Cresceu. Quatro anos de idade, uma quadra de futsal em Hamamatsu, e um projeto criado por um brasileiro chamado Mario Anmitsu: foi assim que Hiroki Ito deu seus primeiros passos no futebol. Hoje, aos 27 anos, o zagueiro defende o Bayern de Munique, foi contratado por cerca de 30 milhões de euros — uma das transferências mais caras da história do futebol japonês — e acaba de receber a convocação para a Copa do Mundo da América do Norte. O caminho entre esses dois pontos é um dos mais fascinantes da geração atual.

A convocação que reacendeu uma história esquecida

Quando a seleção japonesa divulgou sua lista para o Mundial de 2026, o nome de Hiroki Ito apareceu sem surpresa entre os especialistas que acompanham a Bundesliga. O defensor consolidou-se como titular absoluto do Bayern de Munique ao longo da temporada 2025/2026, exibindo uma leitura de jogo que mistura disciplina posicional — característica historicamente valorizada no futebol japonês desde a era Zico no Kashima Antlers, nos anos 1990 — com capacidade física desenvolvida no futebol europeu. A convocação, no entanto, trouxe à tona um detalhe pouco conhecido fora dos círculos especializados: a ligação de Ito com o Santos.

A Mario Futsal School e a filosofia dos Meninos da Vila em Shizuoka

A província de Shizuoka, na região de Chubu, concentra a maior comunidade brasileira do Japão. Hamamatsu, cidade natal de Ito, abriga o Consulado do Brasil e é palco de eventos culturais que mantêm viva a identidade de uma diáspora que supera 200 mil residentes, somando os polos de Gunma e Aichi. Foi nesse contexto de intercâmbio cultural que Mario Anmitsu fundou a Mario Futsal School, projeto que mantinha parceria formal com o Santos e funcionava como uma extensão da filosofia de formação do clube praiano em território japonês.

O futsal, modalidade que historicamente produziu técnica apurada em jogadores brasileiros — basta lembrar que Ronaldinho Gaúcho e Falcão têm raízes no esporte de quadra —, foi o ambiente inicial de Ito. Segundo o jornalista Matheus Braga, especialista em futebol japonês e responsável pelo canal J.League Insider BR, a escola serviu como ponte real entre os dois países: o jovem defensor chegou a viajar ao Brasil para conhecer a estrutura de base do Santos em Santos, São Paulo.

"Uma criança que aprende a se mover no futsal e ainda absorve a cultura tática de um clube como o Santos carrega algo que nenhuma academia europeia consegue ensinar depois dos 12 anos", avaliou um observador técnico de futebol asiático consultado pela reportagem.

De Júbilo Iwata ao VfB Stuttgart — a escalada documentada

Após a fase na Mario Futsal School, Ito ingressou nas categorias de base do Júbilo Iwata, clube de Shizuoka com tradição na J.League e que revelou nomes como Dunga — ídolo brasileiro que atuou pelo clube entre 1995 e 2000 e depois se tornaria técnico da Seleção Brasileira em duas passagens (2006–2010 e 2014–2016). No Júbilo, Ito completou sua formação e iniciou a carreira profissional, chamando atenção de olheiros europeus com atuações regulares na primeira divisão japonesa.

A convocação que reacendeu uma história esquecida Como Hiroki Ito foi do Santos
A convocação que reacendeu uma história esquecida Como Hiroki Ito foi do Santos

A transferência para o VfB Stuttgart representou o salto definitivo. Na Bundesliga, o defensor passou a enfrentar atacantes de alto nível semana a semana, consolidando atributos que o futsal e a base japonesa haviam plantado: velocidade de leitura, marcação antecipada e saída de bola limpa. O desempenho consistente no Stuttgart — clube que também revelou Sami Khedira antes de vendê-lo ao Real Madrid por 18 milhões de euros em 2010 — pavimentou o caminho para o Bayern de Munique.

Os €30 milhões e o cenário que se abre antes da Copa

O investimento do Bayern de Munique em Ito, estimado em aproximadamente 30 milhões de euros, inscreve o zagueiro num seleto grupo de defensores asiáticos negociados por valores expressivos no mercado europeu. Para efeito de comparação histórica, o sul-coreano Park Chu-young foi adquirido pelo Arsenal por cerca de 5 milhões de euros em 2011, e o japonês Takehiro Tomiyasu custou ao mesmo Arsenal 18 milhões de euros em 2021 — o que dimensiona o salto de valorização que a nova geração japonesa representa.

A Copa do Mundo de 2026, disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, será o palco mais importante da carreira de Ito até agora. O Japão chega ao torneio como uma das seleções asiáticas mais bem estruturadas, com jogadores espalhados pelas principais ligas europeias. Segundo informações do J.League Insider BR, publicadas em matéria do SportNavo, o zagueiro também desperta interesse do Borussia Dortmund, o que indica que o ciclo de valorização ainda não atingiu seu pico — independentemente do que aconteça no Mundial.

Cresceu, sim — mas a história começou numa quadra de futsal em Hamamatsu, com um brasileiro chamado Mario Anmitsu e uma parceria que o Santos talvez nunca tenha imaginado que produziria um zagueiro de 30 milhões de euros.