O passe saiu do corredor direito, cortou a linha defensiva adversária e chegou ao pé esquerdo de um garoto de 20 anos que, em fração de segundo, decidiu não dominar — bateu de primeira. O goleiro não alcançou. Foi assim, em dezenas de momentos dispersos pela temporada 2025/2026 do Real Madrid, que Arda Güler foi construindo o argumento mais sólido que a Turquia tem para chegar longe na Copa do Mundo. O técnico Vincenzo Montella anunciou nesta terça-feira a lista dos 26 convocados, e o nome do meia merengue não apenas estava lá — era o nome em torno do qual toda a convocação girava.

O que Güler fez no Real Madrid e por que isso importa tanto para Montella

Quando faz pressão alta, ele recupera a bola antes que a defesa adversária organize saída. Quando tem espaço, ele encontra o companheiro que mais ninguém enxergou. Essa dupla capacidade — pressionar e criar — é exatamente o que Montella precisa de um camisa 10 numa Copa do Mundo com 48 seleções, onde o volume de jogos comprimidos exige versatilidade tática acima da média. O técnico italiano, que conhece bem a realidade do futebol de clube europeu pela sua passagem por Fiorentina, Milan e Sevilla, sabe que Güler não é apenas um talento: é um organizador de jogo que já opera sob pressão máxima no maior clube do mundo.

A Turquia goleou a Macedônia por 4 a 0 em Istambul na segunda-feira, resultado que serviu a Montella como laboratório para definir a espinha dorsal do time. O triunfo não foi apenas placar — foi demonstração de que o sistema funciona quando Güler tem liberdade para circular entre as linhas. Ao lado dele, Hakan Çalhanoglu, da Inter de Milão, oferece a experiência que um torneio desta magnitude exige, e Kenan Yildiz, da Juventus, completa um meio-campo que, no papel, rivaliza com qualquer seleção europeia de segunda prateleira — e incomoda as de primeira.

A memória de 2002 e o peso histórico que a Turquia carrega

Para entender o que está em jogo, é preciso voltar ao Japão e Coreia do Sul. Em 2002, a Turquia de Hasan Şükür — que marcou o gol mais rápido da história das Copas, aos 11 segundos da disputa do terceiro lugar — terminou o torneio em terceiro lugar, com 12 pontos em quatro jogos do mata-mata. Era uma geração excepcional: Rüştü Reçber no gol, Emre Belözoğlu no meio, Şükür no ataque. Vinte e quatro anos depois, a seleção turca retorna a um Mundial sem ter chegado sequer às quartas de final nesse intervalo. O peso dessa ausência é real, e Güler sabe disso.

Quando faz comparações históricas, o futebol europeu raramente perdoa a romantização. Mas há paralelos legítimos entre o que Güler representa hoje e o que Emre Belözoğlu representava naquela geração: um meia técnico, criativo, capaz de ditar o ritmo e de aparecer em momentos decisivos. A diferença é que Güler opera num contexto de clube infinitamente mais exigente — o Real Madrid da era pós-Ancelotti é uma máquina de pressão constante, e o jovem turco sobreviveu e cresceu dentro dela.

"Escolher os 30 atletas para esta última fase de preparação foi a decisão técnica mais complicada da minha trajetória como treinador", disse Amir Ghalenoei, técnico do Irã — frase que poderia ter saído da boca de Montella, dado o nível de dificuldade de montar uma lista turca equilibrada entre experiência e juventude.

Montella apostou exatamente nesse equilíbrio. Merih Demiral, zagueiro do Al-Ahli, e Çağlar Söyüncü, do Fenerbahçe, formam uma defesa experiente. Ferdi Kadıoğlu, lateral do Brighton que se adaptou ao ritmo da Premier League, oferece saída de bola qualificada. O goleiro Altay Bayındır, do Manchester United, tem nível de pressão de clube que poucos goleiros desta Copa podem apresentar. O elenco não é de elite global, mas é funcionalmente coeso — e isso, em Copa do Mundo, vale tanto quanto talento individual.

O que Güler fez no Real Madrid e por que isso importa tanto para Montella Como A
O que Güler fez no Real Madrid e por que isso importa tanto para Montella Como A

O Grupo D e o caminho que a Turquia precisará percorrer

A estreia está marcada para 14 de junho, contra a Austrália, no Vancouver Place. Depois vêm Paraguai, em Santa Clara no dia 20, e Estados Unidos, em Los Angeles no dia 25 — este último, o jogo mais politicamente carregado do grupo, dado que os americanos jogam em casa. Não é um grupo de morte, mas tampouco é caminho livre. A Austrália de 2022 eliminou a Dinamarca e chegou às oitavas; o Paraguai tem histórico de Copa que inclui quartas de final em 2010. Qualquer deslize na fase de grupos pode ser fatal.

A referência mais próxima ao que Montella tenta construir é a Grécia de 2004 na Eurocopa — não em termos de estilo, mas de filosofia: um time organizado, experiente, difícil de bater, com um ou dois jogadores capazes de criar diferença do nada. A Grécia tinha Theodoros Zagorakis. A Turquia tem Arda Güler. A pergunta que fica, e que só o torneio responderá, é esta: se a Turquia chegar às oitavas e enfrentar uma seleção do nível da França ou da Espanha, Güler terá espaço suficiente para ser o jogador que é no Real Madrid — ou o sistema adversário o apagará da partida antes que ele possa decidir?