Quem, há quatro anos, apostaria que o garoto que carregava cimento em obras no entorno do Distrito Federal estaria na lista de convocados de Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo? A pergunta não é retórica por acidente — ela captura exatamente o espanto que tomou conta da torcida brasileira quando o nome de Igor Thiago apareceu na convocação anunciada na segunda-feira, 18, no Rio de Janeiro. Vinte e quatro anos. Brasiliense. Ex-servente de pedreiro. Vice-artilheiro da Premier League.

O ar do Gama — cidade-satélite onde Igor Thiago Nascimento Rodrigues nasceu em 26 de junho de 2001 — não cheira a gramado. Cheira a asfalto quente, a feira de rua, a lona de obra. Antes de calçar uma chuteira profissional, Igor trabalhou como feirante, panfleteiro, capinador de lote, funcionário de lava-jato e servente de pedreiro para ajudar a mãe Maria Diva, que sustentava a família como gari após a morte do pai, quando Igor tinha apenas 13 anos. O futebol, curiosamente, não era nem o sonho dele — foi o irmão Maycon quem plantou a semente da bola.

O centroavante que a Premier League revelou ao Brasil

A narrativa de superação é real e comovente. Mas ela corre o risco de ofuscar o que mais interessa agora: Igor Thiago é bom o suficiente para ser titular do Brasil numa Copa do Mundo? A resposta dominante, desde a convocação, tem sido um entusiasmado sim — afinal, 22 gols em 31 jogos na Premier League 2025/2026 falam por si. Ele é o segundo maior artilheiro do campeonato inglês nesta temporada, atrás apenas de Erling Haaland, do Manchester City. E quebrou um recorde histórico: é o brasileiro com mais gols em uma única temporada da liga inglesa, superando Matheus Cunha, Gabriel Martinelli e Roberto Firmino, que tinham 15 cada.

O Cruzeiro o revelou nas bases e o lançou profissionalmente em 2020, durante a Série B — um período de crise profunda no clube. Foram 10 gols em 64 jogos com a camisa azul antes de ser vendido ao Ludogorets, da Bulgária, por 1,3 milhão de euros, na primeira negociação da era SAF. Na Bulgária, acumulou 21 gols e 11 assistências em 55 partidas, mais dois títulos nacionais consecutivos. No Club Brugge, da Bélgica, foi ainda mais devastador: 26 gols em 40 jogos na temporada 2023/24. O Brentford pagou 30 milhões de libras — aproximadamente R$ 212 milhões — para trazê-lo à Inglaterra em 2024. Uma grave lesão consumiu quase toda a primeira temporada inglesa. O que veio depois foi a explosão que ninguém mais conseguiu ignorar.

"Quando eu era criança eu trabalhei na feira, já trabalhei sendo panfleteiro, lava-jato, capinei lote demais. Fui servente de pedreiro também. Tive algumas profissões e acho que esses trabalhos me ajudaram a ser o homem que sou hoje, a formar o meu caráter, a valorizar as coisas da vida." — Igor Thiago, em entrevista à CBF TV.

O que Ancelotti enxerga num atacante de 1,91m que joga de costas para o gol

Mas será que 22 gols num clube de médio porte da Premier League se traduzem em eficiência numa Copa do Mundo, onde o espaço encolhe e o erro custa caro?

A contra-leitura existe e merece atenção. Igor Thiago nunca jogou em clube de elite europeia — o Brentford ocupa a oitava posição da Premier League com 52 pontos, brigando por vaga em Liga Europa ou Conferência, não por título. A amostra em Seleção Brasileira ainda é pequena: 71 minutos contra a França e 66 minutos contra a Croácia, com um gol. Números suficientes para convencer Ancelotti, mas não para cravar uma titularidade no Mundial.

O centroavante que a Premier League revelou ao Brasil Como Igor Thiago foi de se
O centroavante que a Premier League revelou ao Brasil Como Igor Thiago foi de se

O que o italiano parece ter enxergado, no entanto, vai além do gol. Igor tem 1,91m, força física acima da média e uma qualidade rara entre centroavantes brasileiros: a capacidade de jogar de costas para o gol, segurar a bola sob pressão e conectar o ataque ao meio-campo. Num esquema que frequentemente precisa de um pivô para liberar Vinicius Jr. e Raphinha pelas laterais, esse perfil tem valor tático concreto. O SportNavo acompanhou os dois amistosos e o padrão foi claro: Igor não desperdiça toque, não perde disputa física e, quando o espaço aparece, finaliza com convicção.

"No Cruzeiro, foi um processo em que tive que aprender muito a lidar com opiniões, críticas e elogios. Foi um crescimento mental. Não estava bem psicologicamente." — Igor Thiago, sobre os anos de formação em Belo Horizonte.

Igor Thiago na Copa do Mundo e o peso de uma estreia sem rede de proteção

Quem não tem cão caça com gato — e o Brasil chegou à Copa do Mundo sem um centroavante-referência indiscutível desde a aposentadoria de Firmino do cenário da Seleção. Igor Thiago não é o gato da situação: é um atacante que construiu credencial real, passo a passo, de Gama ao Brentford. A síntese justa é que ele chega ao torneio como opção concreta, não como surpresa de prateleira.

O risco está na inexperiência em jogos de knockout de alto nível. A oportunidade está no momento de forma: em 39 jogos pelo Brentford nesta temporada, são 25 gols — número que pode crescer no domingo, quando o clube enfrenta o Liverpool na rodada final da Premier League. Se confirmar a convocação com mais um tento, Igor chega ao Mundial em alta histórica. A Copa começa com o Brasil estreando no grupo, e Ancelotti já sinalizou que pretende usar o centroavante como opção real de segundo tempo — ou, dependendo do adversário, desde o apito inicial.