheus Cunha, que foi bem no segundo tempo contra o Panamá depois da entrada de Paquetá, ou Luiz Henrique, que compartilhou espaço com Wesley no corredor direito sem resolver o problema de posicionamento.
"A ideia que tenho é mudar um pouco, não só os jogadores. Agora estamos treinando, analisando o cansaço dos jogadores", disse Ancelotti antes do embarque para os Estados Unidos.
O cronograma até a estreia contra Marrocos em 13 de junho
O trio desembarcou em Nova Jersey na noite de segunda-feira (1º) e o encontro com os demais companheiros estava agendado para as 10h30 desta terça-feira (2), no Hotel The Ridge, em Basking Ridge, Nova Jersey. O primeiro treino oficial em solo norte-americano aconteceu no fim do dia, a partir das 17h (horário de Brasília), no CT do Red Bull, conforme registrado pelo SportNavo e confirmado pela CBF. A delegação principal havia decolado do Aeroporto Internacional do Galeão às 23h02 de segunda-feira, em um Boeing 767-300ER da Aeronexus com adesivagem da Azul, parceira da CBF na operação logística.
Ancelotti terá o amistoso contra o Egito, marcado para sábado (6) em Cleveland, como único teste antes da estreia oficial. A partida serve para dar ritmo de jogo ao trio vindo da final europeia e para consolidar a estratégia defensiva com a zaga titular. O Brasil enfrenta Marrocos em 13 de junho, em Nova York, depois mede forças com o Haiti em 19 de junho e encerra a fase de grupos contra a Escócia — todos pelo Grupo C. O amistoso contra o Egito é o último laboratório disponível — e Ancelotti já sinalizou que não vai desperdiçá-lo.










