Há um paradoxo incômodo no coração da preparação das seleções europeias para a Copa do Mundo: quanto mais um time testa, mais expõe; quanto menos testa, mais arrisca. Inglaterra e França parecem ter escolhido lados opostos desse dilema — e os dois parecem estar errados.
O fantasma de 1966 revisitado em Wembley
Em junho de 1966, às vésperas do Mundial que a própria Inglaterra sediaria e venceria, a seleção dos Três Leões foi derrotada pela Dinamarca em amistoso — um resultado que os jornais britânicos rapidamente varreram para baixo da tapete. A história tem memória curta para resultados preparatórios, mas o futebol não. Cinquenta e oito anos depois, em Wembley, a Inglaterra sofreu o que os livros de estatística já registraram como a primeira derrota para uma seleção asiática no futebol masculino: 1 a 0 para o Japão, decidido por gol de Kaoru Mitoma aos 23 minutos. O resultado encerrou uma série de 21 jogos consecutivos em que os ingleses marcaram pelo menos um gol.
Thomas Tuchel, que chegou ao cargo com uma campanha eliminatória impecável — oito vitórias em oito jogos, sem gols sofridos — viu o crédito acumulado naquele ciclo ser questionado por dois amistosos de março: o empate em 1 a 1 com o Uruguai e a derrota para os japoneses. A escalação de Phil Foden como falso nove, na ausência de Harry Kane, que treinou separado por problema muscular leve, não funcionou. Nem Foden nem Cole Palmer criaram perigo real à meta adversária, e o time terminou a partida sem um único chute no gol.
Para o amistoso de sábado, dia 6 de junho, contra a Nova Zelândia no Raymond James Stadium, em Tampa, Kane deve retornar ao time titular. O centroavante encerrou a temporada pelo Bayern de Munique com 58 gols em todas as competições, sendo 36 na Bundesliga — artilheiro da competição pela terceira vez consecutiva. Em fevereiro de 2026, atingiu a marca de 500 gols na carreira profissional. O retorno do capitão resolve o problema imediato, mas não responde à pergunta estrutural: o que Tuchel faz quando Kane não está em campo?
Quatro jogadores do Arsenal — Declan Rice, Bukayo Saka, Eberechi Eze e Noni Madueke — foram poupados do jogo de Tampa após disputarem a final da Champions League no último sábado, perdida para o Paris Saint-Germain. Dean Henderson, finalista da Conference League pelo Crystal Palace, também se juntará ao grupo com atraso. A ausência simultânea dessas peças limita a leitura real do sistema que Tuchel pretende usar contra a Croácia, no dia 17 de junho, em Dallas.
Deschamps e o teste de baixa intensidade em Nantes
A França jogou hoje, 4 de junho, contra a Costa do Marfim, em Nantes — transmitido pelo SporTV para o Brasil —, mas o amistoso teve contornos de treino coletivo disfarçado. Sem alguns titulares habituais, Didier Deschamps usou o jogo para observar alternativas e recuperar confiança de jogadores que tiveram pouco espaço no clube durante a temporada 2025/2026.
O problema com essa lógica é exatamente o que ela omite. A Costa do Marfim, adversária desta quinta, integra o Grupo E ao lado de Alemanha, Equador e Curaçao — um grupo de exigência razoável, mas distante do nível de Noruega e Senegal, os adversários que aguardam a França no Grupo I. Testar contra uma seleção africana sem os melhores titulares produz um dado de difícil extrapolação. O resultado, qualquer que seja, diz pouco sobre o que acontecerá quando o jogo valer ponto.
"Um amistoso sem os seus melhores jogadores não é um amistoso — é um treino com plateia. E plateia não marca gol", disse um comentarista da TV francesa, após o anúncio da convocação alternativa de Deschamps para a data FIFA de junho.
A França busca o tricampeonato mundial. Campeã em 1998 e 2018, a seleção chega ao torneio apontada por boa parte dos analistas como favorita, mas a preparação recente levanta dúvidas sobre o ritmo coletivo. O equilíbrio entre poupar titulares e manter entrosamento é uma equação que nenhum técnico resolveu de forma definitiva — e Deschamps, com 55 anos de futebol vividos, sabe disso melhor do que ninguém.
O modelo espanhol e a lição que Inglaterra e França ignoram
Enquanto ingleses e franceses oscilam entre o teste excessivo e o teste insuficiente, a Espanha construiu uma preparação que sugere clareza de propósito. Luis de la Fuente recebeu nesta quarta-feira, 3 de junho, os últimos três convocados: Fabián Ruiz, do PSG, e Zubimendi e David Raya, ambos do Arsenal — os três liberados anteriormente por terem disputado a final da Champions League em Budapeste, no último sábado. Com o grupo de 26 atletas reunido, a Fúria jogou nesta quinta contra o Iraque, no Estádio Riazor, em La Coruña, na despedida diante de sua torcida antes do Mundial.
Os três recém-chegados não devem ter iniciado entre os titulares — respeito ao desgaste físico após uma decisão continental —, mas a presença deles no grupo já comunica algo: a Espanha quer testar o elenco completo, e não apenas um recorte dele. Após o amistoso desta quinta, a delegação viaja ao México, onde enfrenta o Peru no dia 8 de junho, em Puebla, antes de estrear no Grupo H no dia 15, contra Cabo Verde, em Atlanta. Arábia Saudita e Uruguai completam a chave espanhola.
A comparação histórica é inevitável. Nas vésperas da Copa de 2010, a Espanha chegou ao torneio na África do Sul após uma Eurocopa de 2008 que havia solidificado o estilo de jogo — e usou os amistosos preparatórios para afinar o toque de bola, não para reinventar o sistema. Venceu o Mundial. Em 2014, a Itália testou variações táticas até a véspera do torneio, sem consolidar nada, e caiu na fase de grupos. O padrão histórico favorece quem chega ao Mundial com identidade, não com dúvidas.
O que os amistosos de junho realmente revelam sobre o Mundial
Existe uma tentação jornalística — registrada pelo SportNavo em coberturas anteriores de Copas — de supervalorizar resultados preparatórios. Em 2014, a Alemanha perdeu para a Armênia em amistoso e foi campeã mundial semanas depois. Em 2010, a Espanha empatou com os Estados Unidos antes de vencer os seis jogos seguintes no torneio. Os dados históricos sugerem que o resultado do amistoso importa menos do que a estrutura tática que ele revela — ou esconde.

Nesse sentido, a derrota da Inglaterra para o Japão preocupa menos pelo placar e mais pelo que expôs: a dependência absoluta de Kane como referência ofensiva e a ausência de um plano B reconhecível. A França preocupa menos pelo adversário escolhido e mais pela sinalização de que Deschamps ainda não encontrou o onze ideal para começar o torneio. A Espanha, por sua vez, preocupa quem vai enfrentá-la — não pela lista de convocados, mas pela sensação de que o time sabe exatamente o que quer fazer com a bola.
A Nova Zelândia, próxima adversária da Inglaterra no sábado em Tampa, chega ao amistoso após uma goleada de 4 a 0 sofrida para o Haiti, em Fort Lauderdale — resultado que expôs fragilidades defensivas que tornam o jogo um teste de baixíssima resistência para os ingleses. Se Tuchel não obtiver respostas táticas convincentes contra os neozelandeses, a estreia contra a Croácia, em 17 de junho, chegará com mais interrogações do que um técnico que construiu oito vitórias seguidas nas eliminatórias poderia imaginar.









