Em 1970, quando a Seleção Brasileira desembarcou no México para disputar a Copa do Mundo, a imprensa da época publicou, sem qualquer constrangimento, reportagens sobre as namoradas e esposas dos jogadores — não para celebrá-las, mas para transformá-las em personagens secundários de uma narrativa que não lhes pertencia. Cinquenta e seis anos depois, o roteiro se repete com outras ferramentas. No domingo, 31 de maio de 2026, Virginia Fonseca, 27 anos, foi vaiada no Maracanã logo após Vinicius Jr. marcar seu primeiro gol no amistoso entre Brasil e Panamá. Torcedores gritaram ofensas e jogaram aviões e bolinhas de papel em sua direção. O estádio que já viu Pelé chorar e Romário gritar tinha, naquela tarde, um alvo que nada tinha a ver com futebol.

O episódio que não foi uma surpresa

Quem acompanha o futebol brasileiro há mais de duas décadas sabe que esse tipo de cena tem precedentes. Na Copa de 2006, na Alemanha, a presença das esposas dos jogadores ingleses virou manchete mundial — e as mulheres foram tratadas com escárnio pela mídia europeia. No Brasil, episódios similares ocorreram em estádios sempre que alguma figura do universo pessoal de um atleta se tornava pública. A diferença, agora, é a escala: Virginia Fonseca tem 60 milhões de seguidores no Instagram. O que antes ficava restrito às arquibancadas hoje se multiplica em segundos nas redes sociais.

A agência VF Digital, responsável pela carreira da influenciadora, divulgou nota na segunda-feira, 1º de junho, conectando o ocorrido a um padrão mais amplo de violência de gênero.

"A violência contra a mulher não começa com uma manchete. Ela começa quando o desrespeito é normalizado, quando a humilhação vira entretenimento e quando ataques são tratados como algo aceitável."

A nota citou dados sobre violência contra mulheres no Brasil — milhões convivem diariamente com formas de agressão que não deixam marcas físicas, mas comprometem liberdade e autoestima. O comunicado foi direto ao ponto: o debate não é sobre uma mulher específica, mas sobre como a sociedade trata mulheres que ocupam espaços públicos.

Virginia responde e Vini Jr. pede respeito

Abalada com as ofensas, Virginia ficou fora das redes sociais por algumas horas após o jogo. Quando voltou, na tarde de segunda-feira, publicou um vídeo ao lado da filha Maria Alice, de 5 anos, à beira do mar — uma resposta silenciosa, mas carregada de significado. Na sequência, compartilhou a postagem da sua equipe sobre violência psicológica, que incluía a frase: "Discordar é um direito. Mas nenhuma mulher deveria ser transformada em alvo de humilhação pública, ataques coletivos ou violência verbal."

Vinicius Jr., 25 anos, usou suas redes sociais ainda durante a noite do domingo para pedir que os torcedores parassem com as ofensas.

"Queria pedir, com todo o carinho, para não ofenderem a Virginia. Tivemos uma relação muito bonita e gostaria que a apoiassem, porque entre a gente está tudo bem. O respeito e o carinho seguem! Vamos juntos pelo Hexa."

O atacante do Real Madrid, que marcou o gol que desencadeou as vaias, havia sido convocado por Carlo Ancelotti para os amistosos preparatórios da Copa do Mundo 2026. Virginia, segundo relatos, estará presente em outras partidas da Seleção no torneio — o que torna a questão ainda mais concreta para as próximas semanas.

Um padrão de gênero que o futebol normaliza há décadas

A história do futebol brasileiro está repleta de momentos em que mulheres ligadas a jogadores foram tratadas como extensões dos atletas — e punidas por isso. Quando Ronaldo Fenômeno se separou de Milene Domingues, em 2003, a cobertura midiática focou quase exclusivamente na "culpa" da ex-jogadora. Quando Adriano Imperador atravessou sua fase mais turbulenta, mulheres ao redor dele viraram personagens de narrativas que elas não escreveram. O fenômeno não é novo. O que mudou é a visibilidade e a velocidade com que o assédio se propaga.

Neste caso específico, o episódio do Maracanã expõe uma contradição incômoda: o mesmo torcedor que exige respeito ao ver Vinicius Jr. sendo alvo de racismo na Europa reproduz, dentro de casa, uma lógica de humilhação coletiva direcionada a uma mulher. A nota da VF Digital foi precisa ao apontar que a sociedade "questiona, julga e expõe mulheres com uma intensidade que raramente é aplicada da mesma forma aos homens."

O que muda agora e o que o torcedor pode observar

O Brasil estreia na Copa do Mundo 2026 com uma delegação que carrega expectativas de um país inteiro. Vinicius Jr. é peça central no esquema de Ancelotti — marcou o gol da vitória por 6 a 2 sobre o Panamá e chegou ao torneio como um dos atacantes mais decisivos do mundo. A presença de Virginia nas próximas partidas da Seleção já está confirmada, segundo a própria equipe do atacante. Isso significa que o teste real para a torcida brasileira não aconteceu no domingo. Ele ainda está por vir.

Quem for ao Maracanã ou acompanhar os próximos jogos da Seleção nas próximas semanas terá diante de si uma escolha concreta: repetir o padrão que virou manchete internacional por razões que nada têm a ver com futebol, ou demonstrar que a torcida brasileira é capaz de separar o que acontece dentro de campo do que acontece na vida pessoal de quem joga nele. Vale acompanhar os próximos jogos da Seleção com esse olhar — porque o que acontecer nas arquibancadas vai dizer tanto sobre o Brasil quanto o que acontecer no gramado.