— Espera, o Alex Sandro ainda joga pela Seleção?
— Joga. E treinou como titular hoje.
— Então o Ancelotti tá apostando no Flamengo pra Copa.
A conversa que circulou nos grupos de WhatsApp nesta sexta-feira, 29 de maio, tem fundamento factual. No treino da Seleção Brasileira em preparação para o amistoso de domingo contra o Panamá, Carlo Ancelotti escalou a seguinte formação: Alisson; Wesley, Bremer, Léo Pereira e Alex Sandro; Casemiro e Bruno Guimarães; Luiz Henrique, Matheus Cunha, Raphinha e Vinicius Jr. Danilo e Lucas Paquetá ficaram entre as opções de banco. Com quatro representantes na lista final — os dois defensores mais Gerson e Everton Cebolinha —, o Flamengo é o clube com maior presença na Seleção que disputará o Mundial.
O amistoso de domingo e o que Ancelotti precisa responder antes de junho
O jogo contra o Panamá, marcado para as 18h do domingo, 31 de maio, no Maracanã, não é teste de rotina. A Seleção chega ao confronto com três ausências de peso: Gabriel Magalhães, Gabriel Martinelli e Marquinhos disputam a final da Champions League no sábado, 30, e foram poupados da convocação. Neymar, com lesão muscular na panturrilha, segue como dúvida real para a Copa — e seu nome pode abrir vaga para Pedro, também do Flamengo. Esse contexto obriga Ancelotti a validar combinações táticas que antes eram secundárias. A dupla Léo Pereira e Bremer na zaga central, com Alex Sandro na lateral esquerda, é a resposta possível para um Mundial que começa sem os três defensores habituais do time A.
Historicamente, o Brasil nunca chegou a uma Copa do Mundo com a zaga completamente definida nos amistosos de maio. Em 1994, Parreira testou Aldair e Marcio Santos juntos pela primeira vez em março, dois meses antes do embarque para os Estados Unidos. Em 2002, Scolari usou os amistosos de preparação para consolidar Lúcio e Roque Júnior, dupla que não sofreu gol nas quatro primeiras partidas do torneio. O padrão se repete: os treinos de junho são decisivos, mas os sinais de maio apontam direção.
O que os números de Léo Pereira e Alex Sandro sustentam na análise
Léo Pereira, 28 anos, completou a temporada 2025/2026 pelo Flamengo com 47 partidas, 4 gols e apenas 1,1 gol sofrido por jogo nos duelos em que foi titular. Sua capacidade de saída de bola — 78% de acerto em passes no Brasileirão 2026, segundo dados do Opta — o diferencia de zagueiros mais físicos e menos técnicos. Pela Seleção, acumula 14 convocações desde 2023, com aproveitamento de 71% nos jogos em que esteve em campo.
Alex Sandro, 33 anos, percorreu trajetória diferente. Após passagem pelo Juventus entre 2015 e 2024 — período em que disputou 318 partidas pela equipe italiana e foi convocado para as Copas de 2018 e 2022 —, retornou ao Brasil pelo Flamengo em 2024. No Maracanã, reencontrou regularidade: 38 jogos na temporada atual, com 5 assistências e índice de duelos ganhos na lateral de 61%. Ancelotti, que o conheceu no Juventus durante a passagem pelo clube entre 1999 e 2001, tem histórico de valorizar laterais com leitura tática apurada em detrimento de velocidade pura.
"O Alex Sandro voltou ao Brasil diferente. Mais maduro, mais inteligente no posicionamento", avaliou o comentarista Caio Ribeiro em análise recente sobre a lateral da Seleção.
A comparação com os concorrentes diretos reforça a escolha. Guilherme Arana, do Atlético Mineiro, e Abner, do Lyon, são opções mais jovens, mas com menos jogos em alto nível nos últimos 12 meses. Danilo, 33 anos, que pode cobrir tanto a lateral direita quanto a esquerda, aparece como alternativa imediata — mas sua presença no banco no treino de sexta indica hierarquia clara por ora.
O que muda no mapa da Copa se a dupla mantiver o posto em julho
A Copa do Mundo 2026 começa para o Brasil em junho, com fase de grupos que inclui adversários ainda a confirmar pela chave. Se Léo Pereira e Alex Sandro chegarem ao torneio como titulares consolidados, Ancelotti terá construído uma zaga com perfil distinto das últimas edições. Em 2018, a dupla Thiago Silva e Miranda priorizava experiência; em 2022, Thiago Silva e Marquinhos combinavam liderança e velocidade. A versão 2026, sem Marquinhos disponível neste ciclo de amistosos, aposta em um zagueiro de 28 anos com bom passe e um lateral veterano com inteligência posicional.
Segundo análise publicada em matéria do SportNavo sobre os padrões defensivos de Ancelotti no Real Madrid, o técnico italiano prefere zagueiros que iniciam jogadas a zagueiros puramente interceptadores — o que explica a preferência por Léo Pereira sobre nomes mais físicos da lista.
"Ancelotti quer um zagueiro que seja o primeiro passe da equipe, não o último recurso", descreveu um membro da comissão técnica da CBF em declaração ao jornal O Globo.
O amistoso de domingo, no Maracanã — estádio onde Léo Pereira e Alex Sandro já somam mais de 80 partidas combinadas pelo Flamengo —, serve como última vitrine antes da lista definitiva para o Mundial. O Panamá, 74º no ranking FIFA de maio de 2026, é adversário que permite testar organização defensiva sem o risco de um confronto de alta intensidade. Se a dupla confirmar o que os treinos indicam, Ancelotti terá sua resposta antes de embarcar para os Estados Unidos.
A dupla tem os dados. Tem o respaldo tático. Tem o palco conhecido — falta o palco que nenhum deles ainda pisou junto.












