A última vez que o Brasil entrou em uma Copa do Mundo sem um líder vocal e experiente no meio-campo foi em 1998, quando o grupo de Zagallo chegou a Paris ainda processando a saída de Mauro Silva do centro do campo. A seleção tinha Ronaldo, tinha Roberto Carlos, tinha Rivaldo — mas faltava alguém disposto a ser o primeiro a falar, a absorver o desgaste das perguntas difíceis e a proteger os mais jovens do holofote. Vinte e oito anos depois, Casemiro ocupa esse posto com uma clareza quase cirúrgica, e a coletiva desta quinta-feira, 28 de maio, na Granja Comary, foi o retrato mais nítido disso.

O primeiro a falar e o que isso significa dentro do grupo

Não foi por acaso que a comissão técnica de Carlo Ancelotti escalou Casemiro para abrir a série de entrevistas coletivas da preparação para a Copa do Mundo. O volante do Manchester United, camisa 5 da Seleção Brasileira em duas Copas consecutivas (2018 e 2022), é hoje o jogador com maior capital de confiança dentro do vestiário — e o que mais demonstra disposição para ocupar o espaço desconfortável entre a imprensa e o grupo. Enquanto outros jogadores esperam para falar depois que o clima já foi testado, Casemiro entra primeiro, absorve os golpes e filtra o que chega para os companheiros. Essa função não tem número na súmula, mas quem acompanha Seleção há anos sabe que ela vale tanto quanto um gol em jogo de mata-mata.

Verona - Como
O primeiro a falar e o que isso significa dentro do grupo Como Casemiro carrega
O primeiro a falar e o que isso significa dentro do grupo Como Casemiro carrega

A frase sobre Endrick que virou polêmica e o que Casemiro quis dizer

Antes mesmo da convocação final de Ancelotti, Casemiro concedeu entrevista à TNT Sports e disse que Endrick "ainda não era do grupo" — uma declaração que percorreu as redes sociais com a velocidade de um temporal sem trovão, gerando ruído antes que qualquer contexto pudesse acompanhá-la. Na coletiva desta quinta, o volante foi direto ao ponto.

"Fiquei bastante chateado, principalmente do momento que eu fui tentar proteger o Endrick. Fui tentar não colocar um peso nele numa Copa do Mundo, principalmente porque ele vai jogar 3, 4 Copas. Temos que deixar ele solto", disse Casemiro.

A lógica de Casemiro é coerente com o histórico do garoto revelado pelo Palmeiras. Endrick chegou ao Lyon no segundo semestre de 2025 e terminou a temporada europeia 2025/2026 com oito gols e sete assistências na metade final do campeonato francês — números que convenceram Ancelotti a convocá-lo. Na Data Fifa de março, saiu do banco contra a Croácia e participou de dois gols na vitória por 3 a 1. O talento não está em discussão. O que Casemiro quis administrar foi o peso da narrativa — a pressão de ser apontado como o substituto de Neymar antes mesmo de completar 20 anos.

"Já demonstrou que é um grande jogador, demonstrou isso contra a Croácia, nos salvou. É uma questão de protagonismo, outros nomes na frente têm que assumir isso. Já ele, o Rayan, têm que estar soltos, que façam isso, resolvam sem essa pressão. Outros jogadores têm que assumir esse protagonismo. Eu apenas fui proteger", completou o camisa 5.

O incômodo real com as perguntas sobre Neymar

Se a questão de Endrick foi resolvida com clareza, o tema Neymar gerou um atrito diferente — mais revelador sobre o estado de espírito do grupo. Foram três perguntas relacionadas ao atacante do Santos em uma única coletiva, e Casemiro não escondeu o cansaço.

"Toda vez que vem aqui tem que falar dele", disse o volante, com um riso que disfarçava mal a irritação.

O contexto é delicado. Neymar trata uma lesão muscular de grau 2 na panturrilha direita e deve ficar parado entre duas e três semanas — o que o tira dos amistosos contra Panamá (31/05) e Egito (06/06) e ameaça sua presença na estreia da Copa contra Marrocos, marcada para 13 de junho, em Nova Jersey. A CBF convocou o camisa 10 mesmo ciente do problema físico, uma aposta que divide opiniões dentro e fora da Seleção. Segundo apuração do SportNavo, a presença do médico da delegação na coletiva foi justamente para tentar desviar parte das perguntas sobre o estado clínico do jogador — e Casemiro reconheceu o gesto: "Foi até legal o doutor vir aqui para não ficar tanta pergunta em cima dele".

Quando pressionado sobre se Neymar ainda pode ser protagonista em um Mundial, Casemiro recusou a armadilha da pergunta com uma resposta que mistura lealdade e pragmatismo:

"Isso é você quem está falando, que ele não vai ser protagonista. Jogador, apesar de saber o que faz em campo, cada um quer ter o protagonismo. Essa pergunta é para o Neymar, para o Mister... a gente sabe da qualidade dele. Tem que ser por partes. Voltar a estar bem em saúde, voltar a jogar e depois pensar em protagonismo. Pensar em saúde."

O efeito cascata de ter um líder que absorve pressão

A função que Casemiro exerce na Seleção tem um efeito direto sobre quem está ao redor. Jogadores jovens como Endrick e Rayan chegam ao ambiente da Copa sem precisar gerenciar narrativas externas porque há alguém mais velho dispostos a fazer esse trabalho. Isso libera energia cognitiva e emocional para o que importa — o desempenho dentro de campo. A lógica não é nova: Cafu fazia isso por Ronaldinho em 2002, Lúcio fazia por Kaká em 2006. O que muda é que Casemiro opera em um ecossistema de redes sociais onde uma frase fora de contexto circula em minutos e exige resposta pública imediata.

  • Próximo jogo: Brasil x Panamá — 31 de maio, 17h (Brasília), amistoso
  • Segundo amistoso: Brasil x Egito — 6 de junho, 19h (Brasília)
  • Estreia na Copa: Brasil x Marrocos — 13 de junho, 19h (Brasília), Nova Jersey

O Brasil estreia na Copa do Mundo daqui a 16 dias. Neymar corre contra o relógio para estar disponível para o jogo contra Marrocos. Casemiro, enquanto isso, já está em campo — não no gramado, mas no espaço onde as batalhas de narrativa são travadas antes de qualquer bola rolar. E se a Seleção chegar ao primeiro jogo com o grupo blindado, parte do crédito vai pertencer a um volante que escolheu ser o primeiro a falar quando todos prefeririam esperar.