Diz-se que Cristiano Ronaldo é insubstituível em Portugal — que sem ele no centro do ataque, a seleção perde identidade e referência. O empate por 1 a 1 diante da República Democrática do Congo, na estreia do Mundial de 2026, colocou exatamente essa premissa em xeque. E foi John Terry, ex-zagueiro e capitão do Chelsea, quem trouxe o argumento mais cirúrgico ao debate: não se trata de tirar Ronaldo, mas de usá-lo diferente.
Portugal tropeça na estreia e CR7 some do jogo
O tropeço da seleção portuguesa no primeiro jogo do Grupo F foi sintomático. Diante de uma RD Congo organizada e compacta, Roberto Martínez não conseguiu encontrar o encaixe tático esperado, e o resultado de 1 a 1 expôs as limitações de um esquema que ainda parece depender demais de um único protagonista. Cristiano, aos 41 anos, teve uma atuação apagada — praticamente sem finalizações relevantes, desconectado das jogadas e incapaz de impor seu ritmo físico habitual a defensores que o conhecem de memória.
A imagem do camisa 7 português caminhando pelo gramado enquanto a bola circulava longe dele lembrou, de certa forma, o compasso vagaroso da Lapa num domingo cedo — tudo acontece ao redor, mas o centro permanece parado. A comparação é dura, mas honesta: Ronaldo não foi o pior jogador em campo, mas também não foi a solução que Portugal precisava.
Estatisticamente, o problema tem antecedentes. Na Liga das Nações 2024/2025, Portugal apresentou índices de posse e criação superiores nos jogos em que Bruno Fernandes teve mais liberdade para conduzir o meio-campo sem precisar orbitar ao redor de Ronaldo. A dependência do camisa 7 como referência ofensiva central tem custo tático — e esse custo apareceu no pior momento possível.
Terry não descarta CR7, mas redesenha o papel dele
A análise de Terry, publicada antes do segundo jogo de Portugal no torneio, rejeitou tanto o catastrofismo quanto a defesa cega do status quo. O ex-defensor foi direto ao ponto ao avaliar o desempenho de Portugal na estreia:
"Não, definitivamente não. Uma coisa que você não faz com jogadores de classe mundial como ele é descartá-los. Ele foi ruim naquela noite e Portugal foi ruim como um todo? Sim, achei que foram. Bruno Fernandes é o futuro de Portugal? Sim, ele é. Ele é fundamental para isso. Mas eu certamente não vou ficar aqui descartando Ronaldo. Acho que Portugal tem mais a dar nesta competição. Acho que eles vão avançar."
A declaração tem peso específico vindo de quem passou anos marcando os melhores atacantes do mundo na Premier League. Terry sabe, pela experiência de zagueiro, o que significa enfrentar um jogador descansado nos minutos finais — e foi exatamente esse argumento que ele usou para defender Ronaldo como substituto de impacto.
"Ronaldo é um jogador de amplitude e de momentos. Se você o ver saindo do banco por 15, 20, 30 minutos de jogo, você ficaria apavorado como defensor. Não só pela ameaça de gol, mas pelas faltas, pelas bolas paradas."
Terry ainda citou declarações pré-torneio de Martínez, nas quais o treinador espanhol deixou claro que as convocações seriam baseadas no que é melhor para a equipe — uma sinalização de que o técnico tem abertura para tomar decisões difíceis, mesmo que isso signifique poupar Ronaldo para determinadas partidas.
O argumento tático por trás da reserva de luxo
A ideia de Ronaldo como impacto do banco não é nova no futebol de alto nível. Em Copas do Mundo anteriores, veteranos como Luca Toni na Itália de 2006 e Miroslav Klose na Alemanha de 2014 tiveram seus minutos gerenciados pela comissão técnica sem que isso diminuísse sua relevância no torneio. Klose, por exemplo, entrou como substituto em fases decisivas e ainda assim se tornou o maior artilheiro da história das Copas, com 16 gols.

No caso de Ronaldo, os números físicos de 2026 são objetivos: aos 41 anos, nenhum jogador de linha mantém o mesmo nível de explosão por 90 minutos que mantinha aos 30. O que permanece intacto — e isso Terry sublinhou — é a ameaça psicológica que ele representa para qualquer defesa adversária. Um zagueiro que vê o número 7 aquecendo no banco a partir dos 60 minutos precisa dividir a atenção mental entre o jogo em andamento e o que vem por aí.
Bruno Fernandes, por sua vez, tem sido o melhor jogador de Portugal nos últimos dois anos de competições UEFA. Com 12 gols e 9 assistências pela seleção desde o início de 2024, o meia do Manchester United é hoje o cérebro operacional da equipe — o jogador que conecta os setores, que distribui em velocidade e que cria espaços com ou sem a bola. Martínez sabe disso, e a lógica de Terry reforça que Portugal joga melhor quando Fernandes tem autonomia real no meio.
Portugal volta a campo pela fase de grupos do Mundial de 2026 com a obrigação de vencer para não complicar sua classificação às oitavas de final. Se Martínez optar por poupar Ronaldo na titularidade e escalá-lo apenas no segundo tempo, como Terry sugere, a pergunta que fica é concreta: se CR7 entrar nos 20 minutos finais com a seleção precisando do gol, ele ainda tem capacidade física de ser o decisor que sempre foi — ou a Copa de 2026 será o primeiro torneio em que Portugal precisará vencer apesar dele?










