Sobrou. Sobrou para Léo Pereira, para Bremer, para Wesley, para todo mundo que não estava num avião rumo à final da Champions League. O amistoso contra o Panamá, neste domingo (31/05) às 18h30 no Maracanã, é o último ensaio geral antes da Copa do Mundo — e ele chega com um elenco incompleto, uma panturrilha inflamada e decisões táticas que vão definir como o Brasil entra em campo em 13 de junho.

O vestiário que faltou na Granja Comary

Neymar não treinou. A lesão grau 2 na panturrilha, confirmada pela CBF, coloca o camisa 10 em risco real de perder a estreia do Brasil na Copa. Enquanto isso, Marquinhos, Gabriel Martinelli e Gabriel Magalhães estão em Munique — ou a caminho dela — para a final da UEFA Champions League. São quatro nomes que, em condições normais, estariam entre os primeiros onze de Carlo Ancelotti.

O elenco fez quatro treinos em Teresópolis antes de descer para o Rio. O que Ancelotti viu nesses dias foi, provavelmente, a versão mais próxima do que ele terá disponível na fase de grupos: um time competente, equilibrado, mas ainda em construção de identidade coletiva.

"Quando você perde quatro jogadores de nível Champions de uma vez, não é substituição — é reconstrução de um sistema inteiro. Ancelotti vai precisar redistribuir responsabilidades que antes eram de indivíduos." — comentarista de futebol europeu, em análise pré-jogo

A ausência mais sentida taticamente não é Neymar — é Marquinhos. O capitão organiza a saída de bola do Brasil com uma precisão que poucos zagueiros no mundo replicam. Em métricas de progressive passes (passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário), Marquinhos registrou média de 7,3 por 90 minutos nas últimas convocações, um número que coloca ele entre os três zagueiros mais verticais de toda a Copa. Bremer, que deve assumir a titularidade ao lado de Léo Pereira, tem perfil mais físico e menos construtivo — média de 4,1 progressive passes por 90 minutos na Serie A 2025/26.

O que os números dizem sobre o Panamá

O Panamá não é adversário para ser ignorado. O time de Thomas Christiansen venceu a África do Sul por 2 a 1 no último amistoso — resultado que, segundo o próprio técnico, empolgou o grupo. O Panamá integra o Grupo L da Copa, com Gana (estreia em 17 de junho), Croácia e Inglaterra, então este jogo contra o Brasil também serve como termômetro real para eles.

Taticamente, o Panamá opera com um bloco médio-baixo e pressiona em transição. Duas métricas ajudam a entender o desafio:

  • PPDA (Passes Permitidos por Ação Defensiva): mede a intensidade da pressão. Quanto menor o número, mais agressivo o time pressiona. O Panamá costuma operar com PPDA entre 9 e 11 — não é uma equipe de pressão alta, mas é organizada na fase defensiva.
  • Defensive Actions no terço médio: o time panamenho concentra a maioria das ações defensivas entre a linha de meio-campo e a área própria, o que cria espaço nas costas da linha para jogadores como Vini Jr e Raphinha explorarem em velocidade.

Cecilio Waterman e Ismael Díaz, os dois atacantes titulares, têm xG combinado de 0,38 por 90 minutos nos amistosos recentes — números modestos, mas que ganham outro peso quando o adversário é uma defesa ainda ajustando encaixes.

A escalação que Ancelotti deve apresentar como base do Mundial

A provável formação do Brasil para este domingo é: Alisson; Wesley, Léo Pereira, Bremer e Alex Sandro; Casemiro e Bruno Guimarães; Raphinha, Luiz Henrique, Vini Jr e Matheus Cunha. É, em essência, o time que Ancelotti deve apresentar na Copa — pelo menos até Neymar, Marquinhos, Martinelli e Gabriel Magalhães estarem disponíveis.

Três pontos táticos merecem atenção especial nessa escalação:

  1. xG esperado do ataque: sem Neymar criando entre linhas, a responsabilidade de gerar chances cai sobre Raphinha e Vini Jr nas pontas. Nos últimos seis meses, Raphinha acumulou xA (expected assists) de 0,31 por 90 minutos pelo Barcelona — o terceiro maior entre meias-atacantes nas cinco grandes ligas. Ele é o motor criativo desta Seleção enquanto Neymar se recupera.
  2. Bruno Guimarães como pivô de construção: com Marquinhos ausente, Bruno vai precisar descer mais para ajudar Bremer e Léo Pereira na saída de bola. No Newcastle, ele registrou 6,8 progressive passes por 90 minutos na temporada 2025/26 — número compatível com o que o Brasil vai precisar dele aqui.
  3. Matheus Cunha como falso 9: a posição é a grande incógnita. Cunha tem liberdade para se movimentar, mas seu xG médio de 0,22 por 90 minutos no Wolverhampton é inferior ao que se espera de um centroavante de Copa. Ancelotti pode usar esse amistoso para testar se ele aguenta o peso da referência ofensiva.

Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, já havia a indicação de que Ancelotti preferia testar a base titular antes do Mundial, independente dos desfalques. Este amistoso confirma essa leitura.

O Brasil entra em campo no Maracanã neste domingo às 18h30, com transmissão pela TV Globo e SporTV. A estreia na Copa do Mundo acontece em 13 de junho, contra Marrocos, num confronto que vai exigir muito mais do que o Panamá consegue oferecer — e é justamente por isso que cada minuto desta tarde no Rio tem peso de decisão.