O SoFi Stadium, em Los Angeles, estava esgotado. 70.492 pessoas. As arquibancadas misturavam bandeiras americanas, camisas do Monaco e cartazes escritos à mão em inglês e em inglês nigeriano. Aos sete minutos, a bola desviou no pé de Damian Bobadilla e entrou no gol do Paraguai. Nos acréscimos do primeiro tempo, Folarin Balogun recebeu em velocidade, cortou Gustavo Gómez com frieza de veterano e bateu de canhota no ângulo. Era 3 a 0. Era uma declaração.
A narrativa que se consolidou nas redes sociais nas horas seguintes foi a do goleada fácil, do adversário fraco, da festa do anfitrião. O placar de 4 a 1, construído com um gol contra, dois de Balogun e um de Giovanni Reyna nos acréscimos, alimentou a leitura de que os EUA venceram por contexto — torcida, pressão, palco. Os dados, porém, contam outra história.
O que os números da goleada revelam além do placar
Os Estados Unidos aplicaram a primeira goleada da Copa do Mundo de 2026 e quebraram um jejum de quase um século. A última vez que a seleção americana havia vencido por margem de três gols em uma Copa foi em 1930, no Uruguai — duas vezes: 3 a 0 sobre a Bélgica e 3 a 0 sobre o próprio Paraguai, com hat-trick de Bert Patenaude. Noventa e seis anos depois, o roteiro se repetiu no mesmo adversário.
O volume ofensivo foi ainda maior do que o placar sugere. A arbitragem anulou um gol de Balogun por impedimento ainda no primeiro tempo — lance que, se validado, teria dado ao atacante um hat-trick e ao time a primeira vez na história em que os EUA marcariam quatro gols em um tempo de Copa do Mundo. Mesmo sem o tento anulado, os norte-americanos criaram chances suficientes para um placar ainda mais elástico. Christian Pulisic, apelidado de Capitão América pela torcida, foi garçom em dois dos três gols do primeiro tempo e foi poupado no intervalo por Mauricio Pochettino — gesto que, por si só, diz muito sobre o conforto tático da equipe.
O Paraguai, que não disputava uma Copa desde 2010, quando chegou às quartas de final antes de ser eliminado pela Espanha campeã, não conseguiu criar volume ofensivo real. O único gol sul-americano veio aos 73 minutos, com Maurício — atacante do Palmeiras com cidadania paraguaia — em uma jogada individual. Gustavo Gómez, capitão e também palmeirense, teve uma noite difícil na marcação. Bobadilla, volante do São Paulo, ficará marcado pelo gol contra que abriu o placar aos sete minutos.
Balogun e a escolha que mudou tudo
A narrativa popular sobre Folarin Balogun é a do jogador que "não foi bom o suficiente para a Inglaterra". Ela precisa ser desmontada com precisão cirúrgica.
Balogun nasceu em Nova York, filho de imigrantes nigerianos, e cresceu em Londres. Formado nas categorias de base do Arsenal, ele tinha elegibilidade para representar três seleções — Estados Unidos, Inglaterra e Nigéria. A Federação Inglesa chegou a convocar o atacante para jogos de preparação, mas a escolha definitiva foi pelos EUA, em 2023. Não foi rejeição. Foi decisão estratégica de um jogador que enxergou onde teria mais protagonismo e onde sua história faria mais sentido.
Depois de uma temporada de alto nível no Monaco — clube pelo qual acumulou números expressivos na Ligue 1 e consolidou sua posição entre os centroavantes mais promissores da Europa — Balogun chegou à Copa como a principal referência ofensiva de Pochettino. Na noite de sexta-feira, 12 de junho, ele justificou cada vírgula dessa aposta.

"Estou nas nuvens, sabe? Três gols no primeiro tempo do jogo de abertura da Copa do Mundo em casa é fantástico. Então, estou muito feliz com tudo. Que momento lindo. Mal posso esperar pelo próximo", disse Balogun após a partida — referindo-se ao tento anulado como se já fizesse parte do marcador emocional da noite.
Com dois gols marcados, Balogun se tornou apenas o segundo jogador dos EUA a balançar as redes mais de uma vez em uma mesma partida de Copa do Mundo. O primeiro foi Patenaude, em 1930 — o mesmo que fez o hat-trick histórico contra o Paraguai. A simetria não é coincidência: é a medida de quanto Balogun já pesa nessa seleção.
A nova cara dos EUA e o que ela representa institucionalmente
A distância entre o futebol americano de 1930 e o de 2026 é comparável à distância entre Manaus e Porto Alegre — mais de 4.000 quilômetros de transformação estrutural, cultural e demográfica. O elenco comandado por Pochettino é o retrato mais fiel dessa evolução: Pulisic nasceu em Hershey, Pennsylvania, de ascendência croata; Reyna é filho do ex-jogador Claudio Reyna e da ex-jogadora Danielle Egan; Balogun carrega Lagos e Nova York no sobrenome.
Essa pluralidade não é acidental. É o resultado de décadas de investimento na MLS, de programas de formação que atraíram filhos de imigrantes e de uma política de naturalização que, ao contrário do que críticos costumam apontar, produziu jogadores genuinamente identificados com a camisa. Balogun não usa o escudo americano por conveniência geográfica. Ele nasceu em solo americano, cresceu entre dois continentes e escolheu o país que lhe deu o nome.
Nas arquibancadas do SoFi Stadium, ao lado de torcedores comuns, estavam Tom Cruise, Leonardo DiCaprio, David Beckham, Kareem Abdul-Jabbar e o presidente da Fifa, Gianni Infantino, acompanhado do secretário de Estado Marco Rubio. O futebol americano nunca teve uma plateia assim. E raramente teve um protagonista tão simbolicamente carregado quanto Balogun para ocupar o centro do palco.
"O time da casa precisou de apenas sete minutos para abrir o placar no Grupo D, diante de uma torcida empolgada", registrou a BBC Sport em análise publicada após o apito final — sintetizando o que os dados de posse e finalizações já confirmavam: os EUA controlaram a partida do início ao fim.
Com três pontos e saldo de gols de +3, os Estados Unidos lideram o Grupo D. O Paraguai está na lanterna, à espera do confronto contra a Turquia em 20 de junho, à meia-noite (horário de Brasília). Austrália e Turquia se enfrentam neste domingo, 14, à 1h, em Vancouver, para completar a primeira rodada da chave. Os EUA voltam a campo na sexta-feira, 19 de junho, às 16h (horário de Brasília), contra a Austrália — e Balogun, artilheiro isolado da Copa até o momento, chega a esse duelo com a pressão e o privilégio de quem já provou, em noventa minutos, que a escolha que fez em 2023 foi a certa, conforme registrado por SportNavo ao longo da cobertura desta fase de grupos.








