Não, o gesto dos torcedores japoneses não nasceu em 2014 no Itaquerão. A versão que circula nas redes sociais — de que um grupo de fãs decidiu espontaneamente, naquela noite em São Paulo, inaugurar uma tradição — é uma simplificação bonita, mas incompleta. O que aconteceu no Estádio de Dallas neste domingo, 14 de junho, após o empate em 2 a 2 entre Japão e Holanda pela estreia do Grupo F da Copa do Mundo 2026, é a quarta edição consecutiva de um comportamento que não foi inventado pelo futebol: foi apenas revelado por ele.

O que Dallas viu e o que as câmeras não explicaram

Ao apito final de um jogo de alta tensão — os japoneses saíram atrás, buscaram o empate e ainda tiveram chances de virar —, enquanto a maioria das arquibancadas ainda processava o resultado, os torcedores do Japão abriram seus sacos plásticos azuis e começaram a recolher copos, embalagens e papel do setor que ocupavam. Nenhum anúncio pelo alto-falante. Nenhuma organização oficial. O vídeo que circulou nas redes mostrou fileiras de fãs em uniformes azuis e vermelhos agachados entre as cadeiras, em silêncio quase litúrgico.

A cena já havia se repetido em 2018, na Rússia, e em 2022, no Catar. Mas há um detalhe que a narrativa do "gesto bonito" costuma omitir: em 2018, após a derrota para a Bélgica por 3 a 2 nas oitavas de final — um jogo em que o Japão estava vencendo por 2 a 0 e tomou a virada nos acréscimos —, os torcedores também limparam o estádio de Rostov. Ou seja, a prática não depende do humor do resultado. Isso muda tudo.

Por que o futebol revelou algo que o Japão já praticava há décadas

Há um conceito japonês chamado soji — a limpeza coletiva que acontece ao final de cada dia letivo nas escolas do país, quando os próprios alunos varrrem as salas, os corredores e os banheiros, sem funcionários terceirizados. Crianças de seis anos aprendem que o espaço público é responsabilidade de quem o usa. Seria injusto chamar isso de simples educação — mas é uma reeducação civilizatória em escala de país, aplicada desde o jardim de infância.

Quando os torcedores japoneses apareceram com sacos plásticos no Itaquerão em 2014, durante a vitória por 2 a 1 sobre a Costa do Marfim, o mundo ocidental tratou o episódio como novidade. Para os próprios japoneses, era apenas uma extensão do que fazem toda semana em estádios da J-League, campeonato nacional que desde sua fundação, em 1993, incorporou o protocolo de limpeza pós-jogo como parte da cultura dos clubes. O futebol não criou o hábito: apenas o tornou visível para quatro bilhões de espectadores.

Quantas tradições culturais profundas precisam de uma Copa do Mundo para serem notadas pelo resto do planeta?

O que o gesto japonês expõe sobre os estádios europeus e sul-americanos

Quem passou anos cobrindo futebol europeu sabe que o contraste é brutal. No Camp Nou, em noites de Champions League com 90 mil pessoas, a limpeza pós-jogo levava horas e envolvia dezenas de funcionários municipais. No San Siro dos anos 2000, quando Inter e Milan ainda dividiam o estádio em clássicos que moviam a cidade inteira, as arquibancadas ficavam cobertas de copos e bandeirolas até de madrugada. Não havia julgamento nisso — era o padrão global aceito.

O movimento de torcidas organizadas europeias que começou a adotar práticas similares às japonesas é recente e ainda marginal. O Borussia Dortmund tem iniciativas de sustentabilidade no Signal Iduna Park desde 2019, e alguns grupos ultras alemães passaram a recolher lixo após jogos da Bundesliga como forma de protesto contra a mercantilização do futebol — uma ironia que o próprio movimento reconhece. Na Premier League, campanhas de "fan responsibility" ganharam força após os escândalos de vandalismo que marcaram jogos da Premier League entre 2018 e 2022.

O que Dallas viu e o que as câmeras não explicaram Torcedores japoneses limpam D
O que Dallas viu e o que as câmeras não explicaram Torcedores japoneses limpam D

Mas nenhum desses movimentos tem a consistência do que os japoneses demonstram há quatro Copas seguidas. A diferença não está na boa vontade — está na infraestrutura cultural que precede o ato.

"Não fazemos isso para impressionar ninguém. Fazemos porque é o que se faz", disse um torcedor japonês identificado apenas como Kenji, 34 anos, em entrevista ao canal oficial da Fifa durante a Copa de 2022 no Catar.

A frase, aparentemente simples, contém a chave de tudo. Comportamentos que precisam de justificativa ainda não foram completamente internalizados. Os japoneses não explicam o gesto — apenas o executam.

Do ponto de vista esportivo, o Japão chega a esta Copa em momento histórico: o empate com a Holanda foi o quarto jogo consecutivo de invencibilidade contra seleções europeias, sequência que inclui vitórias sobre Alemanha e Espanha na Copa do Catar, em 2022. A seleção volta a campo na próxima quarta-feira, 18 de junho, contra a Tunísia, no Estádio de Monterrey, no México, pela segunda rodada do Grupo F — jogo em que uma vitória colocaria os japoneses praticamente classificados para as oitavas de final.