O que separa uma promessa de um protagonista? Takefusa Kubo carregou esse peso durante anos — o de ser o garoto que poderia ser tudo e que, nas horas decisivas, ficava no quase. Quase fez o gol, quase deu a assistência, quase virou o jogo. Na Copa do Mundo de 2022, no Catar, essa palavra voltou a persegui-lo: o Japão eliminou Alemanha e Espanha, escreveu uma das histórias mais bonitas do torneio, e Kubo saiu do palco sem ter dito nada de relevante. Ao lado de Daichi Kamada, foi apontado como um dos que deixaram a desejar num grupo que entregou muito mais do que se esperava.
Três anos e meio depois, o cenário mudou a ponto de ser irreconhecível. O jogador que chegou ao futebol europeu com o apelido de 'Messi japonês' — título que ganhou ainda nas categorias de base do Barcelona, onde ingressou em 2011, aos dez anos, antes de ser devolvido ao Japão por irregularidades na transferência — hoje não precisa de comparações para justificar seu valor. A Real Sociedad o elegeu jogador do ano da temporada 2025/2026 e renovou seu contrato até 2029. Com mais de 150 partidas pelo clube basco, Kubo não é mais o herdeiro de ninguém. É ele mesmo.
O que os números da Real Sociedad revelam sobre a maturidade de Kubo
Quando dribla um adversário no corredor direito em San Sebastián, ele não procura o espetáculo pelo espetáculo — procura a decisão certa. Quando recebe de costas para o gol, ele gira com velocidade controlada, não com frenesi. Essa distinção, aparentemente sutil, é o que separa o Kubo de 2019 — contratado pelo Real Madrid com 18 anos e emprestado em sequência para Mallorca, Villarreal, Getafe e novamente Mallorca antes de encontrar estabilidade — do Kubo que hoje acumula prêmios individuais na La Liga. Foram quatro empréstimos em quatro temporadas, um percurso que teria partido qualquer jogador de constituição frágil.
O pivô da virada foi a chegada definitiva à Real Sociedad, em julho de 2022, por €6 milhões — com o Real Madrid retendo 50% dos direitos econômicos, numa demonstração de que o clube merengue nunca perdeu a fé no talento do japonês. A partir dali, pela primeira vez na carreira europeia, Kubo teve continuidade real. E continuidade, no futebol, é o único laboratório que transforma potencial em consistência.
"Quem sabe, este jogo pode ter sido o ponto de partida para Takefusa Kubo se tornar protagonista na seleção", escreveu o portal Ge após uma partida em que Kubo marcou um gol e deu duas assistências na vitória do Japão por 6 a 0 sobre El Salvador.
Da base do Barcelona ao peso da camisa 10 dos Samurais Azuis
A trajetória de Kubo tem uma ironia que o futebol adora construir: o menino que não pôde jogar pelo Barcelona porque o clube catalão violou regras de transferência de menores acabou sendo moldado, paradoxalmente, pela instabilidade que se seguiu. Mallorca, Villarreal, Getafe — cada passagem deixou uma camada diferente. No Villarreal, aprendeu a jogar em sistemas táticos mais sofisticados, ainda que com apenas 19 partidas e um gol. No Getafe, entendeu o que significa sobreviver em ambientes hostis, onde a intensidade física substitui a técnica como moeda corrente.
Esse repertório acumulado chegou à seleção japonesa de forma gradual. O técnico Hajime Moriyasu, que conduziu o Japão nas duas últimas Copas, mudou o esquema tático da equipe do 4-2-3-1 para um 4-3-3 mais ofensivo, com apenas Hidemasa Morita como referência defensiva no meio. Nessa nova configuração, Kubo ganhou liberdade para se movimentar entre linhas, trocando de posição com Ritsu Doan pelo lado direito. A mudança não foi cosmética — foi o reconhecimento de que o Japão precisava de um jogador capaz de criar desordem individual numa estrutura coletiva que já funcionava muito bem.
"A capacidade de criar jogadas individuais e decidir partidas representa exatamente o elemento que faltava para os Samurais Azuis", avaliou a CNN Brasil ao traçar o perfil do atacante para a Copa de 2026.
Holanda no horizonte e a maldição das oitavas que o Japão quer enterrar
O Japão estreia na Copa do Mundo de 2026 contra a Holanda — um confronto que, por si só, mede a ambição dos Samurais Azuis. Não é adversário para testar esquema tático; é adversário para revelar caráter. Nas duas últimas edições do Mundial, o Japão chegou às oitavas de final e parou: em 2022, foi eliminado pela Croácia nos pênaltis, depois de ter liderado o grupo com vitórias sobre Alemanha e Espanha. A seleção japonesa tem a reputação de causar surpresas nos grandes palcos, mas ainda não encontrou o caminho para transformar surpresa em regularidade.
Quando Kubo recebe a bola no terço final e tem espaço à sua frente, ele é o fio condutor de tudo que o Japão quer ser neste torneio — técnico, imprevisível e capaz de decidir. Quando a pressão aumenta e o adversário fecha os espaços, ele é o termômetro que vai revelar se esta geração tem maturidade suficiente para ir além das oitavas pela primeira vez na história. O Japão chega a 2026 com uma média de idade de 25,1 anos no time titular e com jogadores formados nos melhores campeonatos europeus — uma profundidade de elenco que as edições anteriores não tinham.
Kubo completou 25 anos em junho de 2026, está no auge físico e técnico, com contrato garantido até 2029 na Real Sociedad e o status de melhor jogador do clube na temporada. O Japão enfrenta a Holanda na fase de grupos da Copa do Mundo de 2026, e uma boa exibição de Kubo logo na estreia pode definir o tom de toda a participação japonesa no torneio.








