Se a Copa do Mundo começasse amanhã na Cidade do México, o caminho entre o aeroporto e o Zócalo — sede da Fan Fest oficial — estaria bloqueado por barricadas de professores, filas de controle policial e uma linha de metrô fechada. Essa não é ficção científica. É o retrato de uma segunda-feira qualquer no centro histórico da capital mexicana em junho de 2026, com o torneio a menos de duas semanas de distância.

A greve geral dos professores mexicanos completa 15 dias sem sinal de recuo. Mobilizados em torno da Coordinadora Nacional de Trabajadores de la Educación (CNTE), os docentes exigem que a presidente Claudia Sheinbaum cumpra promessas feitas em campanha — reajuste salarial, estabilidade no emprego e revogação de reformas previdenciárias. O Zócalo, praça que já foi palco de manifestações desde a Revolução Mexicana de 1910, voltou a ser epicentro de tensão. A polícia montou um cerco de quarteirões inteiros, obrigando pedestres a cruzar em fila indiana, um por um. A linha 2 do metrô, que serve a estação Zócalo, foi suspensa no domingo sob a justificativa oficial de "obras de melhoria" — embora a estação Belas Artes, vizinha, tenha ficado colapsada com passageiros entrando e saindo pela mesma boca.

O futebol como fuga — e como negócio

A cem metros do perímetro policial, outra cena se desenvolve. Em frente ao Museu de Belas Artes, centenas de pessoas com camisas de seleções e clubes — nossa reportagem registrou uma camisa do Flamengo e uma do Palmeiras entre os presentes — formam um mercado espontâneo de figurinhas do álbum da Copa. O pacote padrão sai por 25 pesos (cerca de 7 reais). Uma figurinha brilhante de escudo vale entre 20 e 30 pesos. Um Mbappé dourado no formato importado dos Estados Unidos, com borda especial, chega a 1.000 pesos — quase 300 reais. O mercado paralelo de cromos já movimenta cifras comparáveis às de um dia de câmbio em bairro turístico.

"Nós somos um povo do futebol. Pode ser que não tenha Copa para eles, para o resto do país vai ter Copa sim", disse Christian, vendedor local no entorno do Museu de Belas Artes.

A declaração de Christian resume uma fratura que não é nova na história das Copas. Em 1978, a Argentina de Videla realizou o torneio enquanto a ditadura operava centros clandestinos de detenção. Em 1986, o próprio México sediou a Copa 13 meses após o terremoto que matou mais de 10 mil pessoas na Cidade do México. O futebol e a crise social coexistiram — e o torneio aconteceu. Mas em ambos os casos, a tensão deixou marcas que a FIFA preferiu ignorar na época e reconhece, constrangida, décadas depois.

O efeito cascata na logística dos jogos

O Estádio Azteca, com capacidade para 87 mil pessoas, recebe jogos da Copa 2026 incluindo a partida inaugural do torneio. A linha 2 do metrô é uma das rotas mais diretas entre o centro histórico e os arredores do estádio. Com a estação Zócalo fechada e a Belas Artes saturada, o impacto logístico já é mensurável: o tempo médio de deslocamento no centro da cidade aumentou em pelo menos 40 minutos nos últimos dias, segundo relatos de moradores locais. Para uma Copa com 48 seleções e fluxo estimado de 5 milhões de visitantes nos três países-sede, esse gargalo tem dimensão equivalente à de tentar esvaziar o Estádio do Maracanã usando apenas duas catracas.

Um dos líderes dos professores, identificado como Isaac, veio do sul do país e está acampado desde o início do mês. Segundo ele, agricultores planejam chegar à capital ainda esta semana com tratores para bloquear os arredores do Azteca. Se a ameaça se concretizar, a FIFA terá um problema de segurança perimetral sem precedentes modernos — o equivalente ao que a UEFA enfrentou em 2022 quando a final da Champions League em Paris foi marcada por tumultos externos ao Stade de France, com uso de gás lacrimogêneo contra torcedores do Liverpool.

"Os agricultores vão chegar essa semana e vão bloquear o estádio Azteca com os tratores", afirmou Isaac, representante dos professores em greve, acampado no centro histórico da Cidade do México.

O que a FIFA pode — e não pode — fazer

Historicamente, a FIFA reage a crises de segurança em sede de Copa com três instrumentos: pressão diplomática discreta sobre o governo anfitrião, criação de perímetros exclusivos de segurança ao redor dos estádios e, em último caso, transferência de partidas para cidades alternativas. O México conta com outras sedes além da capital — Guadalajara recebe quatro jogos da fase de grupos, e Monterrey também integra o calendário. Uma redistribuição de partidas, se o Azteca se tornar inviável por razões de ordem pública, não é juridicamente impossível — mas seria politicamente catastrófica para o governo Sheinbaum, que já enfrenta desgaste com a greve.

O precedente mais próximo é a Copa de 2014 no Brasil, quando protestos do Movimento Passe Livre em junho de 2013 — um ano antes do torneio — atingiram mais de 1 milhão de pessoas nas ruas e chegaram a cercar o Estádio Castelão durante uma partida da Copa das Confederações. A FIFA emitiu nota de "preocupação" e o governo Dilma acelerou investimentos em transporte público nas cidades-sede. O torneio aconteceu. Mas o custo político interno foi alto, e a sensação de que a Copa foi "imposta" sobre demandas sociais reais nunca desapareceu completamente do debate público brasileiro.

O cenário nas próximas semanas

A Copa do Mundo 2026 começa oficialmente em 11 de junho, com jogos distribuídos entre México, Estados Unidos e Canadá. O Azteca recebe sua primeira partida já na fase de grupos. O governo mexicano tem, portanto, menos de uma semana para negociar com a CNTE ou apresentar um plano de segurança que convença a FIFA de que o perímetro do estádio estará livre de bloqueios. Negociações entre o Ministério da Educação e representantes dos professores estão previstas para esta semana, mas sem data confirmada de retomada. Enquanto isso, no Museu de Belas Artes, o Mbappé dourado continua sendo vendido por 1.000 pesos — e as filas não diminuem.