A última vez que o Brasil entrou em campo para um amistoso decisivo de preparação sem seu camisa 10 disponível foi em junho de 2014, às vésperas do Mundial em casa, quando Neymar ainda carregava um tornozelo maltratado e a comissão técnica de Luiz Felipe Scolari administrava a ansiedade de uma nação inteira. Doze anos depois, o roteiro tem semelhanças desconcertantes: Neymar novamente fora de campo, desta vez com uma lesão de grau 2 na panturrilha direita que o tirou dos amistosos contra Panamá e Egito e o coloca em risco até para a estreia do Brasil contra Marrocos no dia 13 de junho. A diferença é que, em 2026, quem ocupa o espaço não é um improvisado — é Luiz Henrique, titular confirmado por Carlo Ancelotti no Maracanã neste domingo (31).
A lesão que reorganizou o ataque brasileiro
O diagnóstico de grau 2 na panturrilha direita de Neymar impõe um prazo de recuperação que pode chegar a 20 dias, inviabilizando sua participação nos dois amistosos preparatórios e colocando em xeque até a estreia no Grupo C. O presidente da CBF, Samir Xaud, que acompanhou a final da Copa Norte em Manaus na quinta-feira, foi questionado sobre um possível corte e respondeu com cautela calculada.
"Neymar é um grande jogador, que foi convocado pelos méritos dele, pela evolução que ele teve. O que a gente quer é que tenham os 26 melhores. Sempre quando tem um jogador lesionado, a gente sente, a gente fica preocupado — mas acredito que o mister vai montar a melhor equipe com as peças que ele tem", afirmou Xaud.
A declaração do dirigente é reveladora por aquilo que não diz. Três titulares já foram perdidos neste ciclo final — Militão, Rodrygo e Estêvão —, e agora o atleta mais carismático do grupo enfrenta uma corrida contra o calendário. O Brasil estreia em 13 de junho, data que não espera recuperação de ninguém.
Luiz Henrique, do Zenit, na frente de Rayan e Endrick
A escalação confirmada por Ancelotti para o duelo contra o Panamá é: Alisson; Wesley, Bremer, Léo Pereira e Alex Sandro; Casemiro e Bruno Guimarães; Luiz Henrique, Matheus Cunha, Raphinha e Vinicius Jr. Chama atenção que o ponta do Zenit, de 23 anos, tenha saído na frente de Rayan e Endrick na disputa pela terceira vaga no ataque — uma posição que, até poucas semanas atrás, era tratada como em aberto. A mãe do jogador, Luciele Rosa, resumiu a trajetória com a simplicidade de quem viveu cada etapa.

"Foi uma luta muito grande, não foi fácil. Mas, graças a Deus, chegamos aqui e queremos mais. Vamos batalhar por muito mais, que é o que o menino quer", disse Luciele ao Terra.
Ela também lembrou que o filho "nasceu jogando futebol" e que, em casa, "tudo se tornava uma bola". A história tem textura de clichê mas os números do jogador na temporada 2025/2026 pelo Zenit sustentam a escolha técnica. Luiz Henrique vinha sendo um dos reservas mais acionados por Ancelotti nas últimas Datas Fifa, construindo entrosamento com Vini Jr pelo lado esquerdo — o que permite ao Brasil variar entre saídas pelo flanco direito e triangulações pelo centro com Matheus Cunha.
Ancelotti sinaliza a base para Marrocos
Antes de a bola rolar no Maracanã — com mais de 70 mil torcedores esperados e personalidades como Ronaldinho Gaúcho e o cantor Thiaguinho presentes nos camarotes —, Ancelotti foi objetivo ao cravar o que a escalação representa. Decidiu.
"Muito diferente, não. Parecido. Mas temos que aproveitar esse jogo para melhorar a condição, a conexão entre os jogadores. Vou dar minutos a todos os jogadores. Criar um bom ambiente, aumentar a confiança. Podemos fazer muitas coisas nesse jogo contra o Panamá: jogar com intensidade, alegria, humildade", afirmou o treinador italiano.
A declaração tem peso estratégico. O acordo entre as delegações de permitir até 11 substituições ao longo da partida indica que Ancelotti quer testar profundidade de elenco — mas a ordem dos primeiros titulares é o sinal que a imprensa e a torcida precisavam. Marquinhos e Gabriel Magalhães, que disputaram a final da Liga dos Campeões no sábado e ainda vão se apresentar ao grupo, nem sequer participaram da escalação, o que reforça que Bremer e Léo Pereira formam uma dupla de zaga funcional para o começo do torneio.
O Brasil tem histórico amplamente positivo contra o Panamá: quatro vitórias e um empate em cinco jogos, 17 gols marcados e apenas um sofrido. O único tropeço foi um 1 a 1 em 2019, em Portugal, com gol de Lucas Paquetá. Contra a seleção panamenha — que chega ao Maracanã após dois amistosos contra a África do Sul, um empate por 1 a 1 e uma vitória por 2 a 1 —, o Brasil tem a chance de rodar o elenco e ainda calibrar o trio ofensivo que provavelmente estreará no Grupo C.
O que o torcedor brasileiro precisa acompanhar antes de 13 de junho
A pergunta que fica depois deste domingo vai além do placar contra o Panamá. O Brasil enfrenta o Egito no dia 6 de junho, já nos Estados Unidos, e esse será o último termômetro real antes de Marrocos. Se Neymar não estiver em condições de jogar contra os africanos — o que o prazo de recuperação de 20 dias torna bem provável —, Ancelotti precisará decidir se mantém Luiz Henrique como titular absoluto ou se testa variações com Matheus Cunha deslocado para o lado e Endrick como referência central. Douglas Santos, lateral-esquerdo do Zenit que ficou nove anos fora da Seleção e reencontrou a convocação graças à persistência valorizada por Ancelotti, também terá minutos neste domingo — e seu pai, Marcos Justino, esteve no Maracanã para acompanhar, lembrando que o filho foi titular na final olímpica de 2016 neste mesmo estádio.
O jogo contra o Egito, no dia 6 de junho, transmitido pela TV Globo e SporTV, será o teste definitivo do ataque sem Neymar — e o mais importante para quem quer entender como o Brasil chega ao dia 13 contra Marrocos.











