Não foi a derrota que abalou o Marrocos neste domingo — porque derrota não houve. O empate em 1 a 1 com a Noruega na Red Bull Arena, em Harrison, Nova Jersey, caberia tranquilamente na categoria de resultado gerenciável, o tipo de placar que um técnico guarda na gaveta e esquece até a véspera do torneio. O problema de Walid Regragui não está no marcador. Está nas duas fichas de substituição que ele foi forçado a usar ainda no primeiro tempo, quando Noussair Mazraoui e Abde Ezzalzouli deixaram o gramado com lesões que agora rondam o vestiário marroquino como uma dívida vencida — a quatro dias do início da Copa do Mundo.

O que se viu em Harrison antes do apito final

O jogo começou com o Marrocos no controle. Aos oito minutos, Brahim Díaz abriu o placar aproveitando um passe preciso de Ezzalzouli numa jogada construída pelo corredor esquerdo — exatamente o corredor que Regragui mais valoriza em seu esquema de pressão alta e transições rápidas. A jogada era, em miniatura, tudo o que o técnico queria mostrar: velocidade, combinação entre o ponta e o lateral, finalização no espaço. O problema é que ela foi também a última participação relevante de Ezzalzouli na partida. Minutos depois, o atacante do Betis saiu mancando. Mazraoui, lateral-esquerdo do Manchester City, seguiu o mesmo caminho antes do intervalo.

No segundo tempo, a Noruega reorganizou a pressão com Martin Ødegaard — o meia do Arsenal que opera como metrônomo do time escandinavo — e aproveitou a passividade defensiva marroquina para empatar. Erling Haaland e Alexander Sørloth ameaçaram em bolas aéreas, mas o resultado ficou em 1 a 1. Para os noruegueses, que não disputam uma Copa desde 1998 e estreiam no dia 17 de junho contra o Iraque no Grupo I, o empate tem sabor de aquecimento útil. Para o Marrocos, o placar é secundário.

O que Mazraoui e Ezzalzouli representam no esquema de Regragui

Há uma analogia que se aplica bem aqui: em jazz, quando o baixista sai do palco no meio do show, o pianista pode até continuar tocando, mas o groove some. Mazraoui é o baixo do Marrocos — o jogador que sustenta o ritmo defensivo pela esquerda enquanto libera o time para atacar. Com 26 anos e uma temporada consolidada no City de Guardiola, ele é o tipo de lateral que não aparece nas estatísticas de gols mas aparece em tudo o mais: coberturas, saídas de bola, pressão no campo adversário. Ezzalzouli, por sua vez, é o solista: o ponta que desequilibra em velocidade, que cria situações de 1 contra 1 e que já marcou seis gols em 18 jogos pela seleção marroquina desde que Regragui assumiu o comando, em 2022.

A ausência simultânea dos dois no mesmo corredor não é apenas uma perda de qualidade — é uma ruptura de identidade tática. O Marrocos de Regragui foi construído em torno de laterais ofensivos que funcionam como extremos adicionais, sobrecarregando o adversário pelas pontas. Sem Mazraoui e com Ezzalzouli em dúvida, o técnico precisará recalibrar o que faz de melhor.

"O corredor esquerdo é onde criamos mais, onde temos mais profundidade", disse Regragui em coletiva antes do amistoso — uma declaração que, à luz das lesões, soa agora como um roteiro com o ator principal cortado.

Como o Brasil pode transformar a brecha marroquina em vantagem real

A seleção brasileira enfrenta o Marrocos na estreia do Grupo C da Copa do Mundo 2026, num confronto que inclui ainda Escócia e Haiti. O lado direito do Brasil — seja com Danilo, com alguma variação defensiva ou com um meia-atacante orientado para aquela faixa — encontrará, se as lesões se confirmarem, um corredor esquerdo marroquino reconstruído às pressas. Substitutos há, mas ritmo de entrosamento com Brahim Díaz e com o bloco defensivo treinado por meses é o que não se repõe em uma semana.

O que se viu em Harrison antes do apito final Como duas lesões no amistoso contr
O que se viu em Harrison antes do apito final Como duas lesões no amistoso contr

O histórico recente do Marrocos mostra uma seleção extremamente organizada: a equipe não perdia um amistoso há mais de um ano antes deste domingo, e chegou às semifinais da Copa de 2022 no Qatar eliminando Espanha e Portugal. Mas aquele time tinha Mazraoui em plena forma e Ezzalzouli como opção de impacto vindo do banco. Desta vez, os dois podem nem estar disponíveis para o jogo que acontece a menos de uma semana.

"Vamos avaliar as condições deles nas próximas 48 horas", afirmou a comissão técnica marroquina logo após o apito final em Harrison, sem confirmar nem descartar a participação dos dois no jogo de estreia.

Para o Brasil, a equação é simples na teoria e complexa na execução: explorar o corredor esquerdo adversário com velocidade e trocas de posição, forçando o substituto de Mazraoui a defender em situações de desvantagem numérica. Jogadores como Raphinha, acostumado a atuar pela direita e a puxar para dentro criando espaço para o lateral subir, ou Rodrygo, que oscila entre as pontas com facilidade, têm o perfil técnico para punir uma defesa remontada. A estreia do Brasil está marcada para o dia 13 de junho, no MetLife Stadium, em East Rutherford — o mesmo complexo metropolitano de Nova Jersey onde o Marrocos empatou neste domingo, como se o campo já ensaiasse o roteiro do que está por vir.

Se Mazraoui não se recuperar a tempo, qual substituto Regragui escalará na esquerda — e o Brasil terá um plano de jogo específico para explorar essa posição desde o primeiro minuto ou vai esperar para ler o que o adversário apresentar?