Diz-se que o México, como anfitrião, tem vantagem emocional suficiente para compensar qualquer inconsistência técnica. A vitória por 2 a 0 sobre Gana, na última sexta-feira (22), no Estádio Cuauhtémoc em Puebla, sugere o contrário: Javier Aguirre precisará de muito mais do que a energia da torcida para avançar no Grupo A ao lado de Coreia do Sul, África do Sul e República Tcheca. O que o placar favorável revelou, acima de tudo, foi um conjunto de escolhas táticas que já apontam para a escalação inicial da estreia em 11 de junho.

O Cuauhtémoc como laboratório, não como vitrine

A partida diante dos ganeses foi disputada num estádio com capacidade para 51 mil pessoas — um ambiente que funciona menos como celebração e mais como pressão institucional sobre o técnico. Brian Gutiérrez abriu o placar convertendo jogada construída pelo corredor direito, com participação direta de Jorge Sánchez, que confirmou sua posição de titular absoluto na lateral. Guillermo Martínez ampliou ainda no primeiro tempo, aproveitando falha de marcação após cruzamento de Jesús Gallardo pela esquerda. Os dois gols carregam informação estrutural: o México atacou preferencialmente pelas laterais, com os pontas invertidos servindo de referência para combinações na entrada da área.

Segundo o técnico Javier Aguirre, em declarações reproduzidas pela imprensa mexicana após o apito final,

"A equipe mostrou organização e intensidade. Ainda temos dois jogos para ajustar o que for necessário."
A frase, aparentemente protocolar, esconde uma decisão já tomada: o esquema de 4-3-3 com Orbelín Pineda como meia-armador central está consolidado, e os dois amistosos restantes — contra Austrália em 3 de junho e Sérvia em 4 de junho — servirão para testar variações de profundidade, não para redesenhar a estrutura.

Os 11 que Aguirre deve escalar contra a África do Sul

Com base na escalação utilizada diante de Gana e nas escolhas recorrentes do ciclo classificatório, a formação mais provável para a estreia é: José Rangel no gol; Jorge Sánchez, César Montes, Johan Vásquez e Jesús Gallardo na defesa; Erik Lira, Orbelín Pineda e Álvaro Fidalgo no meio; Brian Gutiérrez, Raúl Jiménez e Julián Quiñones no ataque. Jiménez, que atua no Fulham desde 2019 e acumula mais de 50 gols pela seleção, permanece como referência central mesmo sem ter marcado contra Gana — sua função como pivô de ligação é insubstituível no sistema de Aguirre.

O ponto mais delicado desta formação está na construção pelo meio. Erik Lira, volante do Cruz Azul, tem a função de proteger a linha defensiva e liberar Fidalgo — espanhol naturalizado mexicano que passou pelo Atlético de Madrid antes de se firmar no futebol mexicano — para progredir com bola. Contra Gana, cujo meio-campo foi controlado por Thomas Partey, do Arsenal, essa combinação funcionou porque o adversário optou por um bloco médio. Contra Coreia do Sul, que pressiona alto, a equação será diferente.

"Temos que ser inteligentes com a bola, não apenas rápidos",
disse Fidalgo em entrevista publicada pelo portal do SportNavo durante a semana de convocação.

O que os amistosos contra Austrália e Sérvia ainda precisam responder

A sequência de preparação é mais exigente do que parece. Austrália, adversária no dia 3 de junho, está no Grupo H da Copa ao lado de Argentina, Iraque e Eslováquia — uma seleção que passou por um processo de profissionalização acelerado após a Copa de 2022 no Catar, quando chegou às oitavas de final. Sérvia, no dia seguinte, traz Dušan Vlahović, da Juventus, como referência ofensiva, testando diretamente a zaga mexicana que ainda não foi pressionada com intensidade real nos amistosos desta janela.

Esses dois jogos têm função clínica precisa: avaliar a resposta defensiva de Montes e Vásquez sob pressão vertical e verificar se Gutiérrez — que jogou a última temporada pelo Chicago Fire na MLS — mantém o nível de contribuição ofensiva demonstrado em Puebla. O atacante tem 23 anos e nunca disputou uma Copa do Mundo; a gestão de sua ansiedade competitiva é tão relevante quanto sua capacidade técnica.

Gana, por sua vez, segue para o duelo com País de Gales em 2 de junho antes de estrear no Grupo L contra o Panamá em 17 de junho. O time de Otto Addo — ex-jogador que participou da Copa de 2006 com as Estrelas Negras — mostrou limitações na saída de bola em Puebla, mas Jordan Ayew e Antoine Semenyo criaram situações de risco suficientes para indicar que o México ainda tem lacunas na transição defensiva.

A estreia mexicana contra a África do Sul está marcada para 11 de junho, às 16h (horário de Brasília). Antes disso, os amistosos de 3 e 4 de junho funcionarão como os dois últimos ensaios de uma peça que já tem roteiro definido — mas cujos atores ainda precisam decorar as falas com precisão. Uma partitura musical pode ser perfeita no papel; o que revela sua qualidade real é a execução ao vivo, sob a pressão de uma plateia que não aceita improvisos.